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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

08
Fev07

Ana e o motorista

pickwick
A Ana é uma colega minha com quarenta e troca o passo. Muitíssimo bem conservada, olhos azuis (acho eu, que se não forem azuis, é qualquer coisa assim sem ser castanho), cabelo preto, preto, preto e liso, mas em balde. O preto, é pintado, só pode, mas não faz mal. O liso em forma de balde, bom, é um tipo de penteado que inventei agora, numa transição entre o cabelinho daquela actriz portuguesa a preto e branco do cabelo à tigela e a gadelha da Manuela Moura Guedes. Cuida-se fisicamente, no corpo e no vestuário, estando mesmo naquele limite em que o corpo quase não aguenta mais e um dia destes explode para uma quarentona balofa e reboluda, que nenhum homem tem já paciência para aturar. Por falar em homem, a Ana é casadinha, tem uma filhota, e o marido é dono de um restaurante. Eu simpatizo com a Ana, note-se, acho-lhe uma certa graça, especialmente quando cerra a boquita e esbugalha os olhos. Fica muito gira. Também acho graça quando entra em pânico por ter de conduzir para outro destino que não seja o trabalho ou a casa. O “Bora” que o marido lhe ofereceu é uma porcaria de carro, nas palavras dela, mas não deixa de o embalar a 160 na primeira recta que encontra pelo caminho, faça chuva, sol, ou a esteja a estrada ladeada por árvores perfeitas para um encaixe perfeito entre os dois faróis dianteiros. Pronto, é uma gaja. O marido ganha muito dinheiro e ela também não ganha assim muito mal, mas, em comparação, o marido deve ganhar uma fortuna. Uma vez, ia ela para o trabalho, e ao passar numa ponte o carro deu com o rabo na curva à entrada, quase provocando um daqueles acidentes em que as gajas caem ao rio dentro de um carro despistado, como nos filmes. Se ela fosse loira, então era o filme perfeito, especialmente tratando-se do rio Mondego. Bem, quando chegou a casa, ah e tal ia quase tendo um acidente, dizia ela, porcaria de carro. No dia seguinte o marido ofereceu-lhe um carro novo, um Volkswagen Bora. Para juntar a um descapotável qualquer que já lhe tinha oferecido há uns tempos atrás. Agora o Bora também é uma porcaria. Sim, Ana, pois é. Bem, conversa puxa conversa, vai daí ao Euromilhões, ah e tal, que a Ana já devia ser a quinquagésima vez que comentava “se eu ganhasse o Euromilhões…”, e diz ela, desta vez: detesto conduzir, se ganhasse o Euromilhões, não deixava de trabalhar, porque gosto muito de trabalhar, mas arranjava um motorista para me trazer todos os dias. Pausa. Assim um motorista novo e jeitoso, rematou. Pausa escandalosa na mesa. Aposto que todos pensámos o mesmo: olha m’esta, casada e mãe de filhos, com idade para ter juízo, a querer um motorista novo e jeitoso… A Nanda, que é quarentona em fim de linha, solteirona e tia compulsiva (tia do tipo irmã de um dos pais das crianças), não se conteve: para que queres um motorista novo e jeitoso, se só o vês de costas? Nova pausa. Para meditação profunda. A Ana, com aquele jeito que só ela tem, saltitava com os lábios entre a posição de sorrisinho perverso e posição do ar sério e severo e puritano. Com mais incidência para a primeira posição. Portanto, traduzindo-lhe o pensamento, saía mais cedo, parava num pinhal, pimba no motorista, motorista pimba nela, voltam à estrada, manhã de trabalho, motorista vem buscá-la para almoço, pimba e pimba, tarde de trabalho, motorista regressa, pinhal, pimba, estrada, casa, e pronto. Parece um bom programa para uma ganhadora do Euromilhões. Ficou no ar: e o marido, não anda a dar conta do recado? Afinal, a rapariga ainda tem muito para dar, com aquele cabelinho pretinho, aqueles olhos clarinhos, aquela roupinha sempre a cair bem, as botinhas, os lábios fechadinhos como que a pedir, o sorrisinho a tremer no canto dos lábios como que a tentar fazer transparecer uma timidez feminina inexistente mas muito provocante, as costas direitas, a postura firme, os abanões pelo corpo todo, sei lá. Já agora, porque é que as mulheres se abanam? Será uma tentativa para chamar atenção para os volumes carnais em movimento, hei estamos aqui e somos abundantes e suculentos? Isto e outras coisas davam um livro. Davam, davam. pickwick

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