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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

10
Out04

A Bela da Água

riverfl0w
Hoje, chove com força! Ontem também choveu, mas menos impressionante, apesar da ventania. A apreciação da chuva faz-se sob a influência do local e da companhia, não fosse a queda de água um fenómeno psicológico. Por alturas da Primavera, a chuva já não tem a força de agora. Não é que caia com menos força ou molhe menos, mas deixa de ser tão impressionante como agora. É tudo uma questão de hábito, bem vistas as coisas. Como quem deixa de se impressionar com o berbequim do dentista e o arrepiante raspar da broca entre os dentes, lá para a centésima consulta. Mas, estas são as primeiras chuvas de Outono. A valer. Se pingou alguma coisa até agora, não contou. Espero que já estejamos no Outono, já agora. Nunca sei quando muda, o que também não é importante, pois o Outono começa quando o vento sopra as folhas acastanhadas caídas no passeio. Esta chuva, por a ela não estarmos habituados, parece novidade. Há uma mistura de sentimentos que deixamos passar ao lado, ano após ano, de tão vulgar que pensamos que é. Sente-se que algo acabou. Não só os bikinis fio-dental, o geladinho da “Olᔠe a pele bronzeada das meninas que passam, mas também aquele calor e aquela calma que nos fizeram companhia durante alguns meses. Vem à memória a estória da cigarra e da formiga, que não vivemos mas que sentimos cá dentro, em que se acabou o bem bom, e é necessário começar a preparar as coisas para o Inverno que aí vem. Sente-se um arrepio pela espinha abaixo e uma necessidade brusca de procurarmos um local acolhedor onde possamos saborear um pouquinho das lembranças do tempo quente e seco. Mesmo dentro de casa ou de um carro, olha-se pela janela, e o arrepio ainda circula, como que a natureza a dar-nos aquele toque de cotovelo para nos acordar do marasmo do calor. Temos o conforto, mas, ainda assim, demoramos um pouco a tomarmos consciência disso. Como se metade de nós estivesse lá fora, à chuva, desorientado, desesperado para chegar até aqui. Gritamos “Hei! Pssstt… aqui!” e fundimo-nos novamente em nós próprios, esfregando as mãos de contentes por aqui estarmos, abrigados. Quentes. A chuva traz as nuvens, ao contrário do que se pensa. As nuvens vêm por arrasto, porque a chuva é que é mesmo necessária. E estes apêndices, negros, felpudos, acelerados pelo vento apressado, roubam-nos a luz e a cor. Sente-se que de repente tudo ficou cinzento, os sorrisos transformaram-se em expressões carrancudas e desiludidas, e o meio-dia parece mais um entardecer. Fazemos um esforço para procurar algo com que nos alegrarmos, um motivo para sorrirmos. Nestes momentos, somos confrontados com a derradeira questão: somos felizes? É uma pergunta que, inconscientemente, a nossa alma faz ao nosso coração, no segredo daquilo que nos passa ao lado. A resposta do coração, dada no mesmo tom camuflado, condicionará as nossas feições e o nosso estado de espírito. Porque a felicidade não se deixa vencer por um arrepio na espinha. pickwick

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