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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

28
Set04

A.F.L.P.

riverfl0w
Isto, para quem não identifique logo à primeira vista, é o nome de uma associação. Não posso revelar o nome, porque é secreta. Não é bem tipo seita, mas fica a meio caminho entre um “mutante” e a torre de um castelo na Floresta Negra. Portanto, “A” é de associação. Esquisita. Muito esquisita. Não está registada, ainda. O “P”, para quem tem olho para a coisa, é de Portugal, esta bela horta empurrada para as areias do mar onde se cultiva a estupidez a par com o intelecto. Os fundadores, e únicos sócios, puxam até si esse direito moderno de se associarem. Não é só um direito, como é também um “must” das civilizações que se prezam. Ou que têm a mania que o são, porque no fundo vai dar ao mesmo. Se há associações muito louváveis, respeitáveis e outras coisas acabadas em “áveis”, também as há, que nem pragas, de origem duvidosa, motivação suspeita e funcionamento ensombrado. Não resisti a ir à Internet procurar algo que não fosse chocante nem dramático. Encontrei quatro muito simples e nada polémicas: “Associação dos Investidores Analistas Técnicos do Mercado de Capitais” (parece um grito de um karateca antes do golpe final… AIA… TMC!...), “Associação das Vítimas de Erros Médicos” (pronto, lá está), “Associação das Famílias para Unificação e Paz Mundial” (é tão linda a paz mundial) e a “Associação dos Pintores com a Boca e os Pés” (esta merece existir). As associações associam-se, também, em associações de associações, como não podia deixar de ser, tal como a “Associação das Associações de Moradores do Monte Cristo” (imagine-se… o presidente, é presidente de vários presidentes… que luxo! Deve usar várias gravatas ao mesmo tempo). Não sei bem para quê, mas é um direito que lhes assiste. Nós, seres humanos, temos uma necessidade gigantesca de nos associarmos. Somos sociais, portanto. Por outro lado, satisfazemos outra grande necessidade do ser humano, quiçá das mais importantes, que é mandarmos. Nós gostamos mesmo é de mandar nos outros. Por isso fazemos uma associação. Assim nós somos o presidente e mandamos nos sócios. Se pusermos uma gravata ainda mandamos mais, mesmo que seja feia e às bolinhas amarelas. E, assim, somos convidados especiais do Presidente da Junta para as Festas em Honra da Nossa Senhora do Assobio. Bestial! Mas há quem não queira mandar em ninguém. Há quem queira associar-se só pelo prazer da associação. Associação de ideias, associação de interesses comuns, associação do prazer de estarmos juntos, associação para fazermos coisas juntos. O presidente somos nós. Redigimos as actas com palavras sussurradas ao ouvido e assinamo-las com um beijo muito molhado. Somos tesoureiros dos nossos próprios tesouros, que são um para o outro, como o ouro para o cofre. Os vogais batem palmas pelas actividades, congratulam-se com a maneira como tudo corre e não hesitam em festejar. Organizamos arraiais em cima de umas mantas no meio do chão, pela noite dentro e até bem depois do sol raiar, na intimidade de uma caixa fechada. Piqueniques é connosco e já é tradição a romaria de farnel debaixo do braço até onde os pés nos levam, algures debaixo de uma sombra – um verdadeiro sucesso associativo! Fazemos planos para voos mais altos, passeios até bem mais longe, muitos mais piqueniques, e, secretamente, ansiamos pela perpetuidade disto tudo, de preferência acompanhada de um crescimento e fortalecer da associação, como tal. Cada vez mais unidos, como os mosqueteiros. Quando calha, fazemos um bailarico, onde se dança ao som do silêncio, nos braços um do outro, num abraço que tenta matar a saudade que há-de vir e abafar o aproximar da despedida. Mais vezes do que podemos querer admitir, sentamo-nos pacatamente a pensar para nós próprios como nos dá prazer sermos sócios desta associação. Sócios, presidentes, tesoureiros, secretários e vogais. De vez em quando, contratamos os senhores do cinema ambulante para virem passar um filme, aqui ou acolá, onde der mais jeito, tanto faz, desde que assistam os dois sócios, mão na mão, na paz reconfortante de uma sala escura. Elegemos uma Comissão Fiscalizadora para se bater pelo fiel cumprimento dos estatutos desta associação, constituída pelos sócios que mais vontade têm de os ver cumpridos: os mesmos que são o presidente, o secretário, o tesoureiro e os vogais. Mais palavras, para quê? Aqui, esta noite, fala-se de amor. pickwick

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