Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

01
Abr07

As bestas da Covilhã

pickwick

Bem, vim à civilização passar uns dias e, como tal, tive (e ainda tenho) a oportunidade de ficar colado na caixinha mágica. Ontem, dotado de um grau de civilização elevadíssimo, vi os telejornais de três canais ao mesmo tempo, do princípio ao fim! É fantástico! O que um gajo consegue fazer com um telecomando na mão! Uma das notícias que me entusiasmou sobremaneira foi o daqueles mocinhos e mocinhas da Covilhã que foram numa viagem de finalistas a um paraíso qualquer chamado “Lloret del Mar”. Vou começar por chamar os bois pelos nomes. Não eram nenhuns mocinhos e mocinhas da Covilhã, mas, antes, umas bestas da Covilhã. Filhos de outras bestas, também da Covilhã. Tenho dito! Para quem não teve a oportunidade de visualizar na caixinha mágica os acontecimentos hilariantes que tornaram esta viagem de finalistas num mostruário de bestas embrutecidas, passo a explicar que as bestas foram passear uns dias ao tal paraíso, sendo que, na última madrugada, parte deles decidiu que era divertidíssimo transformar partes do hotel onde pernoitavam numa alegre e bem disposta festa do ovo e outros acessórios de higiene. Os funcionários do hotel, que trabalham num hotel, portanto, um daqueles locais onde alojam pessoas de todo o mundo que vêm passar férias, descansar, para reuniões de trabalho ou para comer a secretária às escondidas da mulher, não gostaram da piadinha e correram com os tugas todos dali para fora, na hora. A perspectiva foi: vamos correr com o lixo humano. Plenamente de acordo. Se fosse no corredor do meu prédio ou, pior, da minha casa, a expulsão seria igual, talvez com alguns condimentos acessórios. As crianças inocentes foram arrancadas da cama (as que dormiam), coitadinhas, sem lavarem os dentes nem trocarem a fralda, sem a sessão do biberão matinal, e postas com armas e bagagens na rua. A parte da bestialidade de toda esta situação, é aquela em que as crianças ficam escandalizadas por terem sido corridas de lá para fora! As crianças e os pais. As bestas e os pais das bestas! Uma pessoa normal, civilizada, educada, normal, consciente e normal, que se visse envolvida numa situação destas, teria, no mínimo, metido o rabo entre as pernas e regressado ao país cabisbaixo e extremamente envergonhada, apenas revoltada com o facto de ter que partilhar viagens destas com energúmenos! Uma pessoa normal, na plenitude da sua cidadania, compreenderia que um hotel não se pode compadecer com um grupo de sessenta índios, cujos guerreiros uma bela noite se entusiasmaram e resolveram fazer de quartos e corredores a arena para uma dança dos espíritos e do machado e das penas. As bestas, pelo contrário, acham normal que os índios dêem cabo de um hotel e da clientela. As bestas são incapazes de perceber que uma unidade hoteleira tem outros clientes, clientes quiçá civilizados. As bestas não percebem que deixar um corredor de pernas para o ar é suficiente para um hotel perder umas dezenas de clientes. As bestas não percebem que, neste filme, eles são os selvagens! As bestas são, enfim, bestas completas! Mais divertido, ainda, no meio disto tudo, são as reportagens televisivas sobre a animação nocturna em Lloret del Mar: invariavelmente, os protagonistas estão agarrados a garrafas de bebidas alcoólicas. Com alguma variância, não muita, os protagonistas estão a fazer figuras tristes, alimentados pela alegria proporcionada por uns bons copos. Algumas das figuras tristes, como é de esperar, transformam-se em javardices e distúrbios. Algumas figuras tristes, são figuras de urso, mas como isso é premiado pela sociedade obcecada com a caixinha mágica, tanto melhor. Mas, a maior aberração disto tudo, é que estamos a falar de hordas de fedelhos que, para estas paragens, são enviados alegremente com o patrocínio dos próprios pais. Toma lá cem euros para comprares uns shots e umas botellas, diz o pai para a filha de 14 anos. Ou de 17, tanto faz. No meio disto tudo, não são as figuras tristes ou o vandalismo que está em causa. O verdadeiro problema, que não é visto como um problema, é ser tudo perfeitamente normal, perfeitamente aceitável, perfeitamente divertido e muito perfeitamente iluminado pelas luzes de uma ribalta decadente. Não há um nico de vergonha! Não há um pedacinho de arrependimento! Não há um bocadinho de consciência! Não há um pingo de noção de cidadania! Não há um restinho de humanidade (de Ser Humano)! São, pura e simplesmente, umas bestas! pickwick

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.