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Terça-feira, 10 de Outubro de 2006
As Prostitutas e o Vinho Verde e Outras Estórias
Tudo começou com a frase identificativa do meu irmãozinho no Messenger: “Princesas e Vinho Verde”. Ora, o que é que um marmanjão com mais de um quarto de século de existência faz no Messenger com uma frase destas? Ao que parece, a frase original não falava de princesas, mas sim daquelas senhoras que se prestam a serviços íntimos à beira da estrada, de saia arregaçada e cigarro na beiça. Aliás, o conjunto do vinho verde com o título dessas senhoras, faz uma expressão bem portuguesa e bem conhecida, daí o seu uso no Messenger e em qualquer amena cavaqueira entre dois cavalheiros. Acontece que a nossa mãezinha, senhora de uma grande aversão às máquinas e aparelhos com mais que um botão, deu a volta ao destino e desde há vários é fã do IRC e do próprio Messenger. Como tal, em três tempos apanhou o filhote mais novo em flagrante delito virtual e em menos de nada estava à porta do quarto a oferecer uma lição de moral: que ah e tal, “tens nível e educação suficientes para melhor”. Claro que isso abalou por completo o equilíbrio emotivo e psicológico do meu irmãozinho, deixando-o num transe tal que nem mexeu na frase. Assim sendo, a nossa mãezinha viu-se obrigada a uma operação delicada e eficaz, embora à socapa, como nos filmes do James Bond: aproveitando a ausência do filho para mais um dia de labuta, foi-lhe ao computador e alterou-lhe a frase! Prostitutas, ainda vá, mas p**** é que não! Mas, prostitutas é um termo sem impacto, que não consegue emparelhar com o Vinho Verde, daí uma alteração posterior para “Princesas”. Conversa puxa conversa e veio à baila uma dissertação sobre o uso de algum vocabulário - dito obsceno – da língua portuguesa, nomeadamente no blog dele. Eu já me tinha esquecido que ele também tinha um blog! Medo! Muito medo! Não posso revelar o título, por questões éticas e morais, mas posso adiantar que ele assina com o nick de “********* Mau”, sendo “*********” o marido muito grande de uma representante da raça caprina. Estas pancadas para a escrita devem ser mesmo de família. Já o nosso paizinho, em véspera da revolução dos cravos, foi encarcerado por ter escrito, se bem me lembro, assim umas coisas feias sobre o regime e aquelas cenas todas maradas de que as pessoas mais velhas falam mas que nós desconhecemos porque não as vivemos na pele. Só a nossa mãezinha escapa a esta obscura tendência familiar. Fez o papel dela - e bem feito - deixando-nos a saber redigir português com um mínimo de aprumo e correcção, mas foi incapaz de controlar o uso que posteriormente demos a essa competência cultural. Ainda bem me lembro, devia eu ter pouco mais de dez anos, sentado na mesa da sala, vergado sobre uma folha de papel de carta daquelas estreitas e com linhas suaves, escrevendo uma carta aos meus avós de Viseu, sob o olhar atento dela. Um desviozinho do discurso linear e socialmente correcto era imediatamente apontado a dedo, havendo lugar a pronta correcção. Um deslize e toca a passar tudo a limpo. Tempos difíceis. Na altura, jurei que me haveria de vingar de tamanha estreiteza de horizontes de expressividade literária. E vinguei! Assim que me nasceu pelugem nas beiças e pude escrever cartas a meu belo prazer, sem o dedo inquisidor em riste, comecei a presentear os amigos de além-mar com a deliciosa liberdade dos discursos e diarreias intelectuais. Ah e tal, anos de opressão, havia que libertar a pressão e não sei mais o quê. A coisa devia ser de uma libertinagem tal, que a Fátima, quando me apanhou deste lado do mundo, não descansou enquanto não me perguntou o que raio é que eu escrevia nas cartas para o irmão dela, porque, cada vez que recebia uma, havia sempre uma boa meia-hora de gargalhadas no quarto dele, daquelas que se ouviam no meio da rua e faziam o resto da família ficar envergonhada com o chiqueiro sonoro. Mas nem todas as pessoas gostam de ler disparates. Uma das minhas namoradas da juventude detestava as minhas cartas, em especial o cabeçalho, que em qualquer carta normal traz um local e uma data, mas que, nas minhas, trazia logo um grande discurso e um chorrilho de disparates, do género “Aqui, onde o sol se põe mais tarde do que nasce” ou “Aqui, um dia destes, em noite de trovoada e agarrado às cuecas”. Coisas eruditas, claro, muito sedutoras e românticas. Agora, por falar nestas coisas do tempo da outra senhora, não resisti em subir acima de um banco e tirar da prateleira dos dois metros e trinta uma caixa empoeirada cheia de textos, cartas e estórias, escritos nos meus primeiros anos de adulto, isto é, depois de ter idade para ter juízo, para votar e para ser preso. Estive a reler alguns títulos. Deprimente. Muito deprimente. Um dia destes devia transcrever alguns para aqui. Ou não. (pausa) Meu Deus! Acabei de ler um texto que escrevi há muitos anos, a relatar um episódio acontecido há ainda mais tempo, na China, aí em 1985. Resumidamente, vi uma chinesa na biblioteca e apaixonei-me logo. Desenhei-a de perfil, a lápis, num papel amarelado, e ofereci-lhe a obra. Chamava-se Âmbar (a miúda). As amigas chinesas puseram-se à defesa, as intrometidas do caraças! Os meus amigos chineses vieram ajudar-me a combater a defesa das amigas dela, nomeadamente fazerem umas traduções e divertirem-se à brava. Marquei um encontro com ela numa esquina, junto a uma cabine telefónica. Tipo filme francês. As amigas apareceram, disseram bye-bye e foram-se embora. Eu fiquei lixado. Os meus amigos também quiseram ficar lixados, por solidariedade. E deram-me uma ideia para as lixar a todas, tipo vingança do chinês. Comprei uma caixa de cartão nos correios, meti lá dentro excrementos de cão apanhados de fresco na rua, embrulhei-a bem embrulhadinha e decorada, e despachei-a para a miúda e suas amigas, como um típico presente. Envenenado. E mal cheiroso. pickwick
publicado por riverfl0w às 23:41
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Segunda-feira, 9 de Outubro de 2006
De regresso
Estava a ver que nunca mais. Isto de sair para um fim-de-semana de folia, tem que acabar. Um gajo já não tem idades e musculaturas para estas aventuras. Em menos de vinte e quatro horas está arrumado a um canto, com um inchaço monstruoso abaixo do diafragma, o sono completamente descontrolado e um índice de produtividade escandalosamente baixo. Enfim. Sobra o prazer da boa companhia, das conversas porreiras, dos queijos cremosos, da chicha no prato, do tinto generoso, dos jogos de mesa, e outras coisas que tais. Depois um gajo descobre que os amigos avançam na vida enquanto marcamos passo. Eles é Audi A4, eles é filhos, eles é casarões. Fico feliz pelos amigos, mas não consigo evitar pensar porque raio é que, passados anos, continuo na mesma, pindérico e estagnado, como um penedo. Deve ser da alimentação. Ou não. Por falar em queijos cremosos, alguém me sabe dizer o que é um lésbico? Surgiu no meio de uma conversa muito intelectual, como bem se depreende, mas desde então que ando às voltas a tentar compreender o que será. Ninguém me soube explicar, fartámo-nos de rir e dizer disparates e comer mais uns nacos de pão com queixo amanteigado e mudámos de assunto. Se uma lésbica é uma mulher que gosta de mulheres (tem bom gosto, já agora) e um homossexual é um homem que gosta de homens, estragando aquela simplicidade de identificar uma mulher que gosta de mulheres como sendo uma “mulhersexual”, é de presumir que um lésbico seja um homem que gosta de mulheres. Depois homossexual ah e tal vem de “homo”, que representa o ser humano e portanto aplica-se a ambos os sexos, e não sei o quê o amor gay também se aplica ao amor entre duas mulheres e por aí fora. Pá! E não sei o quê, na Grécia, havia uma cidade chamada Lesbo, onde vivia uma tarada chamada Safo, que fundou uma escola só para gajas e comiam-se todas umas às outras, e daí o termo lésbica. Pois sim! Um lésbico, digo eu, seria um habitante de Lesbo, do sexo masculino, que se via desgraçado para conseguir um cambalhota com uma gaja, porque eram todas parvas e andavam todas na escola da Safo e só queriam comer-se umas às outras, feitas parvas. Portanto, um lésbico é um sofredor, é um gajo que vive rodeado de gajas parvas e que não come nenhuma delas porque elas são parvas. Bem. Eu não tenho nada contra as lésbicas. Têm todo o direito a serem felizes e até acho muito sensual quando duas lésbicas andam de mão dada na rua. Mas escusavam de inventar essa do gajo que é lésbico, porque depois é preciso pensar no assunto e é tudo muito complicado e as gajas são todas muito esquisitas e imprevisíveis e pronto. Ainda não percebi o que é um lésbico. Espero que não seja um prato de picanha com batatinhas assadas. E, por falar em lésbicas, no caminho de regresso a casa acabei de me aperceber de um fenómeno: cerca de um sexto dos automóveis portugueses transportam uma bicicleta (ou duas) em cima do tejadilho. Presumo que tenha que ver com moda e status e estética rodoviária. O tunning já deu o que tinha a dar e agora o que está na berra é equipar o carro com uma bicicleta de montanha no tejadilho. Aposto como algumas são todas em plástico chinês, daquele rasca, que só precisa de aguentar a força do vento. Será que esta malta chega a tirar as bicicletas do tejadilho durante o fim-de-semana? Tenho sérias dúvidas. Ou então, tiram-na, vestem-se com aquelas roupas de licra, armados em bailarinhos, óculinhos à mete-nojo, capacete casca-de-pinhão, para darem uma voltinha de trezentos metros numa ciclovia e fazerem de conta que são desportistas e têm muita saúde e são muito modernos. Cambada de… enfim! Gajo que é gajo, veste-se com aquele fato de treino mais ranhoso, enche a garrafinha de plástico com cerveja gelada e mete-se à estrada! Por falar nisso, ainda não arranjei uma garrafinha de plástico para a minha. Ainda morro por aí, num caminho-de-cabras, desidratado e cheio de fraquezas, sem um único nico de cevada para ma reabilitar. pickwick
publicado por riverfl0w às 23:50
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Quinta-feira, 5 de Outubro de 2006
De partida
Estou de partida, é verdade. Chega a semana assim a modos que ao fim e um gajo fica a pontos de meter-se desta terra para fora e ir gastar dinheiro e ir comer que nem um alarve e ir ver montes de gajas em quem não podemos tocar e queimar gasolina para lá chegar e dormir pouco e mal e porcamente e enfrascar-se e ah e tal. Uma maneira fantástica de acabar uma semana. Sim, porque amanhã é sexta-feira. Amanhã, se tudo correr conforme planeado, vou aproveitar a hora do almoço para não almoçar e ir tratar de abastecer a mochila com aquelas coisas foleiras da Serra da Estrela que ninguém gosta, assim uns queijos, uns chouriços, umas compotas, enfim, porcarias. Depois de um dia a aturar canalha, provavelmente culminando numa reunião intelectual com o patrão a propósito de computadores portáteis, terei ainda pela frente duas horas sentado à mesa com duas meninas dos seus 16-17 anos, cheias de dúvidas existenciais sobre o número Pi e coisas redondas. Uma delas, a Carina, que até é filha do presidente da Junta de Freguesia aqui do burgo, tirou o aparelho dos dentes durante estas férias. Ficou lindíssima, com o cabelo castanho alourado e um sorriso de lés a lés. Já se pode rir à vontade. Dantes também se ria, mas aquele aparelhão do tamanho dos andaimes usados na construção do Centro Comercial Colombo estragava-lhe um bocado a sensualidade. Agora, ela é toda sensualidade e simpatia e outras coisas acabadas em não sei o quê que agora não me lembra. É uma querida. E a amiga também. A amiga é mais saída da casca, assim com ar de marota, daquele tipo de miúdas que quando chegar à universidade será anfitriã de inúmeras e escandalosas festas e orgias e bacanais, exibindo aquele sorriso de quem acha que a diferença entre comer um bife com batatas fritas e fazer um “trabalho de sopro”, está apenas no sabor. Enfim, assim que me livrar delas, meto-me à estrada e vou até à terra dos vidros. Lá espera-me uma reunião de trabalho, uma confraternização e um festival gastronómico, três em um na mesma casa. Será um rever de amigos e um meter do estômago em dia, com coisas comestíveis muito saudáveis. Eu devia era ter juízo e, das duas uma, ou ficava em casa sossegado a tentar fazer uma série de coisas que ando a atrasar de mês para mês, ou então, fazia-me homem a sério e ia para a noite e ah e tal. Verdade seja dita que isso da noite é fixe mas o ah e tal é que nunca corre bem. Aliás, nunca corre. Maldita idade. Isto de passar do prazo é do caraças. Depois um gajo já não tem paciência e não sei quê, raios as partam, são tão boas mas tão chatas e ah e tal, não sei que mais. Assim, resta-me ir beber uns copos com uns gajos casados, mais as respectivas e os respectivos rebentos a guincharem para que lhes mudem a fralda e tal. Giríssimo! Ainda vou fazer de tio, às tantas, jogar à bola, rir um bocado, aturar birras, enfim. Posso sempre esvaziar as garrafas todas de tinto, antes do tempo, e atirar-me para cima de um sofá a curtir um coma profundo, alheio à berraria toda à minha volta e às vozes das gajas e ao cheiro das fraldas a serem mudadas. Por falar em cheiro, estou aqui num dilema: o queijo. Levo daqueles durinhos, de cortar às lascas com uma faca-de-mato? Ou levo daqueles que parecem baba de elefante, que se lhes abre um buraco em cima e se comem à colherada? Ou um de cada? Ai! Esta vida é tão difícil… estes dilemas da vida, estas opções, estas escolhas, estes sacrifícios… não sei se aguento muito mais tempo assim, nesta agonia… pickwick
publicado por riverfl0w às 23:48
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Quarta-feira, 4 de Outubro de 2006
Pato Donald contra Forasteiro da Tenda Quechua
A ideia era escrever uma estória com base em três frases, dadas inicialmente. A saber:
- o café da aldeia estava cheio;
- uma faca é sempre um perigo;
- desapareceu num túnel escuro.
Lindas frases, não são? O Asa Vermelha fez a dele, como lhe competia, mas eu não resisto a aproveitar a ideia e fazer também uma estória romântica, um épico, uma obra-enteada. Aqui vai.
A noite caíra com o estrondo do ribombar dos trovões, lá para os finais do século XIX. Parecia uma mistura entre um rancho de tambores do Minho e um campeonato de bufas intestinais. Alguém, lá em cima, estava chateado. Apesar do mau tempo, o café da aldeia estava cheio. Os habituais clientes não fizeram caso da chuva e dos raios e coriscos que os céus vomitavam, e atravessaram as ruas enlameadas da aldeia até ao café. Valeria a pena? Claro que valia! Para além das pernocas saltitantes e despidas das meninas do grupo de dança, dos arranhões sonoros no piano desafinado, dos frequentes duelos de revólver e balázios de cobre pelos ares, dos festivais de chapada e soco a que ninguém quereria faltar, esta noite presenteava os clientes com um espectáculo novo e singular. Um forasteiro com ar de maricas, armado apenas com quatro facas penduradas à cintura, camisinha de renda, relógio digital com calculadora, rádio, leitor de DVD e alarme para telenovelas, colete de pele de coelho e uma tatuagem de túlipa no pescoço, fazia uma demonstração de lançamento de armas brancas. Uma das meninas do grupo de dança, chamada Joana, já visivelmente embriagada, prestava-se a fazer de alvo, encostada a uma parede de tábuas. O público bradava, guinchava, pulava e bebia ainda mais. O forasteiro dominava a coisa! Uma a uma, tirava as facas das bainhas e lançava-as com mestria inigualável em direcção à menina, que tremia e gemia e revirava os olhos quando a faca se cravava na madeira gasta da parede de tábuas, soltando umas lascas e rasgando mais um bocado do tecido do seu provocante vestido. A cada quatro lançamentos, o forasteiro ia buscar as facas, encaixava-as novamente nas bainhas, voltava atrás e repetia a proeza. Muito bonito! Aos poucos, o vestido transformou-se em farrapos e a dançarina provocante deu lugar a um corpo semi-nu, para gáudio dos clientes que começavam já a uivar, com os olhos a saltarem das órbitas e a caírem nos copos de uísque e laranjada. Grande farra que para ali ia. Nisto, sem que ninguém desse conta, as portadas do café abriram e entrou o pato Donald. Ninguém deu por ele, tal era a algazarra ali dentro. Deviam ter dado por ele, já que a menina dos farrapos era a sua pretensa namorada. O pato Donald, obviamente, não gostou do que viu. Montes de homens feios, barbudos, mal cheirosos e embriagados, a uivarem por causa da nudez cada vez maior da sua namorada, cujas vestes estavam a ser trinchadas pelas facas de um forasteiro qualquer com ar de larilas. Não tinha graça nenhuma! Nenhuma mesmo. Com a sua poderosíssima voz, um sotaque intragável e montes de gafanhotos, o pato Donald passou um raspanete naquela malta toda e desafiou o forasteiro a um rápido ajuste de contas devido àquela afronta toda. O povo tremeu. Oh sim! Aquilo ia dar molho. O pato Donald estava mesmo chateado de todo e nada de bom ia sair dali. As penas roçavam nervosamente as coronhas de madre pérola dos dois revólveres Colt 45 Tó Malá que lhe pendiam do cinturão carregadinho de munições. Chispas e fagulhas saltavam-lhe pelos olhos! Num ápice, como ao outro que se lhe abriu um caminho pelo mar dentro, formou-se um corredor em linha recta entre o forasteiro e o pato Donald. O público estava embriagado e excitado com a lingerie minúscula da menina do grupo de dança, mas não tinha perdido a consciência ainda. Um balázio do pato Donald podia atingir qualquer um e uma faca é sempre um perigo. Havia que dar espaço para os objectos voadores. Mais trovões lá fora, menos barulho dentro do café. Olhos nos olhos. Moscas no ar, a zumbir. Medo. Muito medo. De súbito, o forasteiro saca das quatro facas ao mesmo tempo e lança-as em zigue-zague na direcção do pato Donald. A poucos centímetros de atingirem o alvo, as facas cravam-se no corpo excitante da Teresa Guilherme, que sempre teve um fraquinho por homens mais novos e mais baixos e mais não sei o quê, nomeadamente o pato Donald, e que resolveu sacrificar a sua vida pela do pistoleiro das penas brancas, que tanto amava, interpondo-se entre as lâminas afiadas e o corpo do Donald. O pato ficou pior que estragado. Sangue por todo o lado. Ainda mal tinha sacado dos revólveres e já estava com as penas brancas todas sujas. Raios partam as gajas, grasnava o pato, que ninguém percebia mas todos entendiam. Pior que estragado, Donald sacou das armas e foi balázio para cima do forasteiro, dos candeeiros, do piano, dos espelhos, dos copos, para todo o lado. Os clientes corriam que nem doidos em todas as direcções! Agora é que ia ser o bom e o bonito, com o pato Donald fora de si. O forasteiro, agora desarmado, largou a correr por entre a multidão descontrolada e aterrorizada, perseguido pelos balázios pouco certeiros do pato, até conseguir escapar, de um salto, pela janela do café. Já na rua, chapinhou rua abaixo, pela lama fora, tentando escapar aos tiros do pato Donald, também já na rua. A coisa estava cada vez mais feia, pois o pato Donald tinha umas patas estilo barbatanas e progredia na lama com uma velocidade surpreendente. Sentindo-se a ser apanhado, o forasteiro dobrou uma esquina e enfiou-se num beco sombrio, sem saída. Ao fundo do beco, estacou, tacteando as costas em busca de algo. Nisto, apareceu à boca do beco, o pato Donald, com os revólveres a fumegar que nem cachimbos de ópio em sobreaquecimento. Atónito, o pistoleiro das penas viu o forasteiro tirar, detrás das costas, um disco com cerca de um metro de diâmetro, de cor verde, com umas letras enormes a dizer “Quechua”, que lançou para o chão à sua frente. Quando o disco caiu no chão, já não era mais um disco, mas uma espécie de iglo, com uma portinhola, pela qual o forasteiro se meteu e de onde nunca mais saiu e nunca foi visto. No dia seguinte, o tablóide sensacionalista da aldeia publicava a notícia: “Grande duelo entre o perigoso pato Donald e um forasteiro desconhecido que rasgou a roupa da namorada do pato à facada. Balas perdidas fizeram quarenta e três mortos, noventa e um feridos e partiram a dentadura do Avô Cantigas. Forasteiro escapou-se do café do Ti Leandro e desapareceu num túnel escuro e misterioso, ao fundo do Beco das Cagufas”. pickwick
publicado por riverfl0w às 19:21
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Terça-feira, 3 de Outubro de 2006
Extra
Era uma vez uma mãezinha que tinha um filhote de quatro anos num colégio. Certo dia, recebeu do colégio uma lista de propostas de actividades extra-curriculares para o seu descendente, com os correspondentes euritos a desembolsar. Inglês, informática, psicomotricidade, etc. Do melhor! Esta mãe, danada com tudo isto e muito mais, chegou aqui à tasca e começou a debitar papaias e ceroulas sobre as actividades extra-curriculares das crianças, e os horários, e o estresse dos pais de um lado para o outro para levarem os filhos todos às actividades todas, e as mensalidades a mais, e a pertinência desta ou daquela actividade, e para quê tudo isso, e blá blá blá. Pois, querida mãe, apraz-me tecer alguns comentários sobre essa coisa das actividades extra-curriculares e outras que tais. Para começar, devo deixar bem claro que essa coisa do Inglês para as criancinhas novas é uma estratégia grosseira e desprovida de bom senso. É fruto da moda e da estupidez humana. Os pais que tenham dois dedos de testa, optarão por inscrever os seus pirralhos de palmo e meio em aulas de Chinês, mas nunca de Inglês. A língua inglesa, está cotada no mercado como a terceira língua estrangeira mais simples. A mais simples de todas é a Linguagem Universal do Sexo, composta por apenas quatro palavras, a saber: hum, oh, si e cariño; a seu tempo, mais cedo ou mais tarde, com jeito ou sem ele, as crianças aprenderão esta linguagem. A seguir, vem a linguagem dos bosquímanos e, logo a seguir, a língua inglesa. É uma estratégia idiota inscrever as crianças em aulas de Inglês. A opção correcta será o Chinês. Passo a explicar. Para se expressar convenientemente por via escrita em Chinês, assim como ler, estima-se que seja necessário conhecer uma média de três mil caracteres. Ora, como presumo seja compreensível, tal conhecimento obriga ao desenvolvimento do intelecto e da memória da criança. Ter aulas de Inglês é ter um bando de putos a sonharem com a Floribela enquanto identificam peças de mobiliário e divisões da casa num desenho colorido. Pais, tenham juízo, por favor! Tal como esta, a esmagadora maioria das actividades extra-curriculares são estupidamente inúteis, consomem rios de dinheiro e alqueires de tempo, e não trazem proveito visível. Houvesse utilidade nestas actividades e eu seria um defensor acérrimo das mesmas. Por exemplo, tendo em conta esse fenómeno público chamado “Bullying”, em que andam touros à solta a marrar nas crianças, na escola ou na rua (daí a origem do nome, bull=touro), seria razoável que se criassem aulas de toureio, para as crianças aprenderem a lidar com a situação. Em alternativa, umas aulas de Judo também ajudariam, uma vez que é muito fácil fazer escorregar um touro de quinhentos quilos com um simples mas eficaz varrimento dos cascos dianteiros. Outra actividade muito útil, para crianças a partir dos três anos, seria Lides Domésticas. Sim. As mães desde país são muito tapadinhas e não percebem a utilidade de uma actividade extra-curricular deste género. Em vez de andarem feitas baratas tontas a levar as crianças à Pintura, ao Canto Coral e à Psicomotricidade, faltando depois o tempo para lavarem a roupa, passarem-na a ferro, fazerem o jantar, passarem a esfregona no chão, lavarem a loiça, pintarem as unhas, etc., juntavam o útil ao agradável e traziam para casa criancinhas instruídas nessas artes todas da lide da casa, companheiras fiéis das tarefas todas, reduzindo para cerca de dois terços o trabalho habitual que têm de arcar pelo simples facto de serem mulheres. Até a Informática, essa disciplina irritante, poderia ser reestruturada e considerada de utilidade evidente. Para tal, seria necessário eliminar aquelas parvoíces da utilização de processadores de texto, de edição de desenhos e do tempo desperdiçado com CD’s e DVD’s que os pais compram, iludidos que são pedagógicos. A Informática para Crianças dos Três aos Onze anos, deveria contemplar conteúdos mais úteis, tais como Gestão de Homebanking (carregamento de cartões de telemóvel, consulta de saldos, transferências bancárias, pagamento de serviços, etc.), Aquisição Electrónica de Bens em Hipermercados, Consulta de Horários de Transportes, Consulta de Boletim Meteorológico, Consulta de Páginas Amarelas, etc. É de louvar, contudo, quando esta ocupação de tempos livres das criancinhas tem como motivação prevenir o contacto com telenovelas idiotas que abundam na televisão, embora não se perceba porque é que os pais têm tempo para andarem a correr de um lado para o outro a levar as criancinhas para uma actividade e para outra, gastando tempo e mais tempo, e não têm tempo para ficarem em casa a conversar, a brincar e a educar as criancinhas. Eu sei porque é. É porque, enquanto andam no leva-e-traz, abundam álibis e oportunidades para dar umas facadinhas nos matrimónios! Ah pois é! A verdade dói, mas é mesmo assim. Seja como for, o que estes pais, que colocam as criancinhas em actividades tão dignificantes e pedagógicas, não sabem, é que fica a faltar aquele elemento crucial na vida e no crescimento delas, chamado Paz & Sossego! É este o elemento que faz a criancinha parar uns instantes e perguntar-se a si mesmo: o que vou fazer agora? Dá-lhe tempo para magicar planos maquiavélicos para depenar o piriquito, fazer um graffiti no peixe-dourado, meter gel no pêlo do gato, roubar as cuecas novas do estendal da vizinha da frente ou atar uma lata ao rabo do cachorro. Estas manias da modernidade estão a deturpar séculos de vida em sociedade. Nos meios rurais, as crianças já não incham as rãs com cigarros, já não trazem lagartixas para a escola, já não inventam diabruras. Hoje, andam com um ar de aluadas, meio babadas, de beiço descaído, a falar em iPods e gigas e outras porcarias que não sabem como funcionam mas que fica muito bem como assunto de conversa. É que, a bem dizer, entre meter uma criancinha no Inglês ou comprar-lhe um iPod, o resultado é o mesmo: horas e horas de abstinência intelectual e inutilidade, em prol da modernidade e da cultura que dificilmente alcançarão por essas vias. Por isto tudo, pais e mães deste país, aconselho o seguinte programa educativo para uma tarde pós-escola: duas horas no quarto com uma lata cheia de Legos, um isqueiro e um gato; uma hora a ajudar nas lides domésticas e a tentar escapar às perguntas difíceis da mãe; uma hora na rua a borrar-se todo e a levar porrada dos mais velhos; meia-hora a arrumar os Legos; e meia-hora a explicar ao pai a necessidade de queimar o rabo do gato. Experimentem e logo verão as diferenças. pickwick
publicado por riverfl0w às 18:23
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