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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

30
Ago06

As Telmas

riverfl0w
Uma leitora chamada Telma (nome de código) chamou-me à atenção para o facto de eu atribuir aos seres humanos do sexo feminino com o nome Telma, uma pelugem excessiva. Como se eu tivesse alguma coisa contra as mulheres e raparigas chamadas Telma. Não tenho. Muito pelo contrário. Até hoje, só ainda conheci pessoalmente uma rapariga chamada Telma, que era minha colega na escola primária, numa certa aldeia ribatejana. Por via do sacana do Alzheimer, as minhas memórias perderam-se nos confins da minha caixa dos pirolitos, sejam de há trinta anos atrás, ou do almoço de ontem. Ainda assim, consigo recordar, embora vagamente, a minha colega Telma. Era magrinha, ma non troppo, cabelo preto forte, um sorriso largo numa boca sexy e uns olhos capazes de virar um homem do avesso. Ok, estas memórias são uma adaptação à actualidade, porque eu na altura nem sabia apreciar gajas. Aliás, a única gaja que fazia um puto de 8 anos olhar era a Cristina Gameiro, uma imponente garota de cabelo loiro e curto, também da minha turma, cativante e ah e tal. Não tinha maminhas, porque a idade não permitia, mas eu ficava muitas vezes a olhar para ela, de soslaio. A Cristina, contudo, era uma vaca. Um belo dia, na aula, resolvi mostrar ao povo o novo sinal da virilidade, o do vai p’ro coiso e tal, o tal do dedo do meio, assim disfarçadamente e por baixo da mesa, não fosse ser apanhado em flagrante pela professora. E não fui. Mas a vaca da Cristina viu-me, mais o dedo espetado, desconfiada que ficou com a paródia nas mesas de trás, e em três tempos estava eu na sessão de régua de madeira e palmatória, junto da mesa da professora, todo corado, e a jurar o fim do mundo à estúpida da miúda. Daqui nasceu, provavelmente, a minha paranóia com as loiras, que ainda um dia me vão pagar por aquela sacanice. As loiras e as Cristinas! Sacanas… Queixinhas do caraças… Bom, portanto, a Telma não era daquelas miúdas que chamassem a atenção, assim naturalmente. No entanto, era uma miúda com um ar muito meigo e um sorriso de encher corações. Se não fosse a outra vaca loira, eu ainda lhe podia ter piscado o olho e ah e tal, mas pronto, estava distraído. A Telma era uma querida, é certo, mas tinha muitos pêlos nos braços, assim daqueles pêlos pretos e compridos que se notam a duzentos metros e ao lusco-fusco. Na altura, havia momentos em que pensava como seria passar-lhe a mão por aqueles pelinhos e tal, como quem passa a mão no pêlo de um gato, mas tudo muito inofensivo, claro, que eu ainda não tinha sido alertado convenientemente para a sexualidade. Como nunca mais conheci uma Telma na vida, ficou-me aquela ideia de que as Telmas são miúdas com muitos pêlos nos braços e, eventualmente, no resto do corpo. Se os pêlos não engrossarem, até podem escapar, mas se começarem com aquelas cenas da gillette, está tudo tramado, que quando derem por isso têm os pêlos mais grossos que um tronco de eucalipto. Quando surgiu este alerta da leitora com nome de código Telma, não resisti em rebuscar a Internet a ver se havia alguma coisa sobre uma Telma naquela aldeia ribatejana, que entretanto já foi promovida a vila e tal. Só encontrei uma Telma Pereira, que faz parte do rancho folclórico local, mas nem foto, nem idade, pelo que pode ser uma Telma qualquer, embora seja preciso muita pontaria para haver uma povoação com mais que uma Telma. Enfim. Colega Telma, se estás a ler este blog, por favor, entra em contacto comigo para tirarmos a limpo isso dos pêlos e tal, pode ser? pickwick

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