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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

06
Set04

Inconsciências 4

riverfl0w
Onze anos. Sim, outra vez. Não tenho culpa e não é de propósito. O tema de hoje é tabaco. Sim, esse vício horrendo. Foi o ano da primeira experiência. Tenho algumas dúvidas sobre qual foi a marca, mas terá sido algo entre o viril SG Ventil com sabor a sapato usado e o discreto Kentucky tido como o mais eficaz mata ratos da época. Aconteceu quando descobrimos que havia monte de gente a chuchar cigarros. Não é que ainda não soubéssemos, mas nesse ano “descobrimos” isso. E, tal como quem descobre um novo restaurante, há que ir lá meter o nariz. Ou, neste caso, os beiços. Ainda foi uma coisa polémica. Quem iria experimentar, quem iria comprar, que desculpa se daria para a compra, e onde iríamos acender aquilo para ver o efeito. Se alguns comparsas houve que se desmarcaram logo à partida, outros não se fizeram muito rogados. O grupinho de “corajosos” lá se definiu, alguém com um ar angélico foi ao café comprar um maço para o pai, e lá rumámos todos para um canavial ali mesmo à beira da 2ª Circular. Outro dia passei por lá a caminho do aeroporto e o canavial ainda sobrevive, um quarto de século depois, provavelmente à espera de mais experimentadores. A experiência em si não teve nada de especial. Ninguém explodiu, ninguém morreu, tudo numa boa, ai de quem se atrevesse a comentar o sabor fedorento que ficava na boca. A farra só começou quando, sugestionados por um outro amigo qualquer, entrámos na fase de travar o fumo. Entre os enjoos e os vómitos sucessivos, não consigo esquecer as cabeçadas que dei nas latrinas, de tantas tonturas que tinha que nem me conseguia equilibrar. Mas, a malta teimava sempre em repetir a dose. Sem explicação. A pirosice atingiu o seu auge quando começámos a andar com um maço num bolso e no outro uns óculos escuros espelhados ao pendurão. Foi, sem dúvidas, a época da minha vida em que consumi mais pasta de dentes. Para além das vezes sem conta em que usava a escova, recorríamos frequentemente aos nacos de pasta que eram atirados para dentro da boca com o auxílio da ponta do dedo, mascados de seguida como se fosse a mais bela e saborosa pastilha elástica. Tudo para disfarçar o hálito, claro. Em poucas semanas já fazíamos truques e malabarismos. Já só com uns meros 8mm de cigarro para consumir, entalávamo-lo entre a língua e o beiço inferior, fechando a boca com o cigarro lá dentro a arder. Voltávamos a abrir a boca e aí vinha ele, a largar fumo, pronto para levar mais uma passas. Muito “macho-man”, decididamente. E nem o isqueiro escapava. Como se não bastasse o já batido truque de deitar o gás para dentro de uma mão fechada para depois lhe chegar o fogo e a mão se abrir numa labareda fantástica, tivemos de treinar o mesmo com a boca, como no circo. Às custas disso, certa vez ainda queimei umas pestanas, ao soprar a língua de fogo contra uma parede. Foram muitos meses, nisto. Até ao dia em que o meu melhor amigo teve uma conversinha comigo. Ele fora dos que se metera de lado quando começámos com as experiências. O tema da conversinha era o efeito do tabaco nas prestações físicas. Não éramos putos bem informados, claro, mas contra factos não há argumentos. Até termos começado nisto, fazia parte de um grupinho de alunos bem acima da média em desporto. Éramos os melhores nesta ou naquela modalidade, detendo recordes aqui e além. Foi por aí que ele pegou, precisamente. Ainda não me tinha dado conta disso, mas o recorde de onze elevações na barra que eu dantes fazia sem me chatear muito, contrastava com as reles sete elevações que agora me borrava todo para conseguir fazer. Era um facto, e não valia a pena procurar outras explicações que não o tabaco. Estava mesmo ali, na cara. Foi remédio santo e acabou-se o vício de um momento para o outro. Este amigo morreu aos vinte e poucos anos, vítima de um problema no coração, mas a ele lhe agradeço a lição de vida. Obrigado, 476. pickwick

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