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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

29
Ago04

Inconsciências 1

riverfl0w
Hoje acordei a pensar na vida. É um bom dia para o fazer, é Agosto, está nevoeiro, dói-me a planta do pé esquerdo, enfim. Mas não pensei na vida toda. Apenas naqueles episódios em que nos elevamos acima da razoabilidade e do bom senso, arriscando ora o físico, ora a reputação. Episódios de que só tomamos consciência séria passados dias, semanas, meses ou mesmo anos. Quando tomamos. Porque há deles que, provavelmente, nunca nos apercebemos. O primeiro que me vem à cabeça passou-se há muitos anos, tinha eu as minhas onze primaveras. Andava numa escola na bela capital portuguesa e o meu grupinho de amigos não primava pelas actividades cívicas. Aliás, atirar pedras às janelas e tocar à mão cheia nas campainhas dos prédios até chegou a ser moda. Certo dia, lembrámo-nos de ir ao Jardim Zoológico. Os animais fascinam qualquer puto que se preze e nós não éramos excepção. E o fascínio subiu de tom quando demos de caras com a secção dos felinos, aquela fila de jaulas com leões, tigres, pumas e leopardos. Uma das jaulas tinha um majestoso leão, de juba enorme, já entrado na idade, indubitavelmente o rei daquele zoo. Até aqui tudo bem. Com a maior naturalidade, saltámos o gradeamento de segurança que mantém os visitantes a uns dois metros das barras da jaula, protegendo-os de alguma patada mais carinhosa. Isto não se faz, como é óbvio. Como se não bastasse, estávamos mesmo em frente à jaula do tal leão que, na maior das calmas, tinha o corpanzil encostado às barras e batia uma soneca. Ora, provavelmente não se deve incomodar um leão enquanto dorme a sesta, mas… não sei o que me passou pela cabeça, que não resisti a puxar-lhe o rabo. Isto é que não se faz mesmo! O bicho, estranhamente pouco incomodado, virou-se para a malta e abriu aquelas fabulosas mandíbulas num rugido mal cheiroso e impressionante, capaz de engolir-nos a todos de uma só vez. Bom, sei que ia partindo uma das canelas no gradeamento e que só parámos de correr quando chegámos ao outro lado do zoo. A mim, quase que me estoirava a cabeça, tal era o susto, e ainda levou uns bons minutos até estabilizar o batimento do coração. Ainda assim, voltámos às jaulas e saltámos novamente o gradeamento. Eu já estava um bocado apreensivo com a brincadeira toda, mas um dos meus amigos ainda queria provar mais um bocadinho de adrenalina. Por isso, foi à jaula dos pumas e estragou-lhes o descanso com um soco no lombo de um deles, pondo aquilo tudo em alvoroço, com os animais a rugirem e aos pulos feitos loucos. Escapou-se a tempo, porque os bichos em três tempos tinham as garras à mostra e esticavam as patas em movimentos frenéticos do lado de fora da jaula a ver se nos atingiam. Mas o dia não acabou aqui. Este bando de putos ainda fez mais umas visitas, embora menos estressantes. Lembro-me, como se fosse hoje, de me estarem a segurar pelos braços, eu à procura do chão, largarem-me, virar-me, e, lá ao fundo, a uns 50 metros, um gigantesco rinoceronte rodopiar na minha direcção. Um joelho esmurrado na parede e os mesmos braços a içarem-me à pressa para fora. Mais além, recordo-me de caminharmos agarrados a um gradeamento, em cima de um muro, até chegarmos ao lado de um hipopótamo imerso no tanque fedorento, e vermos quem conseguia meter-se em cima do animal, sem cair. Isto também não se faz, ok? Esse ano foi muito frutífero em disparates e inconsciências. A malta, ainda por cima, parece que não aprendia. pickwick