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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

15
Ago04

Pegadas na areia

riverfl0w
Sigo os teus passos aqui e acolá, como pegadas na areia. Julgas que não, que não me importo, que no tanque do meu dia-a-dia a azáfama não deixa espaço para te perseguir, mas não é bem assim. Quando não te sigo, imagino-me a seguir-te, imagino-te aqui e acolá, entre ruas e vielas, estradas e céus. Intriga-me perseguir-te e descobrir que me persegues também, sabe-se lá com que intuito, com que razão, com que diversão, com que ansiedade. Ansiedade? Não sei. Mergulho, dia após dia, a minha cabeça no oceano da ignorância, da dúvida, da incerteza, do sonho. Sonho demais, eu sei. Mas como é bom sonhar... Sonhar com a dúvida, trocando-a pela doce certeza do que não passa do limiar da imaginação. Cuido do que escrevo nestas linhas, não vá esticar-me além do permitido pela lógica do que se conhece, não vá pisar o risco da decência, não vá estragar a amizade que julgo construída. Cuido do que escrevo, porque sei que o lês. Não o dizes, mas eu sei que lês, porque deixas pegadas, como na areia. Há palavras que destroem, há sentimentos que, por isso, não se podem trocar levianamente por palavras. Há sentimentos que devem – percebes? – ficar sepultados no berço. Contenho-os a custo. Mas, o mais certo é não te interessarem. Sinto este desfasamento de interesses. Sinto-me ridículo por sentir o que sinto. Tanto, que não sou capaz sequer de ousar levantar um pouquinho a toalha que os esconde, abrigados do medo da dúvida. Provavelmente, nunca passou pela tua cabeça o que vai para aqui dentro da minha. Tudo é um turbilhão de alegrias, dúvidas e desilusões. Sobe e desce. Às cambalhotas. Sei lá. Não consigo arrumar definitivamente as ideias, cá dentro, metê-las nas prateleiras certas, deitar fora o que não tem lugar. Parece que passam a vida a sair do sítio, as que se deitam fora teimam em voltar e reclamar um espacinho novamente. Tinha esperanças que o verão e a longa distância fizessem das suas, mas fui enganado. A distância afinal é curta, e curto é também o verão. A montanha russa continuou e continua ainda. Quero esquecer o que sinto, o que imagino, o que sonho. Quero, tento, mas volta tudo sempre ao mesmo turbilhão. Pesa-me a consciência por assim ser. Perdoa-me, por favor. Não mereces que aproveite a tua amizade para imaginar algo que não existe. Nem podia existir. Ai… se a vida fosse uma travessa de arroz doce, era tudo tão mais fácil. Mas como não é, assim ficamos. Ficas na dúvida, ou talvez não. Descontrolou-se-te o batimento do coração? Se sim, que esperas? Se não, o tempo encarregar-se-á de levar estes escritos e estes sentimentos para o distante esquecimento, a bem do descanso desta alma. pickwick

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