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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

10
Nov06

Um gajo 360º e outras parvoíces

pickwick

Hoje fiz o favorzinho àquela gentinha que pensa que as novas tecnologias podem influenciar pela positiva aquela outra gentinha que não se deixa influenciar porque dá muito trabalho à cabecinha. Do tipo: Joca Maganas é ladrão e preguiçoso; vamos dar-lhe um computador para ele se civilizar e virar cidadão exemplar; oh, ainda só passaram 3 semanas e o Joca já é licenciado e dador de órgãos; fantástico! Bem, não curto esta onda, mas pronto, deveres a quanto me obrigais. A Fabiana e a Rita estavam concentradas a fazer umas palavras cruzadas numa página da Internet. As palavras necessárias versavam sobre ângulos, triângulos e outras coisas fantásticas do maravilhoso mundo das coisas que acabam em “gulos”. Uma das palavras, com apenas quatro letrinhas, era o nome que algum iluminado e ofuscado se tinha lembrado de atribuir a um ângulo de 360º. Assim como que num gracejo, sugeri que era uma palavra que tinha o mesmo significado que “bonito”. Claro que não usei a palavra “significado”, porque estas crianças de 13-14 anos não detêm vocabulário tão extenso e não compreenderiam se lhes estava a falar de pizzas ou de hamburgers. Bom, a sugestão não surtiu muito efeito. A Fabiana alvitrou “belo”. Nada mau, pensei eu. Pois, mas é outra, disse-lhe eu. Segundos de confrangedor silêncio e grande dose de paciência. Então?, perguntei eu. Olhem, quando vocês vêm um rapaz que acham bonito, como é que dizem? Com quatro letras! Gajo, respondeu a Rita. Pois, mas gajo quê? Mais silêncio. Respondeu a Fabiana, em voz baixinha: gajo todo bom! Pois, mas “todo bom” não tem quatro letras, pois não? Pois não, confirmou a Rita. Sinceramente, não sei onde vou buscar tanta paciência, numa sexta-feira ao final da tarde, para manter uma conversa deste nível em tom de voz calmo e sereno. Alguns metros à frente, a Andreia, sozinha em frente do seu computador, debatia-se com o mesmo problema. A Andreia é a miúda que ontem trazia “cuequinhas verde-alface com elástico lilás, sendo que cerca de 20% das mesmas estavam fora das calças”. Hoje vinha trajada normalmente. Devia estar doente. Fiz o mesmo conjunto de sugestões à Andreia, ah e tal, rapaz bonito, e o mesmo tipo de respostas, ah e tal, belo, todo bom, hi hi hi… Ora bem, depois de muita fumarada a sair daquele crânio, a Andreia lá teve um rasgo de imaginação e conseguiu, a muito custo, sacar do banco de memória aquela palavrinha de quatro letras sinónima de bonito, que é muito pouco usual na língua portuguesa e no dia-a-dia das pessoas normais: giro! Não há condições, ó pá! Minutos mais tarde, já noutro contexto, oiço ao longe um programa da televisão portuguesa de uma tarde de sexta-feira em dois mil e seis. Uma jovem loira com ar de meretriz solicitava aos telespectadores, também obviamente jovens, qualquer coisa do género: és traidor, ou já traíste alguém?, então liga-nos! Mas que raio de parvoíce vem a ser esta? Mas está tudo louco? Um programa para crianças a promover a traição como algo tolerável e com honras de audiências loucas na televisão?! Mas que m**** é esta?! Enfim! Duas horas mais tarde, já a noite tinha caído, resolvi contar estas cenas macabras à Carina e à Adriana, que são duas meninas de dezasseis anos muito queridas e muito simpáticas, sendo que a Carina tirou o aparelho dos dentes há poucos meses e a Adriana quer ser médica. Fiquei desiludido por descobrir que a Carina sabia o nome da apresentadora daquele tal programa lunático, bem como o nome do programa, e não sei que mais dos morangos, e tudo isto apenas pela cena dos traidores e o carago! Isto é normal? Não é, não pode ser. A Carina baixou imediatamente uns três mil e setecentos pontos na minha estima. Em tom de brincadeira, sugeri que um dia destes aquelas miúdas avariadas dos neurónios ainda iriam começar dizer “gajo 360º” em vez de gajo “todo bom”. Rimo-nos todos os três e ah e tal. Algumas dezenas de minutos mais tarde, a Carina comentou para a Adriana – baixinho - que ah e tal, aquele professor novo lá da escola é todo 360 graus. Caiu-me o queixo. Olhei para a Carina com um ar entre o pasmo e o reprovador. Ela sorriu, meio corada, com a dentuça recém-recauchutada toda à mostra. Eu abanei a cabeça, desolado. Ainda agora a abano. Bela maneira de acabar uma semana: a nadar em parvoíces! pickwick

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