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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

26
Set04

As gajas do meu tempo 2

riverfl0w
Este segundo tomo tem o subtítulo “Explicadas a quem não percebeu, e a mim também”. O “paleio inteligente e sugestivo” era de facto um paleio divertido. Um rapazola dos seus 20 anos galanteava uma moçoila um pouco mas velha que ele, já muito mulher e senhora do seu nariz, algures num canal de chat. Ela, que é conhecida pela sua simpatia, não estava muito pelos ajustes com o discurso. A bem dizer, ela até o conhecia e sabia bem a linda prenda que ali estava. Independentemente disso, o rapaz desfazia-se em rasgados elogios e palavras muito românticas. Mandava-lhe rosas. Dizia coisas bonitas. Obviamente ele estava na brincadeira. Eu sei que ele até queria que não fosse na brincadeira, mas há que encarar a realidade de frente, e essa não perdoa. Perante o desdém da moçoila, corri em socorro do rapaz, com o argumento vistoso de que “no meu tempo as gajas não eram assim”. Eu também disse isso na brincadeira. Confesso que não tenho bem a noção se eram ou não eram, ou se as de hoje são ou não são, e isso pouco importa, para ser franco. Mas, entrar em comparações entre o passado e o presente, é sempre meio caminho andado para se dizerem muitas asneiras. Em resumo, dizer que dantes as miúdas gostavam de ouvir palavras bonitas e receber flores, e que as de hoje não, e até acham ridículo se um rapaz vai por esse caminho. Será? Não sei. A questão é que, quando enveredamos pelo caminho da comparação fácil com um passado que vive na nossa imaginação, é provável que estejamos apenas a comparar presenças e ausências. Ou seja, trocado por miúdos (a pedido de alguém), ou temos, ou não temos. Ou temos uma mulher a quem podemos dizer coisas bonitas com cheirinho a romance, ou não temos. E se não temos, é fácil identificar o problema: as gajas dantes não eram assim! Quanto temos, bom, o resto do post também era sobre isso. Ser-se ou tentar ser-se romântico. Até parece que se é intencional. E é-o, de facto. Não se é romântico ficando de papo para o ar a ler o jornal ou de olhos colados na TV. A própria noção de romântico deve ser deixada apenas para ela, que melhor poderá avaliar. Embora romântico e apaixonado sejam uma parelha inseparável. No entanto, quando queremos dar algo, daquele tipo de coisas que não se metem numa caixa, recorremos a uma série de estratégias e malabarismos. Intencionalmente. Sempre intencionalmente. É curioso que, quando falamos em intencional, acende-se sempre o holofote da desconfiança, tornando as intenções sempre de foro maligno. A nossa sociedade ensina-nos a ser assim, desconfiados, pouco crentes e a colocar um gigantesco sinal negativo na palavra “intenção”. A realidade é que, por mais que digamos que não, tudo o que fazemos é com intenção. Senão, seríamos todos uma cambada de asnos atados uns aos outros pela corda da estupidez. Não dizemos à mulher de quem gostamos “adoro-te” sem nenhuma intenção. É muito intencional. Muito mesmo! Saltam logo à vista duas intenções muito óbvias, neste exemplo: uma, porque sabemos que ela vai gostar de ouvir, vai ficar contente, vai sorrir, o ego sobe por ali acima, sente-se feliz, e nós ficamos satisfeitos por isso acontecer; outra, porque muitas vezes não conseguimos conter dentro de nós próprios aquilo que sentimos, e temos uma necessidade incrível de soltar cá para fora esse sentimento, dizer a alguém, contar a alguém, e tanto melhor se é precisamente a pessoa por quem sentimos o que sentimos. E todos os gestos que fazemos, todas as frases que dizemos, todos os beijos que damos, pautam-se sempre por estas duas intenções. Sempre intencionalmente. Depois, vem o medo. Claro, esse! O discurso mais fácil é o de remeter tudo para os tempos de hoje, as gajas de hoje e tudo o mais de hoje. Já os gregos faziam o mesmo. O medo está presente nas relações. Sempre. Em maior ou menor dose, por este ou aquele motivo, está lá sempre. Sentir medo é humano. Só os loucos não o sentem. Sentimos medo dos outros, medo da nossa relação e, pior que tudo, sentimos medo de nós próprios. O rapazola do início do post, por certo que pensará duas e mais vezes nas ocasiões futuras que se prestarem ao desenvolvimento daquelas frases bonitos e rosas virtuais. Sentirá medo. Medo de ser ignorado. Medo de se rirem na cara dele. Medo por não ser correspondido na mesma medida. Medo de não ser compreendido. Traumatizado, algum dia decidirá que as mulheres não querem mais ouvir baboseiras nem serem tratadas como princesas de um conto de fadas. Eventualmente, depois dessa decisão, chegará até ele uma que sempre sonhou ser a princesa do conto de fadas de algum príncipe. Tarde demais! Ou talvez não! Enfim, agora que confundi quem não tinha percebido, e que cada vez menos percebo aquilo que escrevo, chegou a hora de meter o ponto final neste derramamento de trocadilhos. pickwick

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