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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

24
Set06

One night in Coimbra – parte 1

riverfl0w
Fui a Coimbra só para tratar de umas coisas com o Nekas e meter a conversa em dia, mas um convite para jantar leitão atirou-me para uma noitada daquelas. Fomos ao “Porquinhos”, eu, o Nekas, o Tóti, um amigo deles chamado Vitó que fica muito bonacheirão depois de beber uns copos, e um casal amigo do Nekas. O “Porquinhos” é um restaurante “in”, com arquitectura moderna, decoração a condizer, banda de música ao vivo, escadinhas, vidraças e tal. Nada do meu género, que sou mais de escolher a tasca pelo tamanho do bife, mas pronto, quem vai de arrasto, sujeita-se. A única mesa ocupada, quando entrámos, estava repleta de loiras lindas de morrer e boas de chorar por mais. Fomos rapidamente informados que se tratavam das mocinhas do “Passerelle”. Ora, eu, na minha tamanha ingenuidade, espreitei descaradamente da nossa mesa para a mesa delas, constatando que sim, elas tinham aspecto de quem anda em cima da passerelle… Só que, era outro tipo de passerelle, daquelas onde as gajas se roçam pelo chão e num varão de ferro, tiram a roupa, alimentando-se de bafos brejeiros de gajos desdentados que se babam a cada golpe de anca nua. Ou seja, estávamos a jantar a poucos metros de uma mesa cheia de strippers. Achei fantástico! Nunca tal me tinha acontecido. Entretanto, enquanto o leitão não vinha, foram-se abrindo garrafas de champanhe e vinho tinto. Pela porta do restaurante foram entrando centenas de clientes. De destacar um grupo enorme com t-shirts todas iguais: um jantar convívio de funcionários da “Herbalife”. Ah pois é. Esconderam-se lá atrás, num salão qualquer misterioso, montes deles e delas, todos vestidos de igual. À minha mesa comentava-se o motivo de tal encontro ser feito às escondidas. É que, segundo se consta, aquela malta dos produtos naturais vendem montanhas de coisas saudáveis e impingem montanhas de teorias e fazem montanhas de dinheiro, mas, quando chega a hora de comer, são todos uns alarves e não se contentam com nada menor que costeletas de palmo e meio por três centímetros de espessura! Mais tarde, quando saímos, é que me apercebi do dinheiro que estas tangas da natureza fazem. Lá fora, no estacionamento, havia uma frota de carros com “Herbalife” gravado em letras gigantes. O primeiro que avistei era um Audi A6, e mais não digo. De volta ao jantar, a sala principal encheu-se com mais umas centenas de clientes, numa presumível festa cuja origem não conseguimos apurar. As mulheres jovens e jeitosas presentes, em pouco tempo foram alimento para grandes divagações. O Tóti, todo chateado, reclamava com as mulheres que se arranjavam para sair e que demoravam horas para escolher cinco sapatos, dos quais seriam escolhidos dos, que por sua vez dariam para mais umas horas de indecisão, e tudo isto para quê? A cara de indignação do Tóti ficar-me-á gravada para sempre na memória! Para quê? Para as estúpidas andarem por aí com os sapatos debaixo da mesa e ninguém os ver! O Tóti domina! O Vitó tinha outra teoria: as gajas vêm a estes jantares, comem um naco minúsculo de comida, levantam-se da mesa e passam o resto do jantar a circular de pé, por entre as restantes mesas, a exibirem-se para eles e para elas, a mostrar a roupa nova, a maquilhagem refinada, o penteado inovador, para lá e para cá, vai e vem, ah e tal, que se comessem mais um naquinho iam inchar tanto que pareceriam porcas para abate no matadouro. Ele tem a sua razão, tenho que concordar. Olhando bem, havia duas que insistiam nessa atitude. Aliás, ninguém se lembra de as ter visto sentadas! E vestiam de igual, apenas de cor diferente. Igual? Sim, igual e muito provocante! Usavam daquelas camisolas que caem do ombro abaixo, assim teimosamente, para que fique a pele toda à mostra, provocando nos homens um inevitável desejo que no ombro oposto aconteça a mesma coisa e a roupa vá por ali abaixo até ao umbigo, deixando à mostra um peito perfeito e irresistível. Realmente, esse desejo existe, posso confirmar. Elas depois inclinam-se para a frente, naquela mesa e na outra, para conversarem com as amigas e os amigos, fazendo cada vez mais possível o desejo de todos. Enfim. Já disse que o leitão foi acompanhado com champanhe? Devo estar a subir na vida, só pode. Por falar em subir na vida, recordo-me de outro tipo de camisolas que parece estar na moda. São daquelas que parecem muito normais, mas deixam as costas todas a nu, rematadas com uma tatuagem sexy pouco acima da cintura, obrigando magicamente os homens a colarem-se na tatuagem, com um fio de baba a escorrer pelo canto da boca. Ora, porque é que estas mulheres usam este tipo de roupa? É muito simples. São as desmamalhudas. E o que é uma desmamalhuda? Uma desmamalhuda é uma mulher que foi bafejada pelo azar ou pela crise no momento em que Deus distribuiu as maminhas na Terra. Portanto, ou incha com silicone, ou desvia habilmente as atenções para a parte oposta do corpo. Espertinhas, hem? Ah, e tenho uma reclamação a fazer! Não vi uma única mulher com mini-saia! Mas que é isto? Algum pacto com o diabo? Estão todas parvas? Saem à noite de calças! Sacanas!... Adiante. Depois do leitão, veio a sobremesa. A mocinha que nos atendeu, brasileira, distribuiu a carta das sobremesas. Eu, já folgado da timidez graças ao efeito hilariante do champanhe, procurei a sobremesa cuja descrição ocupasse mais espaço no papel. Eram umas bolachas com não-sei-o-quê, com frutos secos e mais não-sei-que-mais, bem, na essência, ocupava duas linhas de texto, pelo que me vi forçado a pedir uma coisa daquelas. Não há, disse a mocinha. Rápido como um foguete, procurei a sobremesa com descrição de tamanho imediatamente a seguir. Também já não havia. Fiz um ar de desespero, como se me fossem atirar com o carro para as águas profundas do Mondego. A mocinha, simpática, gira mas com uma dentuça sobredimensionada, sugeriu-me os gelados alcoólicos. E eu pensei cá para comigo: gelados alcoólicos? Parece-me bem. Armado em gingão, olhei-a assim à mete-nojo como se lhe fosse sugerir que fosse ela a minha sobremesa, e perguntei-lhe: que me aconselhas? Ela fez um “hum… errr…”, apontou para a carta e zás: gelado de tangerina com aguardente velha! Fiquei desorientado, como se ela de repente me tivesse tirado a roupa toda, acenei que sim e fiquei a matutar o que raio é um gelado de tangerina com aguardente velha. Passados poucos minutos fiquei a saber! É de comer e chorar por mais! E mais! E mais ainda! Servido numa taça cónica de vidro, com pezinho de flamingo. Delicioso até mais não. Os companheiros de mesa escolheram sobremesas civilizadas, mas todas servidas com pipis e cocós e folhinhas de hortelã, em pratos do tamanho de antenas parabólicas, com lascas de não-sei-o-quê, e um estúpido fio de chocolate a fazer um desenho artístico no enorme prato branco. Num dos pratos, imagine-se, o cozinheiro borrifou pó de bolacha Maria por cima de um garfo, que depois de retirado deixou a respectiva marca e o resto do pó em redor, uma cena muito artística mas de utilidade nula. Só se o pessoal fosse de agarrar no prato com as mãos e lambê-lo todo. Não foi o caso. Mas era compreensível! Um gajo que paga mais de três euros por uma sobremesa, tem direito a lamber tudo até ficar a brilhar o fundo do prato, e ainda devia merecer uma sensual lambidela da empregada na orelha cheia de cera. pickwick