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Terça-feira, 14 de Agosto de 2007
Serra abaixo, serra acima
Para finalizar mais um dia de séria labuta no patronato, tivemos a sempre divertida visita da loiraça dentuça, esse belo exemplar de gaja que devia submeter-se a um processo intensivo de recauchutagem geral. Para variar, trouxe uma mini-saia toda na moda, sendo que o meio palmo superior da saia era de ganga e o meio palmo inferior da saia era de folhos, tipo anos-50-como-eu-queria-ser-apalpada. Sinceramente, se não fosse aquela armação de dentes a esticar-se cá para a frente, até fazia as delícias ao olho. Mas, assim, não obrigado. Não bastante a mini-saia nova, a loiraça trouxe-nos uma caixa de bolinhos, obviamente num descarado gesto de passar-nos graxa no céu da boca. Malandreca! Deves pensar que nos compras com bolos baratos, deves. Bom, de regresso a casa, final da tarde, numa daquelas viagens fantásticas entre a nostalgia de um passado glorioso e a desilusão de um presente mórbido, decidi-me por um futuro arrebatador, a começar logo daí a parcos minutos. E assim foi. Chegado a casa, troquei de indumentária, algo mais informal e desportivo, mochila às costas, e fui à garagem ver das minhas fabulásticas duas rodas. Coitada da bicicleta. Da última vez que esteve a uso, há uns meses atrás, a coisa não correu muito bem, choveu até mais não, e caiu a noite, enfim, um desespero. Hoje, tinha os pneus em baixo, sinal de falta de uso. Nada que não se resolvesse. Daqui, do cimo da minha aldeia, embalei o velocípede serra abaixo, em direcção ao rio Mondego, pelos trilhos que abundam entre pinhais e eucaliptais e mato. Quase atropelei uma matilha de cães sem dono que batiam uma sesta à sombra de umas mimosas. Passei ao lado do posto de trabalho de uma nova meretriz, que por azar não estava de serviço. Desci, desci, desci. Como é bom descer. Cansa mais os dedos nos travões do que as pernas a dar ao pedal. É relaxante. É fácil. Um gajo sente-se bem com os astros, acha que agora é que vai dominar o mundo, e tem quase a certeza que quando chegar a casa já está com um corpo fibroso, musculado e irresistível, ao qual sucumbirão resmas de donzelas. Depois chega-se lá abaixo, à beira do rio, circula-se mais umas centenas de metros na horizontal, a acompanhar o leito, e acaba-se a brincadeira. Na Póvoa-de-não-sei-quê, termina a horizontalidade do asfalto e é tudo a subir até São não-sei-quantos do Monte. Um gajo pára vinte e nove vezes pelo caminho, a arfar que mais parece que vai saltar um porta-aviões de dentro dos pulmões. Soltam-se pragas, o corpo musculado dá lugar a um excesso de peso embaraçante, a vida torna-se cinzenta, resmunga-se pela compra idiota de uma bicicleta sem motor, tenta-se disfarçar o desespero com uma exclamação de admiração pelo pôr-do-sol magnífico e as pernas não dão mais. Ali, a única coisa positiva é o reconhecimento da inteligentíssima escolha do trajecto: na Póvoa-de-não-sei-quê um gajo passa com o vigor todo de quem ainda não deu aos pedais, para apanhar uma estrada onde não passa ninguém e na qual pode parar-se quantas vezes forem necessárias sem passar vergonhas. A chegada a São não-sei-quantos do Monte teve que ser teatral, valendo as duas centenas de metros na horizontal que antecedem a aldeia, para recuperar o fôlego e dar um ar de garanhão. No verão, estas aldeias enchem-se de emigrantes saudosistas, cheios de filhas topo de gama com saias e vestidos adequados ao calor intenso, cabelos pintados de loiro e chinelos no pé, ansiosas por sexo fácil entre dois fardos de palha. Olé! À entrada de São não-sei-quantos do Monte, a filha ninfomaníaca e meia despida de um emigrante foi substituída por uma miudinha de sete anos, que ficou de boca aberta ao ver-me pedalar pela rua principal acima, que, naquela zona, era bem íngreme. Exclamou “Ah!”. Porquê? Mas, “Ah!”, porquê? Raio da miúda! Já não há respeito? Podia ter uma irmã com dezanove anos e ir chamá-la para ver aqui o candidato a garanhão a passar na rua, não podia? Podia, mas não foi. Enfim. Já não fazem miúdas de sete anos como antigamente. Adiante, rumo à minha aldeia, ainda passei por uns quantos lugarejos e aldeolas, felizmente já num planalto confortável, para poder dar ao pedal e manter o ar de garanhão. Correu bem, num dos lugarejos, ao passar à beira de uma capela, ao lado da qual estava uma gaja toda boa à espera de não sei quem. Correu mal, porque era a descer e eu devia ir pelo menos a 190 km/h. Tão depressa que ela nem me viu. Raios partam a minha vida, a comprar bicicletas demasiado velozes. Depois, dá nisto. Após duas horas montado no selim, cheguei à porta da minha garagem. Se houvesse elevador, tinha-o apanhado para o 1º andar. Um gajo já não tem idade para estas brincadeiras em cima de duas rodas. Depois do jantar fui levar o lixo à rua e estava a ver que caía pelas escadas abaixo, sem força nas pernas. A minha sorte é que não há gajas espalhadas pelas escadas e um gajo pode cambalear à vontade. A minha sorte é que não há gajas a fazer tempo à beira dos contentores do lixo e um gajo pode gemer por todos os lados só para erguer a tampa do contentor. A minha sorte é que não há gajas na minha rua e ponto final. pickwick
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publicado por pickwick às 00:30
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