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Domingo, 24 de Dezembro de 2006
O Natal na Zara

Um destes dias que passaram, vivi uma experiência memorável, a qual desejo partilhar ao longo destas linhas. Julgo que era uma quarta-feira. Combinei com uma amiga irmos até à cidade mais próxima, meter a conversa em dia, jantar e dar um passeio por um centro comercial. Sim, um centro comercial. Um gajo tem que fazer cedências, a troco da companhia. Pretendia parquear o carro num espaço baldio mesmo em frente ao restaurante chinês, onde iríamos jantar, e onde já estavam parqueados dezenas de carros. Quando cortei para o terreno, o qual alguns bem dispostos cidadãos apelidam de parque de estacionamento, quando surge pela frente um daqueles fulanos com ar de cão rafeiro, magro e mal arranjado, barba por desfazer e cabelo desgrenhado, alto, a esbracejar. Estava a falar com uma gaja qualquer e deixou-a para vir para a frente do meu carro esbracejar. Quem era o fulano? Um arrumador, pois claro. A dar indicações para onde eu poderia encontrar um lugar vago. Ora, há uma série de personagens da nossa sociedade que constituem uma verdadeira lista negra de indivíduos elimináveis. Os arrumadores estão nos primeiros lugares. Naquele mesmo “parque”, há uns dois anos atrás, apanhei pela frente outro arrumador, a querer prestar-se a servir, cuja disponibilidade obteve, como resposta da minha parte, uma tentativa frustrada de atropelamento, para gáudio do meu irmão que se desmanchou em gargalhadas de júbilo. Agora, como então, os nervos incharam e lá se foram as estribeiras. Parei o carro à entrada e fiquei a olhar para o arrumador com aquele ar de quem come criancinhas guisadas ao pequeno-almoço. Ele topou que havia qualquer coisa de errado, mas a droga deixa as pessoas assim, com pouca perspicácia. Aproximou-se da minha janela, a sorrir e a esbracejar. Pronto, passei-me. Prego a fundo, motor a roncar, rodas em rotação rapidíssima, calhaus e lama a saltarem por todo o lado, a amiga ah e tal calma que dás cabo disto tudo, travo mais à frente, mais prego a fundo, mais calhaus pelos ares, mãos crispadas, dentes a ranger, irritação máxima. Detesto arrumadores. Estacionei mais à frente, ah e tal o gajo ainda te vem dar cabo do carro, dizia a amiga. Ah sim?, pensei eu, então deixa-o o vir que depois tenho ali uma coisa na bagageira para ele. Fechei o carro e dirigimo-nos ao restaurante, que ficava, curiosamente, na mesma direcção onde o arrumador estava instalado com uma gaja, provavelmente uma das suas fãs. Não sei o que passou pela cabeça do arrumador, mas lá achou que eu comia mesmo criancinhas guisadas ao pequeno-almoço e jantava arrumadores gratinados. Começou a andar mais a gaja, afastando-se, mas falando alto, bem alto, ah e tal, não te fiz mal nenhum, porque é que ‘tás chateado comigo, e eu a fazer-lhe sinal com a mão para se afastar, como quem afasta uma mosca. Ele foi mantendo a distância, até que desapareceu ao fundo da rua, para nunca mais se ver. Sou mesmo um querido, quando chega o Natal, não sou? Bom, carne de vaca com cogumelos chineses e bambu, pato três sabores, cervejinha, banana frita com gelado, ah e tal, e lá fomos nós para o centro comercial. Queria comprar uma saia, a minha amiga. Está bem, disse-lhe eu. Mais valia ter ficado calado. É Natal e devemos ser simpáticos, mas ir com uma amiga às compras à procura de uma saia, é, tão só e apenas, um infantil erro táctico. Fui arrastado por todo o centro comercial, entrei em praticamente todas as lojas de marcas pomposas com roupa de gaja. Tipo cachorrinho. Valeu-me o consolo de não ser o único gajo a arrastar-se atrás de gajas que queriam comprar roupa. Aliás, o mundo deve estar a mudar, porque a quantidade de gajos a arrastarem-se atrás de gajas que queriam comprar roupa, era escandalosamente grande! Às mãos cheias! Começámos pela Zara. Que só tinha roupa para gajos. Ah, esta é a Zara Man, disse ela, vamos à Zara Woman. Pronto, então. Vamos lá. Visita cultural. Apesar de ser Dezembro e estar um frio de rachar cimento, as empregadas apresentavam-se todas elegantemente vestidas com calças pretas e uma camisa fininha, também preta, com riscas. Esta camisa, das duas uma: ou foi feita propositadamente dois números abaixo das utilizadoras, ou o modelo é mesmo para dar a impressão que é dois números abaixo. Um gajo nunca sabe, porque a moda tem destas e doutras coisas. Ou seja, como todas as empregadas da Zara eram proprietárias de abundantes e erectos seios, todas as camisas aparentavam estar em risco de estoirarem pelos botões, facto que proporcionava uma paisagem deslumbrante para qualquer apreciador da especialidade. Para mais, a Zara não contrata gajas balofas. Algumas menos bonitas, sim, mas balofas é que não. Pelo que, dentro daquela loja, a paisagem era, de facto, deslumbrante. À parte as empregadas e os respectivos peitos volumosos a forçarem os botões, a loja tinha ainda outras coisas para entreter o olho. Nomeadamente, as peças de roupa. Ora, em quase todas as secções havia uma peça de roupa que me fascinou. Tratava-se de uma mini-saia, incrivelmente mini, estonteantemente curta, com cerca de um simples palmo de comprimento. Ah pois é. Um palmo! C’um caraças!, exclamei eu, perante tanto erotismo subjacente. Ah e tal, respondeu a amiga, isso é para usar com calças por baixo. É mesmo?, questionei eu, incrédulo e desapontado. Bem, em princípio, respondeu ela. Nunca se sabe, terminei eu, babando-me interiormente com a imaginação. Tenho que sair mais vezes à rua naquela cidade, para me cruzar com as compradoras daquele tipo de saia. Já na fila para pagar uma camisola (ainda faltava a saia que nos levou ali), detectei um fulano engravatado, de casaquinho, gel no cabelo, metro e oitenta, que também era funcionário da Zara Woman. Carago!, exclamei eu. Gajo de sorte! Prestei mais atenção e apercebi-me que, afinal, não era um gajo de sorte. Não. Era um gajo com toda a sorte que se poderia arranjar e pedir emprestada. O bafejado, sacana sortudo, para além de trabalhar na Zara só para mulheres, rodeado de mulheres e mais mulheres e ainda mais umas quantas gajas e as amigas das gajas, só aqui e além cruzando-se com o namorado de uma cliente, trabalhava na área da experimentação. Esta é aquela área mais reservada, que tem uns cubículos vedados por umas reles cortinas que deixam gigantescas brechas através das quais um olho mais atento encontrará corpos esculturais a experimentarem roupa, despe, veste, despe, veste, vem cá fora, mostra às amigas (ou ao coitado do namorado), volta para dentro, despe, veste, e ah e tal. Quanto é que o gajo pagou ao patrão para trabalhar ali, hum? Não tem problemas de coração? E as que vão comprar roupa sozinhas e depois ficam com o fecho encravado e pedem ajuda? E as que vão comprar roupa sozinhas e não têm mais a quem pedir opinião sobre certa roupa parca de tecido? Enfim, fiquei o resto da noite a roer-me por não ter um emprego daqueles. Lá para a décima segunda loja, a minha amiga encontrou a saia que queria, com um farrapo de seda agarrado como musgo na parte da frente, preta, pelo joelho, da Pepe Jeans London (o esforço que fiz para conseguir memorizar uma marca de roupa que nunca ouvi falar, só para dar conta da mesma aqui neste blog!), que custou a módica quantia de setenta e cinco euros. Quinze contos. Com quinze contos, tentei explicar, eu comprava quase dez pares de calças. Não adiantou, ela gostou mesmo da saia e não vacilou, nem mesmo com o penduricalho de seda à frente, que mais parecia um defeito do que uma obra de arte e cuja utilidade a empregada da loja não conseguiu explicar. Minutos depois, já no Continente, comprou uma outra saia, giríssima (não me fica bem comentar roupa de mulher, mas depois de ver o sortudo do gajo a trabalhar na Zara Woman no meio de mulheres a trocarem de roupa, o mundo tem que mudar), daquelas que dá vontade de meter a mão por baixo, pelo preço de quinze euros. E sem penduricalhos inexplicáveis. Ou seja, pelo preço da outra, compravam-se cinco destas, se não me falham as contas. E acabou o dia. Eu devia sair menos à rua. E sair menos com amigas quando vão pelas ruas fora acometidas por aquela missão universal de comprar roupa. Os fenómenos a que assisto afectam-me negativamente na maneira de ver o mundo, diminuindo a esperança que tenho na humanidade. Sim, a raça humana está perdida. pickwick

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publicado por pickwick às 12:03
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