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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

18
Set06

Juca Bala, o Bandidão

riverfl0w
Não existe! Para os que o viram, não tem explicação! Passo a desenvolver. No sábado à noite, juntei-me com dois amigos para irmos comer um “rodízio à brasileira”. Estávamos em Aveiro, essa bela localidade, e o JN (nome de código) conhecia o sítio perfeito para nos empanturrarmos à patrão. Assim foi, pelo que rumámos até aos arredores, ali para os lados da Gafanha da Nazaré, Ílhavo, etc., numa rotunda belíssima que antigamente era um cruzamento singelo onde, em tempos idos, eu passava todos os dias para ir trabalhar. A casa estava cheia. O nome: “Estrela do Sul”. Há uma constelação chamada “Cruzeiro do Sul” e esta estrela deve ter que ver com ela, servindo como orientação para aventureiros, embora os brasileiros sejam bem desorientados em relação a muitas matérias do foro moral. Eu não deveria ter lá ido jantar, uma vez que ainda não tinha conseguido fazer a digestão da pizza do almoço, uma New York Deluxe nº3 tamanho familiar. Já essa pizza custou a comer, porque ainda não tinha feito a digestão da cervejola gelada que bebi a meio da madrugada. Esta, por sua vez, não caiu muito bem, porque ainda não tinha conseguido processar aquela tripa de ovos moles que serviu de sobremesa no jantar da véspera. Pior ainda, a digestão do jantar da véspera, uma espectacular espetada de lombo de porco com gambas no “Mercantel”, tinha levado uma eternidade. De volta ao restaurante. No tapete de entrada, em letras bem gordas, lia-se “Juca Bala, o Bandidão“. Para quem não conhece as casas onde servem “rodízios à brasileira”, dos verdadeiros (no Algarve são falsificados e parecem os restos do restaurante do lado), eu passo a descrever: pagam-se X euros e vêm umas entradas, depois arroz, farinha de mandioca, feijão preto, batatas fritas, bananas fritas, montes de coisas desconhecidas todas fritas, uma cena parecida com gaspacho, depois vem um fulano com uma espetada de salsichas frescas, depois vem outro com outra espetada de não sei o quê com carne, e depois outro, e mais outro, e passamos o resto da refeição com um vaivém de gajos com espetadas enormes de carne suculenta, armados com um facalhão de matar rinocerontes para lascar a carne, até começarmos a deitar pedacinhos de carne pelas orelhas e pelos olhos e por todos os poros, e começamos a dizer que não queremos mais, mas os gajos ficam todos ofendidos por não queremos mais, mas temos medo de dizer que não queremos mais porque estão ali ao nosso lado de facalhão na mão, e sentimos o esófago atulhado de carne, com medo de tossirmos e saltar-nos um boi pela boca. Vale a pena! Bom, voltando ao “Estrela do Sul”, a decoração não tem nada de brasileiro. Pelo menos, não pareceu. Eram cenas tipo Argentina, umas bolas para apanhar vacas, um corno para tocar o fado, uns espetos de metal com metro e meio, um laço, e por aí fora. Os empregados falavam brasileiro. Pareciam brasileiros, mas hoje em dia tudo deve ser posto em causa, tamanha é paranóia pela pronúncia do Brasil. Trajavam com umas roupas que não pareciam nada brasileiras, mas sim Argentinas, mas que ficavam muito bem nas empregadas que por sua vez ficavam muito giras, embora fossem um bocadinho feias, coitadas. Mas riam-se com frequência, o que é bom. Música ambiente latina, meio argentina, meio brasileira, meio não se ouvia. Parecia um circo, sinceramente! Só faltavam vacas a circular e a mugir e a largarem poios entre as mesas, aos pés dos clientes, para dar mais ambiente. Mas, a paródia maior era o próprio patrão: o mítico Juca Bala! Este personagem andava trajado a rigor! Calças à gaúcho, chapéu preto de abas largas, cinturão de pele de vaca com 12 cm de largura e… uma pistola. Ah pois é! Não era bem uma pistola, mas sim um revólver, tipo aqueles modelos da Taurus com munições magnum, de cor preta. Ora, o Juca andava pelas mesas, como os comuns e mortais empregados, de espetada numa mão e facalhão na outra, a distribuir lascas de picanha suculenta. Era o único de chapéu. Era o único que parava numa mesa qualquer e desatava a cantar qualquer coisa que ninguém compreendia, provavelmente em brasileiro, talvez uma história de amor ou de como sodomizou uma vaca no prado quando era jovem. Aliás, quer cantasse, quer cumprimentasse ou descrevesse de que parte do boi vinha aquele pedaço de carne, ninguém o entendia. Mas, verdade seja dita, ninguém se atrevia a dizer-lhe isso na cara. Nunca! Não se diz uma coisa dessas a um gajo que gosta de se intitular Juca Bala, que é careca e usa chapéu preto, que passa a vida a lascar picanha com um facalhão de 40 cm, e que usa um revólver à cintura enquanto serve os clientes. Por falar em usar o revólver, tenha-se em conta que o Juca Bala, fazendo jus ao nome, dá, de facto, uso à arma! Quando lhe dá na telha, o que acontece de cinco em cinco minutos, puxa do canhão e “bang bang”. Normalmente aponta directamente aos clientes. Crianças incluídas! Bom, os tiros é mais do estilo “paf paf”, mas isso agora são pormenores insignificantes. O certo é que as cenas são uma paródia! Por exemplo, se pára numa mesa para cantar, apanha os clientes distraídos a tentarem perceber a letra da música, a tentarem olhar para o tecto para onde o próprio Juca olha naquele momento profundo, puxa do revólver discretamente e “bang bang”. Isto é, “paf paf”. Um genocídio. Todos os clientes mortos. Especialmente mulheres e crianças Outras vezes, quando chega a uma mesa com um naco de picanha a pingar, deixando os clientes todos a babarem-se, puxa do coiso e “bang bang”. Mas, atenção, que ele dispara com convicção, com um ar de bandido veterano, que até morde o lábio inferior a cada disparo, como se isso lhe trouxesse um orgasmo instantâneo ali mesmo. Divertidíssimo! Também veio à nossa mesa brincar aos bandidos. Estava a dizer não sei o quê, com a maior das naturalidades, mesmo ao lado do Nando (nome de código), quando puxa do canhão e “bang bang”, nos rins do Nando, à queima-roupa, a sangue-frio, a um palmo de distância. Mas, conseguiu ser tão realista, que o Nando foi mesmo apanhado de surpresa e deu um salto na cadeira, para o lado contrário ao impacto da bala! Ó Nando, então? Estavas tão cheio que temias que o balázio te empurrasse um bocado de picanha pelo esófago acima até te sair pelo nariz? pickwick

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