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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

07
Out04

O Sol e a Terra

riverfl0w
É feio plagiar-se, mas, aproveito este breve momento em que a vergonha foi dar uma curva ao virar da esquina, para plagiar alguém: “Sonha com o Sol e a Terra a beijarem-se.... como nós....” Isto é o que se chama o mote introdutório. Também se pode interpretar como uma clara provocação, se houver contexto para tal. É que, a bem dizer, e porque ainda não atingimos a senilidade profunda, o sol e a terra não se beijam. Certo? A terra não tem beiços. Mesmo que tivesse, queimava-se tudo. Todo o mundo sabe que perto do sol não se aguenta. Aquilo é um braseiro brutal. E o sol teria beiços feitos de quê? Francamente, não pode ser. Só vejo mesmo aquela frase como sendo uma provocação. Uma grande provocação. No devido contexto, está claro. Assim tipo tentar fazer uma história com coisas que não existem, sobre coisas que existem, mas disfarçando para não se dizerem mesmo as coisas que existem, porque as que não existem são sempre um bom disfarce. Ou parecido. Isso tem um nome, que se aprende na escola, mas agora não me ocorre, nem o nome, nem a escola. Mas posso dar mais cordel à coisa. O sol e a terra. Lembra-me a madrugada, fria, escura, como que abandonada. Por cima das colinas, chega o sol, sorridente, quente, reconfortante. Aos poucos, a terra sorri-lhe também, pois acabou-se a solidão de mais uma noite de trevas. Há ali uns momentos íntimos que nos escapam numa observação pragmática de quem ainda esfrega os olhos. Mas eles estão lá, esses momentos íntimos. Faz lembrar um par de namorados que não se vê desde o dia anterior, atulhados em saudades e mais saudades, ansiosos por caírem nos braços um do outro, cada qual gelado e triste por uma noite passada ao abandono, mas também cada qual sentindo-se o sol que aquecerá, com um abraço carinhoso, com um beijo atiçado, a alma fria do outro. Faz-se um papel duplo, a bem dizer, reconfortados por sentirmos que nos aquecem, satisfeitos por sentirmos que aquecemos alguém. Como o sol aquece a terra. Afinal de contas, é como que um beijo do sol na terra, devolvido na mesma moeda; se não houvesse terra para aquecer, realmente, para que precisava o sol de ser sol? Bastava-lhe ser um calhau frio e mal jeitoso a flutuar na imensidão do universo. Como quem não ama. pickwick