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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

08
Ago04

Se eu tivesse ido para Gigolo

riverfl0w
Gigolô: s.m.1 indivíduo que vive à custa de uma prostituta; 2 rufião (do fr. Gigolo, «amante») – in Dicionário da Língua Portuguesa 2003, Porto Editora. Pronto, não era bem esta definição técnica que tinha em mente, mas é sempre bom uma pessoa informar-se sobre o real significado das coisas antes de sobre elas dissertar libertinamente. Isto vem a propósito de me chegar à “alembradura” uma conversa tida há alguns anos atrás com um amigalhaço, em que o tema foi precisamente este. Na altura, que era uma altura como qualquer outra, não me recordo os metros, tanto eu como ele andávamos numa fase ruim das nossas vidas. Após cinco anos de veneração pelas nossas namoradas, colegas de turma na universidade, fomos escorraçados e trocados: ele foi trocado por um menino de bem com uma perspectiva de lazer limitada ao caixote da TV e a um monte de cassetes de vídeo, e eu fui trocado por um haitiano balofo de cinquenta e tal anos que dançava em discotecas africanas e engatava gaiatas curiosas. As soluções para os nossos problemas de adaptação à nova vida descomprometida tardavam em chegar, e as que apareciam batalhavam entre si para ver qual era a pior. Da minha parte, que trabalhava e estudava ao mesmo tempo, não me ocorria assim mais nada a não ser atropelar um camião TIR com a minha Vespa branca, algures nos cinquenta quilómetros que separavam a minha casa do local de trabalho. Não sobrava muito tempo para implementar outra solução, diga-se, até porque era o ano do projecto final de curso, e os fins-de-semana estavam preenchidíssimos com actividades associativas. Quanto a ele, bem menos preso em compromissos, ainda teve coragem para calçar as botas da tropa, enfiar o saco cama na mochila e ir (e vir) à boleia até Beirute para resgatar uma das irmãs que estava refém do casamento atormentador com um árabe e toda a sua cultura extremista de machismos. Quando regressou a Portugal, trazia a solução para os nossos problemas: irmos até ao Algarve para sermos gigolôs. Nessa altura ainda não tinha passado na TV o sucesso do Zézé Camarinha. Quem lhe tinha explicado a ideia foi um dos camionistas que lhe deu boleia, enchendo-lhe a cabeça de histórias de muito sexo, muito dinheiro e muito boa vida. Exactamente o que estávamos a precisar. A ideia era mesmo excelente. Lembro-me perfeitamente que na altura só visualizámos grandes aventuras com mulheres abastadas e loucamente carentes, entre piscinas, palacetes e carros de luxo. Faltava-nos o traquejo para dar daqueles conselhos à Zézé Camarinha, “your skin is very white… put cream number five”… mas enfim, nós íamos mesmo era para sermos gigolôs e não conselheiros dermatológicos. Bom, tanto pensámos no assunto, tanto nos entusiasmámos, que ficámos em terra. Ainda bem, digo eu. O meu amigalhaço, passados cerca de dez anos, é hoje um homem casado, com dois filhos espectaculares, e muito feliz. Eu também não, à parte do feliz, que também sim, dentro dos possíveis. Mas não sei como seria se tivesse ido mesmo para gigolô. Provavelmente iria à falência, sem clientela. Ou apanharia uma “doençola” daquelas jeitosas. Enfim, coisas do desespero… pickwick

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