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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

05
Mai04

Que raio está a fazer um sofá no meio da savana africana?

riverfl0w

Eu a bem que só me vem uma coisa à cabeça quando finalmente tiro os olhos de cima dela: aqueles documentários extraordinários sobre a vida animal no meio do continente africano, onde o leão, numa fracção de segundo, dá mesmo de caras com a presa do mês, uma bela gazela de pelugem aloirada e ar de quem vai à horta regar a salsa. Não vá o par de orelhas traí-lo, agacha a carola abaixo do nível do lombo (como se o lombo tivesse ido dar uma voltinha ao jardim), o seu fabuloso corpo repleto de músculos transforma-se subitamente num sucesso de breakdance, movimentos pausados, mecânicos, pêlo eriçado (no dançarino de breakdance seria a carapinha eriçada, mas não faz mal, que vai dar ao mesmo), enfim, arte. Findos alguns passos, não se aguenta mais com tanta impaciência e, em meia dúzia de saltinhos pouco elegantes para uma passerelle, está abocanhando o pescoço da gazela, babando-se sozinho com tamanha alegria e prazer que tal gesto lhe proporciona. E depois come a gazela. Bom, é assim que eu me sinto. Quer-se dizer, mais ou menos assim. A bela gazela não é assim tão bela. De facto, até é mais cheia que a gazela, embora não demasiado. Não estou a dizer que seja gorda, que não é, mas também não é levada pelo vento quando sobra a brisa. Não é que seja perfeita... quer-se dizer... eu até a acho perfeita... e até tem pelugem aloirada, ou pelo menos aparenta. A menos que se pinte, o que é muito feio. Sei lá. As mulheres têm destas coisas. Mas é assim mesmo, eu paro no meio da sala, e sinto-me um leão. Os leões - dizem - nem costumam caçar, que para isso estão lá as leoas, para irem às compras e trazerem gazelas p'ro almoço. Mas não faz mal, faça-se de conta que os leões caçam e fazem essas figuras tolas de pararem no meio da savana a olhar para a uma gazela. Faça-se de conta que as leoas, assim sendo, não são ciumentas, para não haver problemas. E pronto, parece que agacho a cabeça, para passar mais despercebido, dou um passo em frente e estaco, imóvel, pronto para o salto. E bem que saltava. Mas, ó pá!, na sala há sofás e mesas... As mesas ainda vá que não vá, mas agora o sofá??? Aí é que se me estraga o filme todo... saltar por cima do sofá e voar até cair mesmo em cima dela, as garras já de fora para lhe agarrar sedutoramente, e abocanhar-lhe aquele pescoço lindo, lindo, lindo... Era bonito, confesso. Se ela cortasse o cabelo ainda era melhor, para não ficar com uma mão cheia de cabelos cheios de tinta entalados entre a fiada de dentes que emergem da minha mandíbula superior. Mas pronto, faz de conta que usa cabelo curto. Não há crise. O Sofá é que estraga mesmo tudo. O sofá é para outras coisas. Para além de não haver sofás no meio da savana, os sofás têm utilidades mais... como direi... proveitosas... do que servirem meramente de trampolim para o salto da glória. Isto é que me lixa os sonhos, bolas! Raio dos sofás! Para mais, ainda nem sequer comprei um sofá para a sala da minha casa. Que atrofio. pickwick

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