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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

15
Ago07

Memórias à esquerda

pickwick
Outro dia fui a Inglaterra. Como quem vai ali a Coimbra beber uns copos. Vai-se bem de avião até Inglaterra, naqueles voos suspeitos, baratos, com mais hospedeiros do que hospedeiras. Aliás, nestes voos, não há hospedeiras. Há, apenas, umas sopeiras que se vestem como quem vai para um desfile de Carnaval, com roupas pedidas às amigas e primas. Numa companhia de aviação a sério, a circulação das hospedeiras pelos corredores tem mais audiência do que qualquer outro acontecimento a bordo. Nestes voos baratos, bem, só nos resta olhar para os decotes das companheiras de viagem, quando as há, ou mirar pela janela, para o infinito, entre dois suspiros de infelicidade. Nestes voos baratos, não há sofás: os bancos têm ar de bancos de jipe, duros e desconfortáveis, com cintos de resistência duvidosa. Não oferecem comida, nem bebida, nem sequer um copinho de Coca-cola; uma sandocha ordinária custa tanto como uma ida a um rodízio à brasileira. Tudo tem um ar suspeito e, tanto na ida, como na vinda, ia jurar que um dos hospedeiros de bordo era larilas. Se calhar fiquei com essa impressão por causa daqueles gestos que são obrigados a fazer para fingirem que explicam como é que os passageiros se salvam no caso de o avião cair ou chocar contra o Big Ben.
 
À saída do aeroporto, já agoniado com tanta gente doente com quem me cruzei e que abunda naquelas paragens, esperava-nos um carro alugado. Uma bomba, um Fiat Punto novinho em folha. Já passava da meia-noite, o que era uma vantagem para quem se ia iniciar na condução à esquerda.
(Bom, iniciação, não é bem. Em tempos idos, há mais de duas décadas, vivi uns anos num lugarejo onde se conduzia pela esquerda. Na altura, ri-me que nem um perdido no banco de trás do Honda da família, enquanto a minha mãezinha treinava a condução à esquerda, a bater constantemente com o braço direito na porta à procura da manete das mudanças, a guinar o carro de um lado para o outro e a praquejar como se fosse a conduzir uma carroça puxada por mulas teimosas. Depois habituou-se. Eu, na altura, também me habituei a conduzir a bicicleta pela esquerda, até porque, quando se é jovem, tudo é mais fácil de aprender. Embora, devo confessar, o regresso a Portugal tenha sido marcado por alguns incidentes menores, com a minha pessoa a protagonizar momentos de grande emoção ao entrar rua-sim-rua-não em sentido contrário, a pedalar ferozmente na minha bicicleta, completamente baralhado com os sentidos.)
 
Sair do parque de estacionamento até não foi muito difícil. O carro cheirava a novo, o que ajudava a aumentar o stress. Logo na primeira estrada que apanhámos, o meu co-piloto deu largas à fome que o vinha a assaltar desde a saída de Portugal, engolindo de forma selvagem apetitosas batatas fritas de origem suspeita. Eu só queria que o meu co-piloto me co-pilotasse e me repetisse “pela esquerda! pela esquerda!” para eu não fazer nenhuma asneira… mas não… limitou-se a encher-me a boca com batatas fritas e a voltar a encher a dele com o mesmo repasto. Às tantas, sucumbi ao stress de conduzir pela esquerda, de noite, a bater constantemente com o braço direito na porta, com um fedor a fritos no ar; e parei o carro. Para comer, claro. Finda a comida, arrancámos, sendo que o meu co-piloto prestou-se ao auxílio que lhe competia, com um sorriso sádico em face da minha atrapalhação ao volante. Até que entrámos numa auto-estrada. A partir daí e praticamente até acabar os 250 km de viagem até à costa, o meu co-piloto não fez mais nada senão roncar. Enfim. Achas bem, ó co-piloto?
 
Chegámos ao destino por volta das cinco e tal da madrugada. A cidade portuária dormia. Só umas gaivotas se armavam aos cágados, a darem às asas feitas doidas. Dei uma volta pela cidade, para fazer o reconhecimento ao local, ver pontos-chave para o dia, fixar referências e apreciar os barcos. Fui estacionar o bólide já na periferia do centro, numa zona habitacional, onde não se podia estacionar mas eu só ia parar para roncar um bocado. Lá para as 8h00, já não se podia. A calmaria da cidade foi substituída pela rotunda do Marquês do Pombal em hora de ponta. Que confusão. E tudo pela esquerda. Felizmente, o programa do dia era para andar apeado, daí que fomos deixar o carro ainda mais além, perto de umas casas, onde, finalmente, não havia proibição de estacionar. Desde o ali até ao mais além, note-se, foi um caso sério, um drama rodoviário, com cruzamentos pela esquerda, rotundas pela esquerda, setas pela esquerda, pombas e gaivotas, avenidas e bicicletas, uma grandessíssima confusão!
 
A pé anda-se melhor, naquele país. Fomos apanhar um barco para uma ilha, onde fica uma espécie de reserva natural que queríamos visitar. Era Julho, estávamos em Inglaterra, mas havia mesmo necessidade de chover torrencialmente e fazer uma violenta ventania e o mar estar todo picado e o barco ir carregado de pessoas e bagagens? Claro que não. Mas foi assim mesmo! Sem condições! Na ilha, não havia animais. Só pavões pirosos. E árvores. E gente. Fomos enganados. Os ingleses não têm noção do que é uma reserva natural. Tem que ter javalis, raposas, ratos, cobras, sapos, mais javalis, doninhas, mais ratos, lagartos, caçadores, piqueniques, carros com casalinhos em movimentos suspeitos, lixo, mais ratos, pescadores, preservativos usados, açores, pardais, codornizes, patos bravos, garrafas de água vazias, melros, latas de atum ferrugentas, formigas, rãs, beatas, etc. Os ingleses não percebem nada disto! Enfim.
 
E comida? Bem, para começar, em Inglaterra não há ingleses. É tudo um mix de gente. Logo, não há gastronomia britânica. Se houver, por favor, não lhe chamem gastronomia. Chamem-lhe outra coisa qualquer. O remédio, era mesmo comer no belo do Mac. O menuzinho Big Mac, a cocacolinha frescola e a batatinha fritola. E o café! Que nojo! Servem os cafés logo pela manhã em baldes, com sabor a… a… a baldes de meter a esfregona e limpar o chão, é o que é! Aquilo não parece um país. Parece é o Algarve. Ou o Allgarve. Ou whatever! Até no supermercado tudo tem um ar suspeito. Bom, tudo, não. No supermercado, o que choca mesmo é a falta de guardanapos, esse instrumento de utilidade múltipla e fineza imensa. Francamente, um gajo ao fim de oito minutos dentro de um supermercado naquele país fica com uma vontade quase incontrolável de começar a derrubar prateleiras, pegar fogo às hortaliças e estilhaçar tudo o que é de vidro. Mais valia ir daqui com umas latinhas de Bom Petisco e três chouriças para assar.
 
Preços e lojas são mais duas coisas que se me ficam aqui atravessadas. Tudo é caro. Um gajo quer sacudir a pilinha num mictório, toma lá 20p! Um pêssego, toma lá quinhentos paus. À hora de começarmos a descobrir as lojas que interessavam, estão elas a fechar, ainda a meio da tarde, com os vendedores a rumarem não sei para onde, provavelmente para o descanso das suas casas. Onde é que os ingleses passam o tempo?
 
Resta terminar com a constatação de que a cueca-fio-dental está em Inglaterra para ficar. Descaradamente! Daqui a muitos anos, o estudo universitário de um conceituadíssimo cientista revelará alterações evolutivas no corpo das mulheres inglesas, resultantes da fricção sistemática do fio dental da cueca com o mesmo nome. Em que se vai transformar toda aquela depressão geomorfológica entre-nádegas que abrange o mítico buraquinho-onde-o-sol-não-brilha? Uma imensa crosta? Mulher que se preze, não deve insistir na cueca-fio-dental. Se gosta da sensação, que convide o parceiro, amigo ou vizinho, tanto faz, para, com o suave toque das pontas dos dedos, fazer-lhe o gostinho. pickwick

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