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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

13
Set06

Entretenimento para reuniões

riverfl0w
Alguém comentava, ainda hoje, como era uma grande seca estar horas a fio em reuniões. Visto que hoje mesmo participei em duas, não pude evitar relembrar como resolvo esse problema da falta de água no ambiente das reuniões de várias horas. Habitualmente, começo por fazer uns rabiscos no caderno. Dependendo do estado de espírito, os rabiscos podem variar entre monstros, criancinhas mal feitas, espadas, facas, machados e fogueiras. Às vezes também desenho assim umas coisas sem sentido, mas rapidamente se transformam em armas mortais. Quando me enfado dos desenhos e o ambiente não humedece, só tenho uma solução: apreciar a paisagem. Hoje, foi isso que acabei por fazer, uma vez que se entrou naqueles impasses compridíssimos. Ao meu redor, era só mulheres, exceptuando quatro homens a um canto. Ao meu lado direito, a Dulce. Ah, os nomes aqui usados, caso coincidam com a realidade, é mesmo só por coincidência. Para todos os efeitos, tratam-se de nomes de código, para preservar o anonimato das respectivas. Continuando, a Dulce. Trintona, super elegante, desportista, bronzeadíssima, vestida de preto, com os cabelos pretos lisos e compridos. Carregadíssima de maquilhagem, caramba! Pelo menos, umas oitocentas gramas de pó de arroz e uma cena verde e brilhante nas pálpebras, com um ar muito asqueroso. É uma fulana simpática, embora ninguém pareça gostar dela. Ontem estava sentada na sala, com uma saia, de perna traçada à homem. Se usasse uma sirene dos bombeiros a tocar dentro das cuecas não conseguiria chamar mais à atenção. Embora seja elegante, tem os mínimos toráxicos, o que, por via do calor que ainda se faz sentir, obriga ao uso de um decote adequado à temperatura. Muito bonito! Falta apenas acrescentar que a Dulce tem uma dentadura perigosa, capaz de arrancar a tampa a uma lata de vinte litros de tinta. A chamada “dentuça”. À minha esquerda, a Alexandrina. Nova na casa, deve ter tido uns quilos a menos, no passado. Agora, trintona a mãezinha, resta-lhe aquelas camadas de gordura tão típicas. Ainda assim, e também por via do calor, apresentava um decote generoso, muito generoso, mostrando ao mundo que Deus, na altura de distribuir maminhas, lembrou-se dela, e estava um mãos-largas! Um belo decote. Muito bonito! Escusava era de andar com aquelas bugigangas todas nos pulsos, nos dedos e no pescoço. Parece uma árvore de Natal à espera de ser iluminada. À minha frente, a Maria-não-sei-o-quê. É nova na casa e ninguém percebeu o que vinha a seguir a Maria. Mas não interessa. Senhora casada, trintona ou recém quarentona, cabelo loiro e bem arranjado, liso, corpo inflacionado pelas vicissitudes da idade, apresentou-se de forma muito discreta e reservada, com um peito abundante tapado a rigor até ao pescoço por uma t-shirt verde e muito justa. Passava a vida a olhar para mim quando discursava, se calhar porque mais ninguém lhe dava importância quando abria a boca e mostrava que não percebia muito do que quer que seja. Loira, portanto. Em tempos, deve ter sido uma daquelas bonequinhas de deixar os homens todos desorientados. O justo do vestuário compensava a falta de decote. Muito bonito! Será que algum dia vai chegar ao trabalho toda endiabrada com uma mini-saia de fazer corar qualquer galdéria? Ainda à minha frente, a Carla. Ora, a Carla também é nova na casa e também parece ser loira. Deve ter vinte e poucos anos, pelo que a barriguinha de pele que salta entre a t-shirt e as calças fica-lhe muito mal. Ainda tão nova e já a deixar-se relaxar. Que mal. Não fosse este excesso de alargamento e seria uma perfeição, com aqueles cabelos loiros. Curiosamente, o rosto só tem dois modos: ou sisudo, como se estivesse enjoada com o almoço, ou com um sorriso rasgado, tipo pato Donald, com os dentes todos à mostra. Usa uns óculos muito foleiros, se calhar para se armar em gaja-fashion, sendo que as hastes ligam às lentes em baixo, em vez de ligarem em cima, como acontece com todos os outros óculos do mundo inteiro. Ainda tive para a avisar que tinha os óculos ao contrário, mas ela parecia tão confortável e concentrada que optei por ficar caladinho. Sob a t-shirt clara, reinava a abundância. Muito bonito! A cabeleira por vezes elevava-se nos ares, dando-lhe um ar terrivelmente selvagem, como uma juba, estilo leoa mascarada de leão. Será lésbica? Ouvi-a na conversa com outra colega, passadas umas horas, a tratarem-se por “amor”. Depois havia mais umas mulheres, que até são muito porreiras, colegas e tal, mas para as quais olho e não encontro uma única virtude. Por isso, tive que recomeçar a apreciação individual, desde o princípio. Ainda dizem que as reuniões podem ser uma seca... Não percebo como! Amanhã tenho outra reunião, de madrugada, às 8h30. A Carla, a Dulce, a Alexandrina e a Maria-não-sei-o-quê também lá vão estar. Espero que esteja calor, senão a reunião pode transformar-se mesmo numa seca! pickwick

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