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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

21
Nov05

A bela da dignidade

riverfl0w
Enquanto o arroz de marisco acabava de apurar e eu dava umas trincas em generosas fatias de salame, qual aperitivo fora de ordem, passavam as notícias na TV. A minha mãezinha, professora de profissão, não se conteve e desabafou todo um chorrilho de lamentações, a propósito da recente greve dos profissionais (ou não) da classe e da respectiva manifestação pública e ruidosa em Lisboa. Curiosamente, em vez de defender o habitual, contra o governo, apontou ali meia dúzia de pormenores que me deixaram a pensar nos tempos que correm. Apontou, por exemplo, o dedo à falta de dignidade com que estes profissionais se manifestavam pelas ruas, trajados feitos palhaços com cenas esquisitas na cabeça e a apitarem desalmadamente, entre gritos e risotas e muita galhofa. Apontou, por exemplo, o dedo à falta de dignidade com que estes profissionais se pronunciavam para as câmaras de TV, em entrevistas de circunstância, esgrimindo argumentos pouco convincentes e ajudando à má imagem que parecem gozar entre o povo. O mesmo povo que, se pudesse, acabava com todos os polícias (e com os ladrões também) e que destila ódio a tudo o que seja autoridade. Realmente, e bem vistas as coisas, aquela imagem do professor que eu tenho na minha memória, como uma pessoa culta, que sabe estar, sóbrio, com uma postura firme e sendo uma referência para os outros, acho que já não existe. A liberdade de expressão, sob todas as formas, é a desculpa para se defumar essa imagem e produzir um cidadão igual a qualquer outro, que não tem qualidades nem postura suficientes para servir de pilar da sociedade nem referência para ninguém. Lamentável? Claro que sim. É a dignidade que está em causa. Só pode. Não consigo aceitar que, numa reunião de professores, pouco menos de metade estejam de pastilha elástica na boca, mascando que nem uns selvagens, atendendo telemóveis, apáticos, conversando com o colega do lado, indisciplinados ao ponto de o presidente da reunião ter de bater várias vezes com a mão na mesa para merecer a atenção de todos. Custa-me ver professores a fazer figuras no meio da rua, que aceitaríamos facilmente da parte de estudantes, mas que ficam muito mal num professor. Dificilmente se credibiliza uma classe com paletes de sindicados que nunca se conseguem entender. Enfim. A dignidade foi-se. A classe enterra-se a si própria. Enterram-se uns aos outros. Abre-se a boca sem pensar no que vai sair, e o maior dos disparates é pronunciado com a leviandade mais compatível que se consiga inventar. É triste. Já não há professores como antigamente. Cheios de dignidade. Pilares. Referências. Âncoras da cultura e da sabedoria. pickwick