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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

17
Ago07

Ó Nélia, esquece lá isso

pickwick

Depois de umas horas ao volante pelas estradas portuguesas pouco abaixo do rio Douro, cruzando-me com mais matrículas estrangeiras do que nacionais, ouvindo a Rádio Comercial e outras estações não tão nobres onde aquela peca em cobertura, os meus pensamentos voaram até uma vedeta que circula por aqui e por ali, enchendo-se de dinheiro e fama às custas dos consumidores. Falo da Nélia, essa estrela da canção esganiçada. E, nada de confusões: é Nélia Furtado, e não Nelly Furtado, ok? Se os brutos do continente dos mustangs não sabem soletrar o “a” no final do nome da rapariga, problema deles! Aprendam! Broncos! Ora bem, como já toda a gente deve ter reparado, a Nélia é, também, vedeta de um spot que costuma passar na Rádio Comercial, em que diz não sei quê, ah e tal, pisca o olho, e acaba com “bêjinhus”! E aqui é que está! “Bêjinhus”? Mas que raio é isso, Nélia? Será que queres dizer “beijinhos”? Tipo beijocas, choca-beiças, ou coisa do género? Vou acreditar que sim. Assim sendo, ou seja, partindo deste pressuposto, devo dizer-te, Nélia, que não estou interessado nos teus beijinhos. Embora não te conhecendo pessoalmente, devo dizer que, quando te ouvi pela primeira vez a distribuir beijinhos na rádio, tive que ir à Internet procurar umas fotografias tuas, para ver como tu eras, para ver se tinhas uns lábios sensuais, para ver se valeria a pena receber beijinhos teus. Como não tenho televisão em casa, tenho que me socorrer destas modernices, percebes? No princípio desta pesquisa, comecei a ficar fascinado. As imagens que apareciam mostravam uma brasa, um mulherão daqueles de fazer resfolgar o mais fogoso dos garanhões, uma deusa. Enfim, pouco depois descobri a verdade: tudo não passava de transfigurações, ou por maquilhagem, ou por fotomontagem. A verdade é que, em pouco tempo, descobri o teu verdadeiro “tu”. Uma fulana vulgar, demasiado vulgar, tipo lavadeira de terraços, feições mal feitas e desproporções corporais. Não é que eu seja esquisito, mas é que é mesmo assim. Até senti arrepios, vê lá tu, ao imaginar um beijo teu, frio, insensível, desumano, pegajoso, mórbido, besuntado. Lábios feitos de sola de sapato, secos e sem sabor. Um nojo! Isso de ah e tal umas cantigas e umas maquilhagens podem convencer o povo, mas não me convences a mim. Mulher que é bonita, salta à vista sem qualquer maquilhagem. E essas, são raras. O resto, é como tu: só brilham com um jeitinho. Um grande jeitinho! Depois, quem acordar no dia seguinte ao teu lado na cama, que se amanhe e reze para não sofrer de problemas cardíacos. Não leves a mal estes rasgos de sinceridade. Antes de viveres ofuscada pelas luzes da ribalta, por certo tinhas espelho em casa e sabias muito bem o que lá encontravas. Compreendo que, agora, te seja difícil recordar esse passado pouco ofuscante. Eu, se de repente começasse a vender milhões de discos e a andar misturado com estrelas e a usar pó de arroz e a besuntar as beiças diariamente com batom psicadélico e a posar para fotógrafos profissionais, acho que também me convenceria que era um rapaz estupendamente lindo e bem feito e atraente e incapaz de tirar macacos do nariz. Aliás, acho que me bastava vender uns milhares de discos e começar a usar batom para ter, em poucas semanas, dezenas de fãs histéricas e babosas, a aparecerem nos meus concertos com placas gigantes a dizer “you’re hot” e “come and eat me” e outras frases igualmente românticas. Até que, um dia, quiçá, surgiria uma bloguista do contra, que teceria comentários pouco abonatórios e pouco dignos da minha condição de estrela, argumentando com o meu mau aspecto natural, as minhas olheiras permanentes, o excedente de peso, blá blá blá, e depois eu teria que descobrir quem era a safada e apanhá-la e dar-lhe uma carga de pancada e partir-lhe os dentes e arrancar-lhe o cabelo e metê-la a assar num micro-ondas. Felizmente, para evitar toda esta turbulência, com batons e arraiais de pancadaria, fico-me pela futilidade da minha existência, deixando para ti toda a diversidade de variáveis que vêm por acrescento à fama, incluindo gajos chatos a fazerem tratados científicos sobre as tuas virtudes. É a vida! Seja como for, ó Nélia, esquece lá isso dos “bêjinhos”, está bem? pickwick

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