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Quarta-feira, 15 de Setembro de 2004
Irritações da pele
O intrincado emaranhado de neurónios dentro da caixa craniana e logo abaixo do farto (ou parco) couro cabeludo, existe para que possamos, entre outras coisas, ficarmos irritados. Não é uma necessidade, digamos. Se for para alguns, para outros não tanto. Talvez um escape para qualquer coisa que desconhecemos. Uma forma idiota de suprimir do nosso ser acumulações gordurosas de energia inútil, produto de carregamentos vitamínicos inconscientes. Por mais elegante que seja uma irritação, nunca deixará de ser idiota. Não é que haja muitas irritações elegantes, mas é só para dar mais dramatismo ao discurso. A idiotice multiplica-se exponencialmente quando a irritação sobra para cima de quem menos merece essas injustas sobras. Isto é quase uma regra da vida, não fosse andarem na estrada alguns exemplares raros que absorvem esporadicamente as nossas energias negativas através dos ouvidos e dos olhos. Mas, fora essas excepções, confirma-se a regra. Lamentavelmente, eu sei. Mas costuma ser mais forte que nós. Costuma fugir à nossa capacidade de raciocinar, de controlar, de conter. Às vezes, mais vezes do que gostaríamos, movem-nos motivos que só mais tarde nos apercebemos não valerem – nem de perto, nem de longe – a irritação a que nos sujeitamos e com a qual apedrejamos quem menos queremos apedrejar. Chegamos a rogar pragas e a tratar pouco delicadamente alguém para quem afinal sonhamos felicidade e queremos trazer nas palmas das mãos. Há irritações que não fazem sequer sentido, mas que acontecem. Alguém que nos traz um doce e nos irritamos porque estamos de dieta. Alguém que nos arruma a sala e nos irritamos porque queríamos ser nós a arrumar. Alguém que nos tece um elogio e nos irritamos pela teima de que não o merecemos. Alguém que gosta de nós e nos irritamos porque achamos que não tem razões para gostar. Enfim… Somos como a pele, que se irrita por qualquer coisinha… pickwick
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publicado por riverfl0w às 19:40
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