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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

27
Ago06

Chicken piri piri - 1

riverfl0w
Há muitos anos que não ia de férias para o Algarve. Quando era pequeno e andava a aprender a ler e escrever, era costume ir com a família passar umas duas semanas para aquela faixa de areia e calhaus ao sul do país. Por essa altura, era até divertido. Havia praias enormes, dava para ver o fundo do mar, apanhar conchas, pontapear uma bola e ver os dias a passar. No parque de campismo, em Lagos, onde costumávamos ficar, chocava-me constantemente com aquelas estrangeiras atrevidas que iam do banho para a tenda embrulhadas numa espécie de roupão de verão, só com dois botões, deixando qualquer minúscula rabanada de vento levantar o tecido e mostrar a estes olhinhos uma misteriosa mancha peluda pouco abaixo do umbigo. Nas praias, ficava de boca aberta quando, as mesmas estrangeiras, ou outras de calibre idêntico, despiam os bikinis ali mesmo, para vestirem roupa seca. Cenas fascinantes! Havia filas para tudo e mais alguma coisa, desde o pão até ao banho. De vez em quando uma tenda pegava fogo e havia muita animação no parque. A nossa tenda era gigante e os petiscos da minha mãe estavam sempre em consonância com o apetite que eu trazia da praia. A areia colada à camada de bedum anti-sol que era obrigado a trazer pelo corpo todo, não fazia qualquer diferença. Um belo dia, o meu pai resolveu dar outro grande passeio a pé comigo, pelo areal, até uma praia vizinha, onde toda a gente andava sem roupa! Tantos pêlos, caramba, e tantas mamas aos saltos num grupinho que jogava voleibol. Bom, isto durou até aos meus nove anos. Depois, veio uma casa nova, grande, e o dinheiro não esticava para se chegar ao Algarve. Aos catorze, salvo erro, fomos de férias até Penacova, onde a tenda serviu pela última vez. Foram quinze dias de calma, de relaxe, de pesca no rio, sem filas, sem pressas. Uma nova perspectiva de férias que me cativou para sempre. Anos mais tarde, já maior de idade, alinhei numa semana de férias no Algarve com a família, à patrão, num aparthotel todo abichanado, com piscina e muita relva. Não se conseguia ver o fundo do mar, as praias pareciam mais pequenas, as filas tinham aumentado por todo o lado, havia mais carros do que pessoas e tudo soava a porco, com muito pó e muito lixo. O único toque de continuidade, em relação à minha infância, parecia serem as estrangeiras, que teimavam em trocar o bikini em público no fim de um dia de praia, que adoravam passear-se sem roupa interior, que tinham os seios ainda maiores. Ao fim de três dias, já agonizava ali, naquele fervilhar de gente, encontrando refúgio apenas na piscina do complexo onde estávamos instalados, e apenas àquelas horas do entardecer em que o povo debanda, por falta de sol. Enfim. Este ano, a minha fã número um convidou-me para uma semana no Algarve, aproveitando um alojamento à borla. Parecia mal dizer que não. A insubstituível companhia haveria de compensar aquele cantinho de Portugal tão deprimente. E compensou. Mas nem por isso consegui evitar choques diários com aberrações da civilização. O maior, acho, foi mesmo o do “chicken piri piri”. Tabuleta sim, tabuleta não, há um “chicken piri piri” afixado com letras pomposas, esquina sim, esquina sim. Em cada, dava comigo a tentar perceber o fenómeno por detrás daquela situação. Não consegui perceber. Apenas senti. É muito deprimente… Uma faixa de Portugal, transformada na terra do “chicken piri piri”. pickwick

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