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Quarta-feira, 8 de Setembro de 2004
Inconsciências 5
Ok, agora já não é nos onze. Passemos aos treze. Para além de ter sido o ano em que ganhei a alcunha com que assino estes posts, foi também o ano em que dei comigo sentado na paragem do comboio da estação de Belém, lá para as 3h da madrugada. O dia tinha sido comprido. Pela hora do almoço lembro-me de andar mato fora cheio de boas intenções de chegar à nascente do rio Almonda, com uma mochila a tiracolo, ali para os lados de Torres Novas. Mais comboio, menos pé, e vice-versa, e aí estava eu na paragem do comboio. Fazia algum frio, na altura. Devia ser início de primavera. Ia vestido com roupa de ir à missa, imprópria para andar por ali àquelas horas. Já tinha tentado adormecer debaixo de arbustos em jardins públicos em Santos, mesmo em cima da terra húmida, mas não resultara muito bem. Queria apanhar o comboio para o Estoril, onde morava a Rita (sim, a mesma da alcunha), mas descobri que os comboios não funcionavam numa determinada faixa da madrugada. O próximo, só lá para as 5h ou 6h. Resignado, sentei-me no banco da estação, à espera. Eu devia pensar que era normal um puto de treze anos, vestido como se fosse para a missa, estar ali plantado naquele sítio, àquela hora. Pensava mesmo! Nisto, entre um pestanejar pesado e um desequilíbrio momentâneo, passa um “Citroen Diana” castanho. Nada de mais. Menos de um minuto depois, passa outro igualzinho no sentido contrário. Quase que parecia que era o primeiro, depois de dar meia volta, mas vindo mais lentamente. Mais meio minuto e… era o mesmo, mais lentamente… E novamente… até que parou. Mesmo atrás do banco onde eu estava. A janela abre-se e um tipo barbudo tipo Fidel pergunta-me para onde é que eu quero ir. Respondo educadamente que quero ir para o Estoril. E ele pergunta se eu quero boleia. E eu digo que sim, obrigado. Ok, isto nunca se faz, pois não? Nunca!!!... A minha mãezinha fartou-se de me avisar, para nunca apanhar boleia de estranhos. Só me lembrei disso depois do carro arrancar, comigo lá dentro. A conversa foi relativamente rápida. Ele pergunta se eu tenho namorada e eu respondo que sim (grande mentiroso). Ele pergunta a minha idade e eu respondo com mais um ano por cima, para não parecer muito mal. Ele pergunta se eu quero uns beijinhos e uns abraços e eu respondo-lhe que não, obrigado. Beijinhos e abraços? Ai ai ai, pensei eu. Temos festa, temos, temos… O barbudo lá deve ter topado que eu, apesar das respostas prontas, tinha feito clique cá dentro. E atalha logo com um discurso muito calmante, que eu não tivesse medo, que ele não era daqueles que fazia mal às crianças, e bla bla bla. E eu respondo logo que não, nada disso, não me passou nada disso pela cabeça e bla bla bla. Silêncio. Assim como quem se lembra que se esqueceu do totoloto, informo-o que afinal tenho família em Algés, ali mesmo ao lado, e pode deixar-me lá. Ele diz que não tenha pressa, vamos só dar uma voltinha até à Torre de Belém. À Torre de Belém? Ai ai ai… Isto já cheira a sopa estragada. Silêncio, até chegarmos ao parque de estacionamento em frente à torre. Outros carros, todos com ar extremamente suspeito, estavam já lá estacionados. Alguns com pessoas muito suspeitas lá dentro. O silêncio continua. Era óbvia a embrulhada em que estava metido. E das grandes. Havia que engendrar um plano rápido para me meter ao fresco. Faço um ar de fascínio pelo rio Tejo iluminado pelo luar. Pergunto-lhe se posso ir ver mais de perto. Ele pergunta se eu estou com medo de alguma coisa, que ele não é dos que fazem mal às crianças. Eu respondo que não, é mesmo só para ver o rio, que está tão bonito. Ele aceita. Uma mão no fecho da porta e outra na mochila, e lá vou eu até ao muro, dois metros à frente. Ele continua dentro do carro. O gajo se fosse esperto, tinha-me espetado um sopapo logo lá dentro. Mas não. Sorte a minha, está visto. Assim como quem continua fascinado pela paisagem, baloiço o corpo para um lado e para o outro, enquanto seguro com mais firmeza a alça da mochila. Respiro fundo e, num ápice, desapareço numa correria frenética. Em poucos metros desço uma escadaria que dá até quase ao leito do rio e dou de caras com um fulano, todo vestido de preto, que se assusta comigo e se cola à parede. O coração quase que pára, chiça! Mas que mau ambiente por ali. A pausa foi mesmo só de umas fracções de segundo. Embalo novamente e aí vai disto. Não era qualquer adulto que me conseguia deitar a mão naquele tempo. E, borradinho de medo como ia, tinha que ser um bom atleta. Só parei na linha do comboio, já em Algés. Estavam várias carruagens paradas e atirei-me para dentro de uma delas, sonhando com o sossego de um esconderijo. O sonho durou uns 4 segundos, só até ouvir uma porta a bater. Salto da carruagem para o meio da linha, a pele arrepiada até mais não, e lanço-me para o lado de lá, atravessando a marginal e calcando o primeiro passeio da terra. Ando mais uns 10 metros e vejo ao longe dois polícias. Era só o que me faltava! Eles topam-me, mas eu, cheio de esperteza, finjo que saio calmamente de trás de um carro, sacudindo as calças e apertando os atacadores. Afinal de contas, que coisa tão banal, um puto de treze anos, vestido para a missa, mochila a tiracolo, àquela hora, naquele lugar. Assim como quem vai à horta, dirijo-me para fora de vista dos polícias, topando pelo canto do olho que nenhum deles se lançou a correr atrás de mim. Assim que dobro uma esquina, zás!, nova corrida frenética, com aquela sensação de já ter ganho a maratona e ludibriado a força policial inteira lá da terra. Assim que dobro a próxima esquina, dou de caras com outro polícia, calmíssimo, como se estivesse ali mesmo à minha espera. Então que andas aqui a fazer, pergunta ele. Ando a passear, respondo eu. Resposta inteligente, não é? A cabeça desdobra-se em mais planos para dar o fora daquela cena, olho para trás e aproxima-se mais um polícia. Que é como quem diz, acabou-se! Despeja lá o que tens na mochila, ordena-me o polícia. Obedeço. Caem na calçada alguns objectos. A faca e os fósforos dão um bocado nas vistas. Vá, anda connosco, vamos ali à esquadra, diz-me ele. Um puto não tem bem consciência do que faz, nem em que se mete, pois não? pickwick
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publicado por riverfl0w às 00:06
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