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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

04
Jan07

Ah e tal e um bom ano e muitos beijinhos

pickwick

Ainda se anda nisto, é verdade. Já vamos no dia 4 de Janeiro, ou seja, já vamos quase a meio do ano, e ainda há pessoas a circularem por aí com essa conversa de chacha, do ah e tal, um bom ano! Ó caraças! Já chega, não? Bem, a parte agradável (dentro dos possíveis e condicionada às situações) é que as gajas querem todas distribuir beijinhos de bom ano. Entre ontem e hoje já devo ter recebido à força uns vinte e tal beijinhos de bom ano. Eu não curto nada estas cenas. Bom ano porquê? Beijinho porquê? Anda tudo carente e com falta de bochechas onde alapar os beiços? Eh pá! Já chega! Bem, hoje devem ter sido as últimas. A Fernanda, uma loira provavelmente falsa, ainda hesitou em encher-me as bochechas com batom foleiro, depois de já o ter feito às restantes vinte pessoas que se encontravam na sala. Parou à minha frente, ah e tal, olhou em volta como que a pedir socorro, ah e tal, também vou ter que o beijar a si, desculpou-se. Eu, nos meus tempos de glória e arrojo, responder-lhe-ia adequadamente com um “não sei se vai”, mas, a idade enfraquece um gajo, e apenas consegui exibir um patético sorriso de consentimento. Não é que a Fernanda seja feiosa, coitada, até não teve muito azar com a carroçaria que lhe montaram em cima dos ossos. Mas, eu não curto mesmo é essa cena dos beijinhos de gajas. Ou é beijo a sério, ou então mais vale ficar quieto. A Fernanda volta e meia interpela-me num qualquer corredor escuro ou num lanço de escadas, pega-me no braço e vem com aquelas conversas de ah e tal, o colega não fala connosco, não gosta de nós? Enfim, gajas! Por falar em bom ano, a Maria, essa obra de arte atropelada na cabeça por um elefante em fúria, mandou-me uma SMS para desejar bom ano, que dizia assim: “e no fim do ano, quando tivermos 365 preservativos, queimamo-los todos, fazemos um pneu e escrevemos nele: this was a GOODYEAR”. Maria, olha, não estiveste mal, mas achas mesmo que alguém costuma guardar 365 preservativos ao longo de um ano inteiro? Não é que não usem tantos, mas, vê lá bem, não achas que ao fim de um mês começaria a largar um cheiro insuportável a geleia podre? Há, contudo, que reconhecer que é bem melhor receber uma mensagem destas do que uma daquelas que ah e tal vamos todos ser muito felizes e temos todos muitos desejos e não sei o quê. E, por falar em desejo… veio-me à memória, assim de repente, mais uma das conversas tidas pelas gajas que foram festejar a passagem de ano comigo. O tema era o libido. E perguntou logo o Miguel, com ar de malandro: o que é isso? Pronto. Muito as gajas gostam de falar do libido. Nós, gajos, ainda tentámos remediar a situação assim que a coisa começou a descambar, com teorias sobre libido gastronómico e outros libidos menos ordinários que os que povoavam aquelas mentes femininas tão perversas, mas a coisa só acabou quando elas esgotaram a imaginação. Ou melhor, quando se recolheram nos seus pensamentos, por certo embrulhadas no mesmo tema. Enfim. O libido, portanto. Voltando ao bom ano e aos beijinhos, este foi o primeiro ano em que houve tanta troca de beijinhos em ambiente de trabalho. E não estou a falar do Windows! O que terá acontecido. Há pessoal que tem mais confiança com este ou com aquela, com quem trocam beijinhos por conta de uma ocasião qualquer. Mas, ontem e hoje tem sido demais! Não havia necessidade de tanto espalhafato, tanta ternura e tantos gafanhotos! Bastava um “olá, bom dia e bom ano”, como costumo fazer. Ou só um “olá, bom dia”. Beijinhos?! Mas que seca! Não é que queira ser anti-social, como algumas pessoas querem fazer-me crer, mas, em ambiente de trabalho, é fundamental não esticar a travessa aos demais, não dar mais que a ponta do dedo mindinho e não deixar meter a mãozinha na perna. Respeito, distância e ar de funeral são os três pilares fundamentais para qualquer bom ambiente de trabalho. E nada de beijinhos por “dá cá aquela palha”. Beijinhos, só se for numa qualquer arrecadação escura à porta fechada. Tenho dito! pickwick