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Segunda-feira, 28 de Agosto de 2006
Chicken piri piri - 2
É, realmente, aquela terra vizinha de Marrocos fascina-me, mas pela negativa. Muito negativa. Por mim, até podia desaparecer tudo, debaixo de um tsunami devastador. Vejamos. Quando eu pensava que conhecia minimamente a fauna portuguesa, fui surpreendido por um novo e perigoso espécime: o “Algarve Tiger”. O Tigre Algarvio, para os amigos, que até deu mote para um livro em inglês. Ora, ainda ninguém se queixou de ser atacado a meio de um banho, ou serem arranhadas as costas durante o bronze, ou o bebé ser devorado directamente no carrinho. Por isso, não há nenhum tigre no Algarve, caraças! O livro traz, na capa, um inofensivo lince a dar um saltinho, e anuncia que no interior o leitor encontrará fotografias formidáveis do grande gato mais ameaçado do mundo. O tigre não é um grande gato, mas sim um touro sem chifres, com o coiro às listas. Mas, que interessa? Isto é mesmo para aqueles estrangeiros pacóvios e iletrados comprarem e exclamarem “Uah!...” Numa certa povoação, que até tem uma base aérea e não é nada pequena, encontram-se coisas estupendas. Por exemplo, uma igreja com cadeiras de esplanada, de plástico, castanhas. Nunca tinha visto tal coisa. Até naquelas aldeolas e lugarejos perdidos no cimo das serras, pobres até não poderem mais, se encontram bancos de madeira nas capelas e igrejas. Não falha. Só no Algarve é que isto acontece. Presumo que a Junta de Freguesia tenha vendido os bancos de madeira e mais uns quantos adereços religiosos aos sequiosos estrangeiros cujo dinheiro tudo podem comprar. Enfim. Nesta mesma povoação, o povo é multifacetado. O sapateiro, por exemplo, à hora em que lhe passei à porta, prestava-se a um serviço de pedicuro, embrenhado que estava num dos pés de um cliente, de tesoura em punho. A senhora dos seguros, também recebia boletins do Totoloto e Euromilhões. As lojas de artesanato típico, vendiam arte local, mas também Galos de Barcelos e outras peças oriundas de locais a centenas de quilómetros. Um fulano qualquer tem, na fachada da sua casa-loja, um vistoso painel atestando-o como inventor das irritantes cadeiras de tesoura, umas cenas sem jeito que umas alminhas julgam que podem servir de assento a um ser humano, e que se compram em todas as lojas da terra, tipo praga. Algures está escrito que as cadeiras são um legado dos romanos, mas esta gentinha não se compadece com a ética e a honestidade para vender mais. Aqui, vale tudo para meter mais uns trocos ao bolso. Ainda há quem se queixe dos ciganos, coitados… são uns santos, quando comparados com esta malta! Há um fenómeno que, de alguma forma, me mete confusão. Praticamente todas as casas do Algarve têm piscina. Só mesmo os apartamentos é que escapam, mas o respectivo condomínio tem uma, para não parecer mal. Qualquer barraca de cimento pintada de branco, tem uma piscina. São milhões! Onde vão buscar tanta água? Uma vez espreitei no Google Earth e o Algarve está polvilhado de rectângulos azuis. É impressionante! Noutros tempos, quando se falava em Algarve, falava-se em águas límpidas e mornas. As das praias, claro. Para que raio é que esta gente quer uma piscina, se tem uma praia logo ali ao lado? É para meter nojo? Será que a usam? Será que passam a vida na piscina e nem vão à praia porque a água está sempre turva e com poios a boiar? Para ter uma casa de férias com piscina, há sítios melhores e mais saudáveis. Porquê o Algarve? Será mania? Será maria-vai-com-todos? Só pode… Bem, é aqui, nesta faixa à beira-mar, que se consegue encontrar um restaurante chamado “Restaurante Português”. Em Portugal, portanto. Não é normal. Lá dentro, tentava-se criar um ambiente de restaurante lusitano, mas, francamente, não reconheci nada que fosse típico da restauração portuguesa. Mas, que interessa? A malta que lá vai comer, come qualquer coisa, tanto faz que seja coelho à caçador ou guisado de gato siamês. Todas as lojas vendem umas coisas a que chamam “fisgas”, parecidas com as fisgas que usávamos quando éramos miúdos, com a grande diferença de a bifurcação não ser uma ramificação natural da árvore, mas sim um “U” artificial e muito foleiro. Junto com as fisgas, há sempre uns tacos de basebol a dizer Benfica, ou Sporting, ou Algarve, ou não sei mais o quê, como se o desporto fosse praticado no nosso país. E lojas de indianos, chineses e paquistaneses, a venderem de tudo um pouco. Uma balbúrdia sem identificação, este Algarve. Um autêntico nojo cultural. A par desta nojeira, vêm os “resorts”, ou lá como se chamam. São aqueles complexos de férias de luxo, onde os clientes chegam de helicóptero, cada noite custa mais que três dos meus ordenados, e grande parte dos clientes são portugueses. A estes, ninguém vai ver de onde veio o dinheiro para tamanho esbanjamento? No meio disto tudo, não entendo para que inventaram aquelas parvoíces dos direitos do consumidor. O sonho de férias do português é ir para um cantinho do seu país, onde tudo está conspurcado pelo excesso de gente e uso, onde tudo é vendido a preços exorbitantes, culturalmente descaracterizado, para andar no meio de filas de gente e de carros, a partilhar metros de areia com meio mundo, chafurdando no lixo que os de ontem deixaram, um pivete a gasolina queimada e bronzeadores, putos mal educados aos gritos e empurrões, enfim… Aqui, o consumidor quer mesmo é ser enganado. E à grande! pickwick
publicado por riverfl0w às 12:30
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