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Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2007
Mas que tédio de vida - 2

3. Encontro de trabalho e queijo da serra

Sábado de manhã fui até à Costa Nova, essa bela localidade que qualquer dia é engolida pelo mar. Fui até lá para ajudar o amigo Zé a carregar uns pertences do seu apartamento, visto que o ia alugar a uma inquilina. Não, não vi a inquilina. Mas deve ser endinheirada, para arrotar quatrocentos e cinquenta euros pela renda de um T2. Enfim, deixei o carro em Coimbra e fui à boleia com o Zé até à mansão dele, na Marinha Grande, outra bela localidade. Mansão, note-se! A ideia era passar um fim-de-semana com ele e com mais dois outros, sendo que os quatro de nós fazem uma revista temática exclusivamente online. Não interessa qual, mas escreve-se lá muita asneira, como só poderia ser. Portanto, uma espécie de reunião de redacção adaptada para fim-de-semana. Como costume, levei um queijo amanteigado da Fornos de Algodres, que faz bem à saúde, especialmente se comido alarvemente. Aquela mansão parte-me todo, o aquecimento central, as divisões espaçosas, o terreno, sei lá. Dizia o Nuno, depois de defecar monumentalmente no Domingo de manhã: eh pá, tens chão radiante na casa-de-banho?, só apetece rebolar no chão e dormir lá uma sesta. Com os redactores vieram as esposas (bem, só metade é que tinha gaja e filhos, mas pronto), e as crianças, e as fraldas, e as choradeiras, e os “joga à bola comigo”, e as birras à mesa, e o caraças. Por falar em mesa, devo dizer que a mulher do Zé, apesar de ser uma simpatia e ter muita consideração por ela, ainda não domina a técnica de bem receber convidados das Beiras, daqueles que gostam de bifes que não cabem no prato. Ou seja, como eu. Repare-se que, na mesa, não havia aperitivos básicos, como azeitonas verdes, azeitonas pretas, azeitonas recheadas, presunto, chouriça assada, Martini, castanha de caju, cubos de queijo, rissóis, chamuças, enfim, coisas assim. Repare-se que tivemos de comer, não sei bem porquê, numa mesa de quatro pessoas, quando éramos oito pessoas! Repare-se que uma das refeições era um rolo de carne recheado, atado com fio suspeito, comprado assim num hipermercado qualquer, sendo que não reconheci nenhum dos conteúdos do recheio e o rolo, em si, dava para duas pessoas normais daquelas que habitam nas Beiras. Repare-se que outra das refeições foi bacalhau com natas, o que, para além do facto de não alimentar ninguém e ainda provocar enjoos desnecessários, continha natas não batidas, tipo leite estragado, ficando a mistela com o aspecto de um incêndio numa casa de bonecas apagado com um extintor de neve carbónica. E um gajo, ali, a morrer à fome. Ninguém se queixou. Eu também não me atrevi. Considerei que ninguém me ia compreender. Enfim. Ninguém me manda ir passar fins-de-semana assim, habilitando-me a cenas destas. A parte do trabalho também não correu bem, o pessoal estava mole, cansado, eu estava inconformadamente esfomeado, a televisão estava ligada, e pronto, já se imagina. Ainda tirámos um bocadinho, no Domingo, para ir à missa a São Pedro de Moel. Moel, ou Muel? Gaita! Bem, o senhor padre foi um espanto. Esbracejava e contava estórias. Uma delas tinha acontecido há dias atrás, já não sei onde, penso que em Leiria. O senhor padre ia a passar em frente a umas instalações da Igreja Universal do Reino de Deus e sentiu necessidade de ir partilhar a sua fé com outros adoradores de Deus. Entrou. Interpelaram-no logo à entrada, sem saberem a sua profissão: o senhor tem fé? Bem, tenho alguma, respondeu o senhor padre. Sentou-se entre a multidão, calmamente, para ouvir as sábias palavras do pastor. Este, também contava uma estória. Ah e tal, antigamente, sacrificava-se um carneiro pintado de vermelho, mas hoje já não dá para isso, o pessoal não está para passar a vida a matar carneiros, mas nós temos a solução, ah e tal, há umas notinhas avermelhadas que circulam por aí, nós vamos dar uns sobrescritos e assim vocês podem imitar o secular sacrifício a Deus. E o povo, em êxtase, agitava os envelopes no ar, ámen, ámen, ámen, grande transe colectivo, olhos revirados. Enfim. Grande missa. Por causa da insistência de um dos miúdos, fomos para o balcão de cima, em vez do piso térreo, o que trouxe a vantagem de vislumbrar, num ângulo de cima e na retaguarda, os participantes na eucaristia, nomeadamente uma mocinha que foi com a mãe, com as tradicionais calças de cintura baixa, e que passava a vida a tentar tapar o elástico das cuecas com um casaco curtinho a cada vez que se levantava. À noite, regressei a Coimbra à boleia com o António, no seu Golf novo com 170 cavalos. Eu a pensar que ia sentir a adrenalina de tanto cavalo junto, e até pensei em fazer-me ao piso para experimentar a máquina, mas, infelizmente, o gajo estava naquela situação esquisita de pena suspensa de inibição de conduzir, ou lá como se chama a quando um gajo é apanhado duas vezes no mesmo sítio em excesso de velocidade e o Estado é meiguinho e deixa-o conduzir novamente parar tentar ser apanhado ainda mais outra vez. Ora bolas! Na viagem aproveitámos para trocar impressões sobre gajas, ao que ele aproveitou para comentar: as gajas são todas o mesmo, já desisti de procurar uma com juízo, já me conformei (suspiro). Quem falou assim foi um médico de quarenta anos, solteiro e bom rapaz.

 

4. A engenheira Antónia

Entretanto, ontem, em vez de me deitar cedo, como prometera a mim mesmo, dado andar há muitos dias a dormir em pé, fiquei no MSN armado em Cupido. Ui, como se eu dominasse a técnica! O Guã lembrou-me que eu tinha ficado de contactar uma amiga minha, a Martinha (nome de código), para os meter, aos dois, em contacto. Ele, solteiro, assediado por uma gaja que tem um namorado que diz amar, mas que, ao mesmo tempo, lhe confessa ter sonhos íntimos com ele, e saudades e mais aqueles disparates todos das gajas. Ela, solteira, assediada por gajos trogloditas e mal amanhados, cujos espectros de vida variam entre um bar e um café. Mensagem para ela, olha lá, vem cá ao MSN para conheceres um amigo meu. Mensagem dele para mim, então ela vem ou não? Mensagem dela para mim, um amigo?, oi?, oi?, vou já, dá-me meia horita! Depois, uma conversa a três no MSN, ele mais tímido que um gato na jaula de um gorila, ela menos inibida mas meio encavacada. Ele, em privado, ah e tal, que digo agora?, então e agora?, estou a ir bem? E eu, pá, sabes que com esta conversa sobre banalidades não vais longe. Pois, diz ele, conversas sérias só numa conversa a dois. Como é que ele adivinhou? Entretanto, a Martinha lembrou-se de mostrar uma amiga dela com registo no “hi5”: a Antónia! Ó Deus meu! Vinte e três anos, finalista de engenharia química, solteira, sem namorado, disponível, sorriso de ninfomaníaca tímida, e chicha em boa medida. Vai a Martinha, ah e tal, estive a mostrar a tua foto à Antónia, ela quer saber se vais lá ter connosco no Carnaval. E depois ainda se queixam que não há gajas! Haver, há, mas…

 

5. Estética falhada

A Helena é uma colega minha sem papas na língua. Foi, até hoje, a única colega de trabalho a atrever-se numa pergunta mais íntima: ah e tal, vives sozinho? Ontem, cruzámo-nos. Olhou para mim com ar desconfiado. Há quanto tempo não fazes a barba?! Eh pá, para aí há uma semana, respondi-lhe eu. Pronto. Eu já tinha notado que estava um bocado grande, mas isto, dito assim por uma gaja, só pode ser uma mensagem de alerta. Esta cena da barba por fazer volta e meia não me corre lá muito bem. Há umas semanas atrás, três gajas apanharam-me numa cozinha, rodearam-me, e uma delas começou a mexer-me na barba, ah e tal, barba não sei o quê, e o caraças! Já não há respeito, é o que é. Elas andam sempre de olho numa oportunidade para comentar a forma desprezível como não levamos a peito as questões de estética capilar. Como tenho o hábito de rapar o cabelo, aqui em casa, com máquina em pente dois, só lhes resta mesmo pegar pela barba. E conseguem ser mesmo… mesmo… humpf!... enfim! Excepto a Maria, que aproveita logo para me afagar os pêlos e tal, e não se mete com comentários desajustados. Sorte a minha, que ainda há mulheres assim, como a Maria! pickwick

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publicado por pickwick às 00:10

editado por riverfl0w em 19/06/2007 às 19:18
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