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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

13
Mai06

As vacas, o amor e a vida

riverfl0w
Há um filme, giríssimo na época, que tem o título ao contrário: a vida, o amor e as vacas. Tomou esse título, provavelmente, em função do grau de importância de cada um destes conceitos. As vacas eram mesmo vacas, daquelas de pêlo e cornos, que levavam cobóis a passear pelas planícies para passarem o tempo e ganharem algum para pagarem o uísque que consumiam avidamente para tentarem convencer-se uns aos outros - e aos demais - que eram homens do carago. Sendo assim, a vida tomava uma importância maior, seguida pelo amor, essa sacanice maldosa de quem criou o bicho Homem. Passados poucos anos sobre o filme, percebi que a ordem estava trocada e que o centro da vida era mesmo a raça bovina. Daquelas vacas que a gente sabe. Na altura, não me poupava a dissertações sobre a psicologia da vaca, aproveitando o facto de ter muito tempo livre para o fazer, em vez de estudar como era meu dever. Mais anos em cima e, às custas de mudar de cada X vezes e de tentar organizar os meus haveres Y vezes, encaixotei cartas e cartas acumuladas ao longo de vários anos, entre amigos e namoradas. Sobre estas últimas, mais verdadeiramente sobre uma delas, o volume de cartas era mais que muito, tendo acabado por ficar separadas em mais que uma caixa. Uma delas, daqueles “arquivos mortos” de cartão para entalar numa prateleira, acabou por escapar à remessa que transitou para a garagem, encontrando-se na estante da minha sala, com uma pomposa etiqueta a dizer “Correio da Vaca”. Com uma vaquinha que vinha com o Office, a acompanhar. Não há muitos meses, um dos irmãos da dita, com quem me dou na perfeição, veio cá jantar a casa e, estando de frente para a estante, exclamou entre duas garfadas: “Correio da vaca?! Que é essa m****, pá?”. O outro irmão, também à mesa, conhecedor da origem da coisa e do conteúdo da caixa, sorria de gozo. Eu disfarcei a coisa como pude, e penso que o rapaz nunca irá relacionar coisa com coisa. Enfim, isto das vacas tem muito que se lhe diga. Hoje mesmo, numa troca de sms com um amigo, atolado em conturbados sentimentos atrofiantes, derivados de uma relação amorosa mal acabada, vieram as vacas à conversa. Confesso que a culpa foi minha, pois quando o aconselhei a recorrer à escrita para aliviar o sentimento e o aperto, respondi ao pedido de sugestão de tema com “a vida, o amor e as vacas”. Fi-lo de forma imparcial, note-se, utilizando a sequência original do filme. Não quis, pois, influenciar o homem. O certo é que na sms de resposta dizia que ia para o meio das ruas de Coimbra pintar vacas. Pois, até ouvi hoje na rádio que iam andar vacas em fibra de vidro pela cidade e não sei que mais. Pouco depois, recebi nova sms com um pensamento filosófico que fez questão de pintar numa das vacas expostas ao público: “As vacas vão a todo o tipo de paradas e, se deixares, põem-te a pastar. Isso não é nada bom. Se possível, não aprendas a pastar. Se aprenderes, deixa o pasto enquanto podes. Isso é para elas, as vacas”. Esteve bem, este poeta. Portanto, se alguém encontrar uma vaca, no meio da cidade de Coimbra, com este pensamento brilhante, já fica sabendo que é tudo uma questão de gajas foleiras. E eu, faz de conta que não tenho culpa. Seja como for, devo dizer que fiquei encantado com a profundidade do pensamento. A analogia com o “pastar” é mais que perfeita e encaixa que nem uma luva. Vou dormir sobre o assunto, esta noite, para tentar digerir a coisa. Pela parte que me toca, os tempos de andar a ruminar pelos prados, feito artolas, a rastejar que nem as lesmas, já passou. Mas, pelo que parece, as vítimas não param de surgir. Parece uma sina, esta coisa de sermos convencidos a pastar. Aos que não conseguiram escapar à primeira, ou à segunda, nem às demais, reitero a necessidade de se manter a fé de que um dia será o dia da fuga do prado e a conquista da liberdade! pickwick

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