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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

21
Jun07

A violação da Susana

pickwick

Por falar em mulheres com os copos, que é uma coisa sempre bonita, ocorre-me uma cena passada há uns… xii… já foi há muitos anos!… Em 1985, se a memória não me falha. Poxa! Acho que nunca contei isto aqui no blog. Bem, fui a uma festa de anos de uma miúda cujo nome não me ocorre, mas que era uma das namoradas do meu amigo Almeida. À mesma festa iriam alguns conhecidos e alguns amigos. Uma coisa discreta, no minúsculo apartamento da aniversariante, aí com umas dez pessoas. Em cima da mesa, uma garrafa de Johnnie Walker Black Label. Plano maquiavélico preparado há várias semanas: embebedar a Susana, para depois eu a levar para o WC e a violar. Objectivo: tirar as manias à Susana (não me lembro de que manias eram, mas se calhar na altura também não sabia). Autores do plano: Almeida e namorada. A namorada do Almeida era bem jeitosa, mas não me consigo lembrar do nome. Deve ser por isso. Bem, naqueles tempos, eu dizia que sim a tudo e se fosse preciso piorar as asneiras eu arranjaria sempre ideias. Claro que disse que sim, ah e tal, como se eu soubesse o que era violar uma gaja! Como se eu soubesse o que era uma gaja! (maldita adolescência desequilibrada!) Noite dentro (tipo 22h00), os planos corriam pelo melhor, o povo já encharcado em uísque e com a oralidade muito comprometida. Almeida e namorada, sóbrios que nem um pau-de-gelado, expectantes. A dado momento, atiraram-me para dentro do WC com a Susana. Ela ia caindo, eu fingi que também não, e ficámos ali a olhar um para o outro. E agora?, pensei para comigo. Como se viola uma gaja? É na banheira? Com água ou a seco? No tapete? E se lhe parto uma perna a apalpar-lhe as nádegas? Não dá para desligar a luz porque o interruptor ficou lá fora. E se ela me bate? E se grita e a polícia aparece? Eu balouçava-me para a frente e para trás, mãos nos bolsos, embrulhado nestes pensamentos, enquanto a Susana se apoiava com pouca firmeza na parede, olhando-me fixamente. Finalmente, abri a boca, tipo peixe. Não cheguei a dizer nada. A Susana adiantou-se: não gosto de ti, disse ela. Está bem, respondi-lhe eu, então vamos embora. Abri a porta e saímos. Silêncio na sala, olhos postos na Susana. Esta, fez de conta que não era nada com ela e foi apanhar ar à varanda, mas correu-lhe mal a vida: a porta da varanda estava fechada, espetou-se de nariz na vidraça e caiu para trás, estatelando-se de costas no chão da sala. Risota geral, blá, blá, blá. Lindo serviço, pensei para comigo. O Almeida topou que não devia ter acontecido nada e olhou-me com aquele ar reprovador que os padres fazem quando temos um pensamento pecaminoso. Olhei as horas, 23h e pouco, boa altura para saltar dali para fora. Ricardo, levas-me a casa? Sim, respondeu o moço, três anos mais novo que eu, olhar condescendente para com o meu corpo cambaleante. Acompanhou-me até à esquina da minha casa, a uns duzentos metros da festa. Se não fosse o Ricardo, a esta hora ainda eu andaria perdido numas ruas quaisquer de uma cidade no outro lado do mundo. Entro em casa, pé ante pé, escuridão total, passo à porta do quarto dos meus pais: ah e tal, então filho, como correu a festa? Bem, bem, respondi eu, passados os dez segundos necessários para processar a pergunta, compor uma resposta credível e deitá-la cá para fora sem parecer ter a boca atestada com Nestum. E cama. Desde então, sou atacado por um forte sentimento de nostalgia quando toca na rádio aquela música dos Art Company, “Suzanna”…  pickwick