Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

04
Set04

Inconsciências 3

riverfl0w
Pornografia. E sexo. É o tema deste post. Algum dia tinha de ser. Começo com uma estória. Era uma vez, claro, um bando de cerca de uma dezena de putos de onze anos. Caía a noite, mas, ali, naquele caminho alcatroado e ladeado por árvores frondosas, a noite caía ainda mais depressa. Era a subida para o ginásio da escola, onde ao final do dia vinham treinar atletas de outras escolas e não só. O bando aguardava do lado esquerdo para quem sobe, escondidos por montes de terra e arbustos. Ninguém sabia ao certo o que estavam ali a fazer, mas estava a ser divertidíssimo. Nisto, vislumbra-se por entre as sombras um vulto. Era uma mulher dos seus vinte anos, saco desportivo a tiracolo e passadas enérgicas. Alguém no bando descobriu o que poderia ser feito. “Vamos violá-la”, exclamou. A ideia foi recebida com bocas abertas de espanto e sobrolhos franzidos, num sinal evidente de apoio inequívoco. “Quando eu disser, saltamos para cima dela”, era o plano. Os corpos franzinos dos putos retesaram-se naquela posição de salto, impacientes pela ordem final. A mulher passou por eles e, quando já só os via pela nuca, soou o “já!” tão esperado. Foi só o tempo de darem dois ou três passos, alguns nem tanto pois escorregaram desastradamente na terra solta, e ouviu-se a poucas dezenas de metros um apito estridente. Aquela zona era vigiada, sabiam, mas escusavam de apitar numa altura destas. Tomados de pânico, o bando dispersou descontroladamente por todos os lados onde havia um arbusto e muita escuridão. Lá se foi a violação, e a mulher nem chegou a aperceber-se de nada. Mas, “vamos violá-la”??? Do que raio eu me havia de lembrar!... Eu nem sabia o que isso era. Nem eu, nem o resto do bando. Éramos putos, mal informados e completamente estouvados. Devia ter ouvido aquele verbo algures, associado a qualquer coisa que se faz a uma mulher, provavelmente sem roupa. Ainda bem que não chegámos a vias de facto, pois, para além de não sabermos o que fazer, se chegássemos perto dela, o mais provável era sermos corridos ao estalo e ao pontapé, situação que decerto nos traumatizaria para o resto da vida. Foi um ano de descobertas, este. Falava-se muito na Camisa de Vénus, ou Camisinha, para os amigos, mas acho que só no ano seguinte descobri que afinal esta camisa não era a camisa branca vestida pelos nossos colegas mais velhos nas aulas de equitação, de uso obrigatório. Um dos meus colegas, magrinho e com ar lunático, repetente, era o ídolo de alguns pela proeza de conseguir masturbar-se no meio de uma aula de inglês com o professor Walter, esse metro e noventa de peso, fato e lenço no pescoço, com umas mãos maiores que qualquer uma das nossas cabeças. Chamava-lhe àquilo uma … (petisco nacional à base de bacalhau cru desfiado). Mais um nome para a nossa colecção. Circulavam as revistas pornográficas. Às custas delas, sempre que ouço o nome Gina, não consigo contornar a memória. Algumas páginas soltas tornavam-se mesmo num mistério, pois os grandes planos dificultavam a orientação vertical da página. Para além de nos parecerem um bocado nojentas, ficava-nos sempre mal virar e revirar aquilo com um ar de ignorância total. Um dos alunos mais velhos, já nos seus dezassete anos, era frequentador semanal dos serviços das meretrizes da Avenida da Liberdade. Facilmente se tornou o nosso ídolo, reunindo-nos horas a fio à sua volta enquanto contava as aventuras. Tinha predilecção por uma delas, com quem mantinha um relacionamento mais carinhoso, e a quem levava queijo e outros petiscos quase todas as semanas. Nós andávamos fascinados com aquilo tudo, com tantas novidades. Certo dia, o nosso ídolo deixou de aparecer nas aulas durante umas semanas. Mais tarde, voltou às aulas. Não era o mesmo. Vinha de muletas e mal conseguia esboçar um arremesso de sorriso, bem aquém de antigamente. Reunimo-nos à volta dele, curiosos. Teria levado uma sova do chulo da outra? Atropelado? Ele explicou. Nesses minutos seguintes, tive a melhor e mais eficaz lição sobre prevenção de doenças venéreas de toda a minha vida, num gesto de humildade que me marcou para sempre. pickwick

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.