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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

26
Dez06

Vésperas de Natal

pickwick

Que é como quem diz: nos dias antecedentes. Tipo, nos dias anteriores ao Natal. Isso. Fui passear à capital, essa bela localidade de mouros frustrados, paredes esborratadas e lixo humano. Um “must” desta cidade é a verdadeira, a única, a inimitável, a extraordinária Feira da Ladra. Fascina-me, pronto. Gosto de ir lá na ânsia de encontrar, por golpe de sorte, mais algum item que possa ficar bem no meu amontoado de itens amontoáveis, que alguns caridosos apelidam de coleccionáveis, como se eu tivesse, de facto, uma colecção. Enfim. A feira estava ligeiramente desfalcada. Os larápios do costume não faltaram ao chamamento, com os seus sacos suspeitos, os olhares por cima do ombro, e nem faltou uma bela rusga policial, como nos filmes. Só foi pena não encontrar nada do que queria. Para a próxima, talvez a sorte bata na minha porta. Ainda tentei ir a uma Feira de Velharias, com mesmo propósito, mas, dada a data, não se realizou, com grande pena minha. A culpa, claro está, é do Natal. Claro que não gosto do Natal. Acontecem sempre coisas estúpidas. Ah, e também fui Ikea. Já andava para lá ir há anos! Nunca calhou. E calhou agora. É um mundo! Fico sempre fascinado com estes centros de vendas, intoxicados por centenas de pessoas que se chocam nos corredores. O que vale é que, no meio de tanta gente, aparecem sempre umas gajas giras e bem postas, para adoçar o olhar. Ao fim de alguns minutos, torna-se enjoativo. É que, para quem vive numa paz de alma com vista para a maior serra de Portugal continental, ver-se embrulhado entre centenas de compradores com ar de ganância e olhares envidraçados, não traz absolutamente nenhum prazer. Mas, algum dia tinha de lá ir, para ver como era, até porque encontrei por lá umas coisinhas bem baratinhas que me faziam alguma falta e que tive mesmo, mesmo, mesmo que comprar, entrando para a lista de clientes desta superfície comercial tão conhecida. Adiante. Por altura do Natal, cometem-se algumas loucuras, como é sabido. Parece que o dinheiro estica misteriosamente até limites impensáveis e compram-se objectos cuja utilidade é mais difícil de imaginar do que relativamente a um pijama com ursinhos e “estrunfes”. Neste caso concreto, aconteceu com o meu paizinho, que resolveu comprar uma nova televisão. Eu já sabia, desde tempos há muito idos, que ele não gostava de televisões de tamanho mediano. Tem que ver com problemas de visão e ah e tal. Ultimamente, que é como quem diz, nos últimos anos, ele andava com um pouco de azar com a televisão lá de casa. Ora dava, ora não dava, ora gozava com o dono, enfim. Pelos vistos, o meu paizinho chateou-se e foi comprar uma televisão para homens. Não medi, mas deve ter mais de um metro de largura! Descomunal. Ocupa quase metade da parede. Um exagero, direi eu. Bom, mas para exagero mesmo, basta o preço. Prestei atenção ao preço delas, na Worten, assim só como que por curiosidade, e fiquei com a sensação que o mundo está mesmo perdido. Por esta altura, a televisão estava em promoção, por obra e graça do Pai Natal que gosta muito dos clientes, sendo o PVP de uns arredondados 1600 euros. Trezentos e vinte contos. Mas, antes da promoção extraordinária, a televisão estava à venda por 1900 euros, que foi quando o meu paizinho se lembrou de a comprar. Ou seja, quase quatrocentos contos! Por uma televisão. Isto não é normal. Com quatrocentos contos eu enchia uma estante com livros, comprava infindáveis peças de lingerie sensual para a minha fã número um, comprava umas calças novas para substituir a ganga coçada que uso hoje, e ainda sobrava dinheiro para mais uns livros e umas velharias sem importância. Quatrocentos contos! Porra! O Natal deixa as pessoas estranhas e sem capacidade para resistir à atracção absurda pelos produtos supérfluos. O Natal também é uma boa época para mostrar o nosso melhor em termos de disparates. Eu comecei bem. Fui ajudar o meu paizinho a mudar de sítio uma bicicleta daquelas estáticas para pedalar enquanto se vê televisão, tão prestável e simpático que eu estava, mas começou logo da melhor maneira, quando bati com um dos pés da bicicleta na esquina de uma parede. Foi só um toquezinho levezinho, devagarinho, como se fosse com uma pena. Só assim de mansinho, com carinho. Mas foi o suficiente para fazer saltar da parede uma lasca de estuque com quase um quilo e mais de um palmo de comprimento, deixando à mostra o cimento que se encontrava escondido debaixo de três centímetros de estuque. Foi um bom começo. Poucos minutos depois, foi a cena das molduras antigas que eram da minha avó. Umas relíquias, portanto. Era só para tirar os pregos de trás, com um alicate, com jeitinho, devagarinho, suavemente. E lá se foi o vidro, com uma rachadela em forma de banana. As molduras que sobraram, eram para ser penduradas algures nas paredes do corredor. Tarefa simples e ao alcance de qualquer mortal. Um preguinho de aço, um martelo, pás, pás, pás, e já está. Já está, lascas de estuque e caírem da parede. O meu paizinho já tinha agastada a célebre frase “não faz mal, ninguém morre por causa disso”, mas, na falta de outra coisa igualmente simpática para dizer, continuou a usá-la. A culpa, obviamente, é do Natal. Esbanjar dinheiro e lascar o estuque das paredes, são tudo efeitos nocivos da época natalícia. Arre! pickwick

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