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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

29
Out06

A bolinha e o cachorro

pickwick

Hoje é domingo. É um daqueles domingos do ano em que há um fenómeno civilizacional que cai bem em todos os lares: atrasam-se os relógios uma hora. Ou seja, ganha-se mais uma hora na vida, preferencialmente uma hora de sono. Mas eu não dei por nada. Acordei cedo demais, com uma moca daquelas que é melhor nem ir ao espelho, a rogar pragas não sei a quem por não conseguir dormir mais, estando ainda a cair de sono, com a visão turva, a cambalear. E pronto, como na cama não se consegue dormir mais, é erguer e fazer-me ao mundo. Corri a casa a abrir os estores para deixar entrar o solzinho matinal que tão bem sabe, logo pela manhã, o ar fresco e ah e tal. Mariquices, portanto. Depois desta ronda, voltei à sala e fui espreitar o ambiente lá fora com mais detalhe. Afinal, eram só 8h21 da madrugada! E quem é que estava na rua a estas lindas horas? A vizinha ali de umas casas mais à frente! E o que é que fazia a vizinha de umas casas mais à frente mesmo em frente do meu prédio? A vizinha passeava o cachorrinho, um daqueles montes de pêlos pirosos com palmo e meio de altura, que andam constantemente a varrer o chão. Já estou acostumado a vê-la por aqui, na rua, a passear o cachorro. É uma fulana trintona, não demasiado feia, mas cheia demais para o gosto refinado de qualquer apreciador básico. Digamos que não consegue arranjar calças para ela em qualquer loja, se é que me faço entender. Isso não deve incomodar o marido, que tem mais dois palmos de altura do que ela, e consegue ter quase o dobro do corpo dela. E que também costuma andar a passear o cachorro, constituindo uma cena ainda mais hilariante, um matulão com um 1,90m e cento e muitos quilos, a passear um cachorrinho minorca a varrer o chão com pêlo. No mínimo, um gajo destes deveria passear três rottweilers ao mesmo tempo. Ou um bezerro. Mas não. É mesmo um cachorrinho piroso. Marido e mulher exploram uma espécie de pub ali quase na esquina da minha rua. Um daqueles bares que ficam pela noite dentro com a escumalha das redondezas. Enfim, dá aquele mau ambiente, mas também deve dar uns trocos. Ora, e o que estava a vizinha a fazer ali em baixo, para além de passear o cachorro? Estava parada em frente do meu carro! Eu até abri a boca, a sério! Aquilo era do melhor para começar o dia logo bem disposto! A vizinha estava a ver-se ao espelho nas janelas do meu carro! Assim meia de esguelha, meia de costas, pescoço todo torcido quem nem uma pomba, olhos cravados no reflexo do vidro, as mãos nas nádegas por cima do fato-de-treino, apalpando, como quem diz: estás grandinho, mas ainda escapas. Vira para um lado, vira para o outro, observa, estica uma perna para trás… Parecia mesmo, mesmo, mesmo, mesmo uma passagem de modelos, ali em frente ao meu carro, por baixo da minha janela, diante dos meus olhos, patente no meu cérebro maldoso e ávido por cenas de mau gosto como estas. A muito custo reprimi umas valentes gargalhadas, escondido pelos cortinados. O facto de ser ainda “muito” cedo num domingo devia dar-lhe a sensação ser a única pessoa acordada num raio de vinte quilómetros. Azar o dela! Eu vi! Eu estava aqui! E, como bom arauto que sou, não esperei mais tempo para tocar a trombeta e anunciar ao mundo! pickwick

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