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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

22
Jun07

Ai, não posso…

pickwick

Normalmente, não se gosta de reuniões de trabalho. Não é pelo trabalho em si, que com esse pode-se bem ou mais ou menos, mas é mais pela reunião. Muita gente, muitas frases a cruzar o ambiente, alta probabilidade de alguém se chatear com outrem, uns mais bem dispostos que o normal e outros com o humor de um crocodilo enfadado. Apesar disso, e fora o trabalho e o humor, as reuniões têm algumas coisas de positivo. As gajas, por exemplo. Costumo ser frequentador de duas reuniões em que a percentagem de gajas é completamente diferente: numa, costuma haver uma única gaja – que só por acaso é tão podre de boa que até incomoda – para um número variável (mas grande) de gajos; noutra, as gajas são em franca e intimidadora maioria, embora a qualidade não acompanhe a quantidade, pelo que os olhos se cansam muito mais para conseguirem captar cumulativamente uma graduação de beleza mínima. Enfim, é o que temos. Hoje, tive uma reunião do segundo género, com dois gajos e resmas de gajas, que não primavam pela beleza embora não fossem todas de se deitar fora. Pela proximidade do Verão, coincidente com a debandada geral do povinho português para paragens pirosas a sul e a oeste, achou-se por bem fazer desta reunião um momento de salutar convívio entre os intervenientes. É sempre bonito o convívio salutar. Desta feita, a parte do salutar traduziu-se numa feira gastronómica requintadíssima. Houve uns cinco quilos de queijo amanteigado, da Serra da Estrela, daquele que se abre uma tampa em cima e depois se barra no pão e depois um gajo baba-se todo e depois não quer fazer mais nada senão barrar o pão com o queijo e depois até apetece meter logo a colher na boca mas porque está lá mais gente é melhor não e depois por causa disso tem que enfardar pão até não caber mais. E bolinhos. E ovos moles. Ui, e logo ovos moles! Uns dois quilos deles, pelo menos! Quanto a mim, levei uns bolinhos redondinhos e jeitosinhos com frutos secos, dentro de um saco de pano que era do meu avozinho e que ainda trazia bordadas as iniciais dele. Este saco ainda é do tempo em que, na aldeia ribatejana do meu avozinho, o padeiro passava pela rua principal numa carroça toda pitada de vermelho, parando casa a casa para distribuir o pão. Bom, os bolinhos foram um sucesso. Quando viram o saco, as gajas ficaram logo todas histéricas, que ah e tal, são caseiros! Tão bons! Ah e tal, não estão a ver o saco? Nestes momentos, um gajo enche-se de paciência e tem de explicar que ah e tal, não são bem caseiros, porque foram comprados no Pingo Doce, está bem? Pingo Doce?, exclama chocada a gaja da frente. Se é feito no Pingo Doce, está cheio de porcarias!, completou, com um ar falsificado de enjoada, provavelmente lançando a rede para ver se ficavam todos sem vontade de provar os bolinhos e sobravam todos para ela. Azar. Os bolinhos foram devorados, muitos deles barrados com o queijo. Uma orgia gastronómica, é o que foi. Entretanto, algo parecia não correr muito bem. A maior parte das gajas, a bem dizer, só provaram do festim, e só alguns itens. Queijo? Ovos moles? Ai, não posso porque faz engordar, queixavam-se baixinho. Engordar? Está bem que, para trintonas e quarentonas, algumas delas até estão muito bem conservadas, especialmente a que ontem apareceu com cuequinhas laranja, mas não havia necessidade de ficar a ver os outros a comer! Mas, não. Fidelidade ao programa, acima de tudo. Paciência, mais sobra, concluiu a minha pessoa. Entretanto, houve sessão fotográfica para mais tarde recordar. Ai e tal que eu não sou nada fotogénica, queixava-se uma. Ai que eu também não, respondia outra. Enquanto o amador de fotógrafo se posicionava, elas ajeitavam-se para ficarem benzinho na fotografia. Ombros para trás, mamas acima, zás-zás no cabelo, barriguinha para dentro, corpo direito, cabeça ligeiramente de lado, sorriso como que apanhada desprevenida e de surpresa mas que é treta, anca para o lado, e tal. Um gajo fica com vontade de cruzar os braços e ficar a olhar para o arraial fotográfico, a apreciar as habilidades e os tiques. Ai, então já tiraste a foto?, é que eu estava a pentear-me. Mas, verdade seja posta na mesa, há que reconhecer que não são muitas as mulheres trintonas e quarentonas que ainda se preocupam com a aparência física. Frequentemente cruzo-me com mulheres acabadinhas de entrar nos trinta que mais parece estarem de saída dos quarenta, de tão mal estimadas que estão, de tanta falta de cuidado que colocam no seu corpo e na sua aparência. Portanto, apesar de, assim num primeiro relance, as minhas colegas de trabalho parecerem um bocado pirosas com aquelas preocupações todas, é um facto que são merecedoras de todo o meu apreço. Cuidam-se e fazem por parecer bonitas e atraentes. E conseguem-no! É de louvar. Se assim não fosse, haveria raros dias de sol durante o ano. Se assim não fosse, nem a melhor das anedotas me faria sorrir. E, por falar em sorrir… mas o Verão nunca mais chega?! Estou farto de as ver ainda de casaco! Arre! pickwick

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