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Sexta-feira, 3 de Setembro de 2004
The tobacco shop
Esta mania de dar títulos em inglês há-de acabar. Agora está na moda e por isso tenho de me sujeitar aos caprichos da minha imaginação, qual escravo. Bem, vamos à loja de tabaco. Antes, uma introdução. Há momentos da nossa vida em que, forçados ou por desejo, somos levados até uma situação em que temos de fazer opções de peso. A tomada de decisões sobre algo tão vago como um futuro cheio de nevoeiro, reserva-nos sentimentos de aflição e desassossego. Não nos conseguimos livrar das dúvidas, das incertezas e do receio de errarmos. Há que vencer também umas quantas barreiras, muitas delas impostas pela sociedade ou pelo contexto social em que vivemos mergulhados, fazendo disto tudo uma grande açorda. Ocorrem-me duas estórias que o meu pai me contou numa altura dessas na minha vida. A primeira, era sobre uma loja de tabaco. Era uma vez (tinha que começar assim, ok?) um sacristão, já de certa idade, que sempre fora sacristão. Face a uma lei lançada pelo Vaticano, que obrigava a que todo o sacristão soubesse ler e escrever, este nosso personagem, analfabeto, viu-se obrigado a optar. Ou aprendia a ler e escrever, ou abandonava a arte. Pesou as duas opções, bem pesadas. Se por um lado não estava muito voltado para ir para uma escola, por outro não sabia fazer mais nada na vida. Como na “moeda ao ar”, ficou-se pela segunda opção, abandonando definitivamente a arte, e planeando viver o resto dos dias com as economias que tinha feito ao longo dos anos. Certo dia, passeando por uma certa avenida, acabou-se-lhe o tabaco. O homem tinha o vício no corpo, claro. Mas a avenida não estava pelos ajustes e não havia sombra de tabacaria de uma ponta à outra. Tal falta trouxe-lhe à lembrança que quem ali montasse um quiosque para vender tabaco, decerto faria uns bons trocos. Pensado e feito! O nosso sacristão em breve transformou grande parte das suas economias num muito rentável quiosque de tabaco. Com o passar dos meses e o avolumar dos trocos, o novo empresário não esteve para se ficar por aí e montou mais um quiosque… e outro… e outro… nas várias ruas e avenidas onde ainda não existia um e o negócio se avistava rentável. Quando os trocos já davam lugar a contas rechonchudas, este senhor resolveu que era altura de voar mais alto e investir. Foi ao seu banco e pediu para ser recebido pelo gerente que, satisfeito, o atendeu na privacidade do seu gabinete, ou não fosse um dos melhores clientes. Explicado o motivo da visita, o gerente coloca nas mãos do ex-sacristão meia dúzia de papéis sobre investimentos, acções e planos de rentabilidade. De olhos em bico, o pobre homem faz um esforço para ultrapassar a vergonha e confessa que não sabe ler. O gerente achou piada ao facto e, após uma sonora gargalhada, perguntou-lhe: “bem, se não sabe ler e chegou onde chegou, então se soubesse ler, o que seria de si hoje?” A resposta pronta e humilde termina esta estória: “seria sacristão”. É fácil sacar daqui uma moral para a estória, mas isto não passa disso mesmo: uma estória. Na maior parte das vezes não sabemos se fizemos a melhor opção, até que se passem vários anos, ou décadas, ou até nunca. Mas a vida é feita de opções. Tomar uma opção de vida é como fazemos quando não nos sentimos confortáveis numa cadeira. Podemos mudar de cadeira, meter uma almofada, ajeitar o traseiro balofo, levantar e ir dar uma volta, saltar para o sofá, ficar de pé para o resto da vida, mudar de calças, enfim, tudo são opções para resolver o incómodo. Como sabemos a melhor? Só depois de experimentarmos. E mesmo assim, nada é certo. O certo é que precisávamos de fazer qualquer coisa. E fizemos. pickwick
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publicado por riverfl0w às 01:30
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