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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

19
Dez04

Bang! Bang!

riverfl0w
Lucky Luke? Não! Coelhos! Sei lá… Hoje fui ao mato. Fazer o quê, isso agora não interessa nada. Há muitas coisas que um gajo vai ao mato fazer. Umas interessam, outras também não. A de hoje, não me lembro se interessava ou não, ou então não me apetece dizer. Tanto faz. Mas, mal entrei uns metros por ali dentro, pelo mato, eis ao longe a silhueta mal disfarçada de um fulano trajado de camuflado e boné cor-de-vomitado-de-cerelac. Viu-me e embrenhou-se um pouco mais nos arbustos. Hoje é domingo, o que faz do fulano um caçador. Ou, pelo menos, armado em caçador. E armado, também. Eu não curto caçadores. Têm todo o direito de existir, como as pulgas e os postais de boas festas, mas isso não me obriga a gostar deles, nem sequer a evitar um trejeito de indisposição. Não bastando andarem a desfazer animais minúsculos, como coelhos-anões-lusitanos e perdizes-minorcas, com tiros de caçadeira, é gente que vê demasiada televisão e pode, de um momento para outro, confundir um prato de arroz de marisco com um cágado voador, disparando centenas de chumbos em todas as direcções. Pior ainda, confundir um ser humano com um javali-cor-de-rosa. Poucos minutos depois, chegaram dois carros, três fulanos. Dois deles iam também de camuflado, mas todos com um ar demasiado jovem para terem a noção do que é pegar numa arma de fogo e puxar o gatilho. Com aquele ar muito másculo de quem pensa que é a mesma coisa que puxar o autoclismo lá de casa. Mais uns minutos passados e começou o festival. Bang bang para aqui, bang bang para ali, mais uns minutos de silêncio, e bang bang, e mais bang bang. Mas que praga! Deviam pensar que ali havia veados, bisontes e elefantes, com certeza. Mais uns minutos, metem-se nos carros e vão-se embora. Das duas uma, ou mataram a bicharada toda da zona, ou andam a correr todos os trilhos que partem da estrada alcatroada para darem uso à ferramenta e se sentirem ainda mais homens, passando depois no talho do Pingo Doce para levarem carne para casa. Ás tantas, até são capazes de passar no talho antes, estendem depois os bifes num tronco, mandam umas chumbadas, e vão para casa todos satisfeitos com as peças de “caça”. Bom, eles que sejam felizes. O que eu não gosto mesmo, é aquela sensação de se estar à mercê de uns irresponsáveis, sujeito a servir de alvo a um descuido ou, pura e simplesmente, a uma anormalidade intelectual. É que, bem vistas as coisas, eles andam por todo lado, como as carraças e as baratas, inundados em direitos, e um gajo pode ver-se apanhado de surpresa a meio de um piquenique. Está mal feito. Aos domingos, os caçadores deviam pegar em pistolas de água do Carnaval, juntarem-se todos no largo da feira e fazerem “tiro” uns aos outros. Divertidíssimo! Depois convidavam umas artistas do cinema porno, para aparecerem em trajes meio transparentes e serem também alvo das pistolas de água. Molhavam-se todas, depois uma delas trazia shampô, aparecia uma mangueira e começavam a lavar os carros dos caçadores. Eles manipulavam artisticamente as mangueiras, entretanto acabava-se o tempo do contrato delas, iam todos ao talho, compravam bifes ou lombo de porco e iam para casa ter com as suas mulheres gordas e peludas e os filhos a jorrar ranho pelas narinas. Felicidade a rodos! pickwick

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