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Domingo, 7 de Maio de 2006
Romance na penumbra

Se há amores que parecem predestinados, tal é o fogo da paixão, outros há que são mais difíceis de conseguir, por motivos vários de ordem natural e sobrenatural e outras coisas acabadas em 'al', com laranjal. Bem, quando eu era miúdo escrevi um romance entre duas pessoas, em que uma delas era uma galinha, não me lembro bem se era o gajo ou a gaja, mas também não importa agora. Apetece-me escrever um romance difícil. Assim, decido agora mesmo criar dois personagens: o Amílcar, que é um prato de porcelana do início da década de 1900 com a pintura de um general, e a Brobuteia, que é uma maçaneta de porta em esmalte branco. Ali por alturas de Outubro, o Amílcar foi comprado num antiquário e espetado em imaculada prateleira numa sala antiquada cuja porta se fechava às custas de apalpar o rabo à Brobuteia. Poder-se-ia dizer que esta rapariga era da má vida, mas seria depreciar a sua missão de vida e ignorar a utilidade evidente. Poucos dias depois do Amílcar aparecer - já a euforia da sua chegada tinha passado entre os restantes pratos, jarras e porcarias inúteis - o tédio regressou à sala. As vistas não eram das melhores, alternando entre quadros mal pintados, jarras cheias de celulite e pratos rachados, tudo a cheirar a mofo num ambiente de meia-luz. Por vezes, o velhote anfitrião surgia pela porta, batendo irritantemente com a sua bengala no chão de madeira comida pelo bicho, misturando o cheiro a mofo com o fedor a cueca mijada. Enfim, não era das melhores vidas que se podia ter, a do Amílcar e da Brobuteia, mas podia ser sempre pior. Algures ali para o mês de Dezembro, o Amílcar começou a prestar mais atenção à forma obscena como o dono da casa apalpava a Brobuteia. Afinfava ali uma manápula nas nádegas da rapariga e torcia-a sem qualquer compaixão, obrigando-a a gemer de dor. A forma condescendente com que Brobuteia aceitava o seu destino, levou Amílcar a pensar que estava ali uma rapariga de valor, uma pessoa invulgar no sítio errado com a missão errada. De si próprio não pensava muito diferente, pelo que o seu cérebro, ainda desenvolto e elástico, como sempre foi desde que foi parido, e o foi no célebre dia da violenta perseguição aos pratos foleiros do número 4 da rua do Almirante Carvalho Araújo, não demorou muito a tecer planos e cruzar ideias. Obviamente, Amílcar tinha que saltar dali para fora, pegar na Brobuteia e transladarem-se para paragens mais propícias à felicidade de ambos. Por alturas de Novembro, ou seja, um mês antes de ter estas ideias, Amílcar decidiu que não tinha mais tempo a perder e estava na hora de passar dos actos aos pensamentos. Na segunda semana de Outubro, aproveitando a escuridão trazida pela noite e por um candeeiro avariado na rua próxima, desceu da sua prateleira por uma fio de teia de aranha, sem ser notado. A aranha fez negócio com ele, trocando o suporte para pratos onde estava Amílcar - e que dava um excelente palco para os seus concertos e recitações - por uma descida grátis usando a sua teia. Um negócio da China! Já no chão, Amílcar rodopiou acrobaticamente pelo soalho estragado, até estacar à beira da porta. Olhando para o meio desta, chamou:
- Ó boazona! Ó rabo branco! Ó jeitosa!
Por alturas de Setembro, o alvo da sua paixão deu conta do chamamento e respondeu:
- Sim?! Quem me chama? Que me quereis!
- Quero-te toda, cá em baixo, ó brasa da minha paixão, e despacha-te que o eléctrico das onze não tarda a passar lá para as catorze! - respondeu o Amílcar, todo entusiasmado.
- Ai, ó homem, mas ainda me magoou toda a saltar daqui aí para baixo… não é perigoso?
- Perigoso é o primo do piri-piri, ó boazuda! Deixa-te de tretas e desatarracha-te lá depressa, vá!...
A Brobuteia era uma miúda jeitosa, de falas moderadas, mas um bocadinho limitada em termos de progressão do pensamento. Se hoje voltasse à escola, seria definitivamente uma aluna com necessidades educativas especiais, aparelho nos dentes e saia cor-de-laranja. Um tom mais elevado de voz será como que uma ordem para ela. Em menos de quinze dias desatarrachou-se sozinha da fechadura da porta, onde viveu durante tantos anos, e preparou-se para saltar para a nova vida.
- Ó de baixo! Estais aí? Vou saltar, está bem?
- Sim, anda lá, despacha-te que o estúpido do velhote já olhou várias vezes para aqui a pensar que sou um cotão das ceroulas… quando vier a mulher da limpeza, daqui a dois dias, descobrem a trapaça e estamos lixados! Rápido!...
Brobuteia inclinou-se para a frente, preparando o salto. Lá em baixo, Amílcar esfregou de contente as mãos do general da pintura, posicionando-se para receber aquele rabo branco e perfeito que há tantos meses ansiava. Lá para Julho, Brobuteia saltou, finalmente.
- Aí vou eu! Segurai-me que sou uma louca!
- Vem! Anda, que te amparo pelas nádegas, meu pedaço de febra!
A descida, como nos filmes, demorou alguns minutos. Amílcar, com os braços do general estendidos e a tremerem, fechou os olhos do general. Numa questão de segundos, o rabo da Brobuteia pareceu-lhe maior do que aquilo que via da prateleira e ali de baixo. Teria sido enganado? Do outro lado da sala, um grito triunfante do dono da casa apanhou-o desprevenido.
- Upa!... - gritava o dono.
A senhora da limpeza, com uma lingerie púrpura cheia de rendas e muito foleira, agitava o espanador do pó enquanto tentava bater palmas.
- Engrácia, chegue-me aí outro penico. Esta operação às cataratas transformou-me num lince! Não há maçaneta que hoje escape aos meus lançamentos.
Amílcar, subitamente, caiu em si. Sim, tudo fazia sentido. O estúpido do velho, operado aos olhos há três semanas, treinava a pontaria que a nova visão lhe permitia ter, atirando penicos de porcelana branca à maçaneta da porta, ou seja, às nádegas da Brobuteia. Obviamente, quem se quedava em cima dele, não era a Brobuteia, mas sim o penico de porcelana. Brobuteia, atingida violentamente no cóccix e assim atordoada, caía também. O penico caiu com um estrondo ensurdecedor em cima do Amílcar, fazendo-o em cacos e desfazendo-se também em pedaços de porcelana branca com cheiro a urina. Brobuteia caiu logo a seguir, lascando-se nas nádegas. Como estava atordoada nem deu pela morte a chegar. Amílcar só teve tempo de arregalar os olhos do general, pois em poucos segundos um dos olhos ficou em cima do tapete e o outro foi para debaixo da estante de pau-preto.
- Porra, que já parti isto tudo! - gritou o velho.
- Ai, tão giro! Atire outro, atire outro! - guinchava a senhora da limpeza, abanando o rabo disforme e gorduroso.
E assim terminou, dramaticamente, o segundo maior romance da história daquela sala. Porque o maior, estava para vir a seguir, quando uma das cadeiras piscou o olho às ceroulas do velhote. Mas isso, é outra estória.
Moral desta estória: se faz favor, coma cenouras enquanto é novo, para não ter de ser operado às cataratas quando for velho e depois estragar um romance como este, está bem? pickwick

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publicado por riverfl0w às 23:56
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