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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

29
Dez06

Os Implacáveis das Botas Altas

pickwick

Acabou-se o Natal. Finalmente. Venha a Passagem de Ano. E, a propósito da Passagem de Ano, apanhei na rádio o anúncio de que a Brigada de Trânsito da GNR vai ser implacável para com os condutores com álcool no sangue. Implacável? Bem, passei-me. Então mas que raio de mariquice vem a ser esta? Não deviam ser implacáveis sempre? Quer-se dizer, durante o Natal um gajo podia andar com cerveja até ao nariz, a espumar digestivos pelos olhos e a dar bufas com cheiro a vodka, que não havia crise, é Natal, ninguém leva a mal, ah e tal o Pai Natal, perdão e não sei quê. E agora, com a Passagem de Ano, já não! Este país está cada vez mais canceroso. É cancro em tudo e em todos. Estas cenas da polícia ser condescendente para com os que teimam em pisar o risco da lei, amassam-me a paciência. Só dá vontade de arranjar um grupo de amigos chateados e organizar um Pelotão do Faz-e-Paga. Os brasileiros arranjaram os Pelotões da Morte, mas nós precisamos mesmo é de um Pelotão do Faz-e-Paga (PFEP). Isto é, um gajo bebe uns copos e mete-se ao volante pela estrada fora. É apanhado pela GNR, cujos agentes são condescendentes, e identificado. Minutos depois, o PFEP apanha o seboso infractor ao virar da esquina, pega-lhe fogo ao carro, dá-lhe uma tareia de tábuas com pregos e corta-lhe um dedo. Paga com o corpo, portanto. E com a carteira também, para arranjar outro carro. Nada de notificações, julgamentos e palavrinhas mansas. Fico lixado com estas parvoíces. Pior que estragado! Mas que país, este. Na rádio ouvi também que alguém escreveu uma obra qualquer em que sugere que Portugal seja um exemplo de caminho a não seguir para os países que entram para a União Europeia. Concordo plenamente. À parte o facto de ser lamentável esta situação, originada pela teoria ingénua e infantil do somos-todos-amigos-e-boas-pessoas que habita na mente da maioria dos decisores, irrita-me que o Alzheimer habite na maior parte de nós. Quando entrámos para a UE, como uns tristes cachorros rafeiros a receber ossos e couratos, “quem de direito” permitiu que, à luz do sol e chapado nos olhos de todos, se sugassem os ossos e os couratos todos, trocados por carrões, casarões e muitos trocos. Sistematicamente. Ainda assim, esses “quem de direito” continuaram aqui e além, livres de qualquer responsabilidade, no carrossel da vida política, ao mais alto nível, ainda hoje. Ninguém lhes pediu, nem pede, contas. É de tradição, não pedir contas. Raios os partam! Parecemos um país de anormais. E, por falar em anormais, tive acesso à bela da televisão durante o Natal, pelo que assisti a um comentário idiota do senhor Miguel Sousa Tavares, promovido a comentador, a propósito do endividamento das famílias portuguesas. Ou seja, os caramelos que compram tudo a crédito. Dizia o senhor, na sua ignorância, que a malta contrai créditos por causa da propaganda agressiva dos bancos e empresas de crédito pessoal. Que tanso! Como de costume, em Portugal desculpa-se sempre o povinho. Há-de haver, sempre, desculpas e mais desculpas. O povinho, esse, coitado, é sempre o enganado, a vítima, o enrolado. O tanas! O povinho é estúpido e mais nada! Vejamos um exercício simples de gestão financeira do vencimento. Maria Amélia e João Asdrúbal ganham, em conjunto, cinco euros por mês, sendo o agregado familiar composto pelo casal e um filho de cinco anos. O filho, embora ninguém saiba, vai sair estúpido como os pais, herdando verrugas intelectuais, maus hábitos e maus cheiros. Dos cinco euros por mês, dois euros são para o empréstimo da casa, um euro é para o empréstimo do carro e outro euro é para um crédito que pediram para comprar uma televisão abichanada com sistema de som sofisticado para ouvir concertos da Micaela e da Romana. Sobra um euro, para os gastos do dia-a-dia. Mesmo assim, estes estúpidos, anormais, analfabrutos, mal cheirosos, não se privam de ir comer ao restaurante, fumam tabaco que sai quase tão caro como a alimentação, compram DVDs, e, pasme-se, ainda fazem mais um créditozinho pequenino para um frigorífico novo, um computador todo artilhado, uma aparelhagem e umas férias em Espanha. Estúpidos! Não há outra palavra! O povo é estúpido! Por isso é que recebemos contentores de dinheiro durante anos e continuamos atrasados. Por isso é que estamos na cauda da Europa (e quase do Mundo) em aspectos insignificantes como educação, sinistralidade rodoviária, competitividade, e outras coisas que tais. O povinho é inculto, é ignorante, é iletrado, é estúpido e é atrasado. O povinho vibra com insignificâncias vestidas com flores e sapatilhas, e parvoíces e palhaçadas de enjaulados. O que o povinho precisa, um dia destes, é de ser corrido ao tabefe e a golpes de tábua. Não há outro meio. Não é preciso escrever, porque já está escrito. Só vamos a lado algum levados por força da chapada. E é esse o caminho! Quanto aos homens das botas altas, os tais que vão ser implacáveis daqui a poucos dias, boa sorte! Eu cá vou enfrascar-me para o cimo da serra, onde não há estradas, nem carros, nem televisão, nem mini-saias. pickwick