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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

28
Dez06

Noite de Natal

pickwick

Que bonita! Que ternura! Bem, este ano, para variar mesmo, fui passar o Natal a essa bela localidade que responde pelo nome de Foz do Arelho. Não reparei se havia algum rio Arelho a desaguar por lá perto, mas isso agora não interessa. Fui passar o Natal à Foz do Arelho porque a minha mãezinha decidiu que, este ano, não havia de andar de roda dos tachos e das panelas e das travessas. Assim sendo, arranjou-se para ir passar quatro dias ao complexo hoteleiro do Inatel, naquela mesma localidade. É fácil, é barato e não dá que fazer. Comida na mesa, bufete em abundância, sem necessidade de conduzir depois das refeições, quarto aquecido com televisão… Bom, que se pode pedir mais? Além disso tudo, nada do irritante e obeso Pai Natal. Só vantagens! Fomos jantar por volta da hora do jantar, ou seja, já não me lembro. Mal entrei no refeitório (devia chamar-lhe restaurante, para ser mais chique, mas a verdade é que aquilo parecia uma cantina militar), percebi logo que este ia ser um Natal diferente. Diante de mim, sentada num sofá do átrio, estava uma moçoila dos seus 19-23 anos, mais coisa, menos coisa, cabelos longos e aloirados, óculos com armação azul, costados direitos e firmes, figura elegante e quase que majestosa, ajeitando-se para o jantar. Por ajeitar, entenda-se: vestir mais uma pecinha de roupa, para enfrentar o gelo da noite, por cima de uma curtíssima camisolinha, abaixo da qual assentava a cintura rebaixadíssima (tipo “tuning”) de umas calças de ganga. Palmo de pele à mostra, como manda a regra e como o povo gosta. Entre a cintura da calça de ganga e a pele fresca, dois centímetros de cuequinha azul-bebé. Meu Deus, porque me lanças estas coisas para a frente do nariz? Olhei com mais pormenor, meio embriagado pelo choque, reparando que as cuequinhas azul-bebé não estavam a ser usadas por acaso do destino, nem pelo destino do acaso. Aliás, ali, naquela vigorosa moçoila, nada parecia ter sido deixado ao acaso. O azul-bebé da cuequinha condizia com o azul da armação dos óculos, com o azul da ganga e com o azul de algumas faixas coloridas na camisola de lã. À matadora! Seria ela a ementa do jantar? Não. Que pena! A ementa era mesmo bacalhau conforme a tradição e, para as mentes mais abertas, lombinhos de porco. Nham! Para fazer feliz a mãezinha, provei o bacalhau, as couves, a cenoura e a batata. Depois, arrumei o prato e fui jantar os belos dos lombinhos. A menina da cuequinha azul-bebé foi sentar-se junto da família. Nesta noite, sabendo que não precisaria de conduzir, teria a oportunidade fantástica de poder regar os lombinhos com a bebida que me coubesse no estômago. Teria, digo bem. Mas não tive. Veio para a mesa uma garrafinha de tinto da casa, 75cl. Deu para provar. Gostoso! Mas não deu para beber. Quando eu e o meu irmãozinho esvaziámos a garrafa, a mãezinha olhou desolada para os seus dois filhos, lamentando profundamente que fossem uns beberolas e já tivessem bebido tanto vinho! Eu ainda sugeri uma cervejinha, que é assim mais fraquinha e ajuda à digestão, mas mais valia ficar calado, pois a sugestão ainda escandalizou mais a mãezinha, por implicar uma mistura explosiva de álcool… Estes dois irmãozinhos olharam-se, entristecidos com um Natal estragado por teorias puritanas sobre ingestão de bebidas alcoólicas. Ainda planearam um assalto ao bar do complexo, para botar abaixo uns úteis digestivos, mas optaram por uma posição abstémia, de respeito pela ocasião. Ora bolas! Entretanto, devido à limitação líquida, houve que remediar o tédio. Curiosamente, ao contrário do expectável, o Inatel não estava a ser frequentado apenas por representantes das brigadas do reumático e da artrose, tal como verificado pela existência de uma moçoila com cuequinhas azul-bebé. Além desta, outras dignas representantes do sexo feminino dentro do prazo de validade marcaram presença no refeitório. Para grande alegria da minha mesa, excluindo a minha mãezinha, que só tinha olhos para o bacalhau e para os lindos filhos. De destacar três presumíveis irmãs, cuja diferença etária rondaria os oito anos, sendo que a mais nova teria os seus dezanove anos. A mais velha era feia como um gnu e vestia-se como quem já ultrapassou o prazo de validade. A do meio, era portadora de uma beleza aceitável, boca tipo BB (de Brigitte Bardot), elegante, trajando com uma saia ligeiramente acima do joelho (palmas! alegria! júbilo!), pernas cobertas por umas meias integrais (tipo collants) de cor bordeaux (oh…), que condiziam com uma bonita camisola também bordeaux. Da mais nova, lamento a imprecisão científica, mas apenas me recordo que trajava uma mini-saia!... Muito mini… Que grande jantar de Natal! Ainda sobre a ementa, há a referir uma quebra no fornecimento de sobremesas. Ao que a minha mãezinha conseguiu apurar, posteriormente, era suposto ter havido pudim Molotov e uma torta à qual costumam chamar “tronco”, dadas as parecenças. Mas, aconteceu que, pelo caminho da confeitaria até ao Inatel, numa distância de alguns quilómetros, uma travagem mais brusca transformou as travessas de deliciosas sobremesas, nomeadamente as atrás referidas, numa javardice indescritível no compartimento da carrinha onde eram transportadas. E logo o pudim Molotov, tão sensível, tão ai-não-me-toquem-senão-desmancho-me-todo. Por isso, sobraram apenas outras iguarias menos espalhafatosas, das quais destaco o arroz-doce, esse inigualável príncipe das sobremesas. Um Natal sem arroz-doce, é como uma mulher muito gorda e muito feia e muito peluda a dançar toda nua em cima de um caixote de peixe apodrecido: não morre ninguém por causa disso, mas não é agradável. E porque a noite de Natal é uma noite bonita e feliz, divulgo publicamente a grande conclusão a que chegou o meu irmãozinho: na noite de Natal não há prostituição! Irmãozinho, subscrevo-te inteiramente. No Natal, só há mesmo meninas com lingerie sugestiva e saias encolhidas. Rameiras é que não! pickwick