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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

18
Jun04

Corto-te aqui as goelas...

riverfl0w
A carcaça vermelha circulava na estrada, dobrando as curvas e as contra-curvas ao passo cadenciado das voltas do motor. Estava calor e não havia nenhum javali a fazer-se ao bife. Estamos em zona serrana, onde o bicho abunda. Apreciar-se a paisagem de carvalhos e pinheiros, enquanto os quilómetros são batidos, é o melhor para um final de dia a cheirar a início do fim. Precisamente à curva N do trajecto em causa, eis que, lançado de cima a baixo, surge um Fiat Punto a pisar o risco do equilíbrio. Os pneus chiam, a chaparia balança perigosamente para o lado de cá, e as fracções de segundo demoram aquela eternidade dos apaixonantes filmes em câmara lenta. Vira ou não vira? Vá lá, não havia gordura no asfalto e a coisa encarreirou dentro da via, para deleite do condutor que lá deve ter ficado a pensar que era o maior. O mongo! O resto da viagem até casa fi-lo a sonhar alto. Mas alto mesmo: falar sozinho, a rosnar e a ranger os dentes. O tema do sonho era “Corto-te aqui as goelas”. Passo a descrever o dito. O cenário era o mesmo descrito anteriormente. Com o carro e tal. Só que, o cor-de-rosa não fazia parte das cores permitidas. Antes pelo contrário, ou vice-versa, ou arroz de marisco, o certo é que a coisa não correu bem para o lado do mongo. Nem para o dele, nem para o meu. Desequilibradíssimo, já só em duas rodas e um quarto, as nádegas do Punto esbarram nas nádegas do meu poderoso, desfazendo o porte esbelto e elegante, projectando-se de seguida sobre os fumarolas que se me seguem. Pimba, vira, sacode, bate, gira e aterra, arrastando-se mais uns metros. Sangue, lata amolgada, gritos, gajas histéricas (esta é a pior parte, convenhamos), confusão, telefonemas, óleo, estresse, enfim... uma tourada! Atormentadíssimo com a amolgadelazita insignificante junto à roda esquerda traseira, passa-me uma ventania entre as narinas e o tornozelo e dirijo-me muito mal disposto para a bagageira. Abro-a, olho para o mongo lá ao longe a sair rastejando da sua lata, meio ensanguentado, e rosno a meio tom: “sacana...”. A fúria que me assalta leva-me, conscientemente, a tirar debaixo de uma manta a catana de desbastar o mato. O vermelho inunda-me o branco do globo ocular. À medida que avanço para o mongo, vou crispando com mais e mais força os dedos em redor do cabo da arma. O longe faz-se perto e, perante o olhar abismado de uns quantos, eis-me já em cima do anormalzinho que provocou todo aquele circo. A ele dói-lhe qualquer coisa, tadinho, mas a hora dos queixumes é só depois do jantar. Sentado em cima dele, um joelho em terra de cada lado, puxo-lhe para trás o cabelo abichanado e encosto a lâmina naquele pescoço... com força... com mais força... é o pânico... ele pensa que agora é que vai desta para melhor... o povo grita ainda mais, o histerismo das gajas torna-se deveras insuportável (que chatas, estas gajas!) e eu quase que parto os dentes (os meus) de tanto pressionar as mandíbulas em falso, para o som da minha conversa sair meio distorcido, um mix entre o sapateado do Fred Astaire e a rouquidão do Louis A., com um fiozinho de baba asquerosa a pingar pela beiça abaixo. Digo umas coisas lindas, faço promessas e elogio os passarinhos e as plantinhas, e fico ali longos minutos a prolongar o cenário macabro. O mongo já se borrou nas cuecas, as calças já estão ensopadas, chora e treme convulsivamente, e eu vacilo entre o espera e o não espeta. Que vontade! A raiva acumulada ao longo de horas, dias, semanas, meses e – especialmente - anos, mantém-se insistentemente no braço direito, travada apenas pela história dos detidos nas cadeias portuguesas que vão tomar banho e são obrigados a apanhar o sabonete, mesmo que só usem gel de banho. Só isso trava a vontade infinita de esfrangalhar as goelas àquele monte de esterco que me estragou a traseira do carro. Entretanto, já a conversa vai longa e me dói o joelho esquerdo de estar tanto tempo naquela posição, chego à minha terrinha. A monotonia do caminho quebra-se com as rotundas da moda e o sonho é interrompido para se dar atenção às prioridades e às passadeiras e às mulheres menos feias que circulam nos passeios. Entretanto, acho que a GNR e os bombeiros já iam a chegar. Quis pensar no que ia fazer quando chegassem, mas dou de caras com a minha rua, o meu prédio e o conforto acolhedor do meu lar. Que se lixem todos! Foi bom enquanto durou e agora o resto que fique para a sessão da meia-noite. Uns batem na parede, outros partem a porta do quarto. Ou a loiça. Outros sonham... e tudo porquê? Não sei bem, mas amanhã é outro dia e o que foi já não será. Felizmente! pickwick

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