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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

21
Set06

Os Caçadores de Bolonha

riverfl0w
Não tenho bem a certeza, se o são, mas, sejam ou não, o nome fica a matar, digo eu. Se não os há, devia haver! Isto tem que ver, naturalmente, com aquela coisa bonita que circula há já algum tempo nas bocas do povo: o Processo de Bolonha. Não percebi muito bem o que é, mas fiquei com a ligeira impressão que se pretendia dar caça a qualquer coisa. Pode ser apenas um conjunto de bonitas intenções, engendradas por uma trupe de letrados embriagados, tal como muita coisa que vem ao mundo, mas não consigo evitar sonhar que seja mesmo uma caça ao disparate. Finalmente! E dar caça a quem? Ora, aí está a questão. Se calhar, descrevendo uma situação caricata, é mais fácil de perceber quem precisa de ser caçado. Imagine-se uma moderníssima escola A onde vai abrir um fantástico curso B, coordenado por um iluminado professor C. Ora, este professor C, mais a sua comissão instaladora, decide estruturar o curso B, recheando-o de cadeiras sonantes, por certo dignificantes para o curso em causa. Para a cadeira D, cujo nome não é de todo descabido, o professor C fuça no espectro de licenciados, mestrados e doutorados, que possam estar disponíveis para assumir a cadeira D, sendo que, quanto melhor e mais cotado for, melhor para o curso. Finalmente, surge o professor E, doutorado e mestrado e licenciado na área F. Diz-lhe o professor C: olha, prepara aí os conteúdos para a cadeira D. O doutor E, que passou centenas de horas mergulhado nas inutilidades das suas especializações e graduações na área F, pensa como há-de adequar esses fantásticos conhecimentos adquiridos, para fazer os conteúdos da cadeira D. Não que sejam necessários, não que façam sentido, não que sejam de utilidade para os alunos do curso B, não que o grau de exigência destes conhecimentos seja adequado ao perfil profissional dos alunos no final do curso. É que, basicamente, o doutor E tem mesmo que mostrar que é um gajo sabidão, licenciado e mestrado e doutorado, e, para isso, nada melhor que introduzir numa cadeira coisas estranhíssimas, tremendamente complexas, inúteis, absurdas, derrete-miolos, não vão o professor C e a sua comissão instaladora pensar que vão pagar rios de dinheiro a um licenciado e mestrado e doutorado para ensinar a calcular percentagens ou a usar o Powerpoint. Não pode ser. Um licenciado e mestrado e doutorado tem que ensinar coisas do arco-da-velha! Tem que moer a cabeça aos alunos, mesmo sabendo que isso não lhes traz mais-valia nenhuma a nível profissional nem a qualquer outro nível. É, à boa maneira portuguesa de novo-riquismo pindérico, uma questão de status intelectual. Os alunos, desgraçados, queimam X pestanas, esbanjam Y horas, chegam a investir Z euros em livros caríssimos e até em explicadores. Aliás, é tudo uma questão de cultura, isto de esbanjar recursos e energias. A cultura do patrão rico, esbanjador, pomposo e irremediavelmente pindérico. Saloio, como diria alguém. Esta estratégia de gerar conteúdos estende-se a todos os graus de ensino. Imagine-se, um rapaz que não prosseguiu estudos numa escola normal, enveredou por uma escola profissional para tirar um curso de cozinheiro que o lançaria na vida activa com uma belíssima ferramenta, com o curso pendurado por causa de? Ah pois é! Um módulo de matemática com matéria do 12º ano! Faz sentido? Claro que não! Imagine-se, uma criancinha com 11 anos, matriculada no 7º ano, ter um leque de 16 disciplinas! Faz sentido? Claro que não! Imagine-se, uma jovem de 17 anos, no 12º ano, candidata a um curso de enfermagem, matar-se para saber derivar logaritmos. Faz sentido? Claro que não! Não faz sentido, mas existe e propaga-se como os coelhos. Oxalá houvesse caçadores para acabar com esta praga que dura há tanto tempo. Que chatos do caraças! pickwick

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