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Domingo, 5 de Setembro de 2004
Virtual pleasure – The Princess
Numa noite recente, estava eu aqui sem nada para fazer, ou pelo menos sem vontade de pegar no muito que tinha para fazer, quando descobri na Internet um site que vinha mesmo a calhar para essa noite tão solitária. Era em www.virtualpleasure.com e não é preciso explicar mais. Ou é? Havia vários programas para ocupar a noite com algo que nos desse um prazer para além do real. Bastava termos os olhos bem abertos, um microfone e uns auscultadores (colunas de som não convinha, por causa da vizinhança). Entre todos os programas disponíveis, houve um que me atraiu, não sei bem porquê. Deve ser por andar meio lamechas, ultimamente. Chamava-se “The Princess” e não hesitei muito em o escolher. Isto ia meter uma princesa, obviamente. Já era quase meia-noite, portanto, uma belíssima hora para uma coisa destas. Depois que cliquei no botãozinho que dizia “Go and be happy”, os acontecimentos sucederam-se a uma velocidade que ainda agora não consigo definir se era lenta, normal ou demasiado rápida. Ora bem, vamos lá a contar a coisa. A história, resumidamente, era um cavaleiro que faria uma viagem até um castelo longínquo, “roubaria” a princesa ali mantida prisioneira, levá-la-ia para uma cabana algures no isolamento de uma floresta, passaria a noite com ela, e, no dia seguinte, devolvê-la-ia ao castelo mesmo a tempo de alguém dar pela sua falta. Estas estórias modernas, realmente, não são como as de antigamente. Dantes, a princesa não voltava a ser prisioneira, ora bolas. O cavaleiro levava-a e pronto, eram felizes para sempre. Enfim. Modernices!... Adiante. Aquele site deve ter muitas visitas. Ó pá! A parte da viagem, que não interessava para nada, demorou quase uma hora. Irritante! Depois, o site foi abaixo logo na altura em que chegava ao castelo. Era suposto meter a princesa na garupa do cavalo e zarpar para a cabana na floresta, mas o que é certo é que ainda tive de gramar ali quase hora e meia à espera que metessem o site a funcionar novamente. Já estava a dar em doido. Ainda reiniciei o pc a pensar que o problema seria daqui, mas não, era mesmo deles. Assim que o site retomou a actividade, apareceu a princesa. Bem, um luxo. O site tem umas opções para se escolher a figura da princesa, assim bastante sofisticadas. Com jeito, consegui fazer uma montagem que ficou igualzinha à rapariga que eu mais desejava que fosse a minha princesa nessa noite. Impecável! A parte do corpo é que foi mais engraçado. Os gajos aí só tinham uma opção. Nem havia hipótese de escolha. Era corpo perfeito e mais nada. Isto não é bom, porque há muito gajo que prefere miúdas com mais de 150kg, e assim nem participa, tal é a desilusão. Mas, no meu caso, assentou que nem uma luva. Um corpo perfeito é o que tem a rapariga que eu desejava que fosse a minha princesa nessa noite. Assim, de alto a baixo, ficou igualzinho. Cinco estrelas. Viva a tecnologia! Na garupa do meu cavalo, linda de morrer, ia a princesa. Mais uma seca de viagem por montes, vales e florestas, até à cabana. Tenho de mandar um e-mail para ver se eles encurtam essa parte, que não tem piada nenhuma. Já na cabana, notava-se logo uma falhas. Não havia lareira. A sorte é que não estava frio. Também não havia uma cama! Ao menos um sofá, poxa! Mas nem isso! Estenderam-se umas mantas no chão e já fomos com sorte. A partir daí, uma vela iluminou-nos até se apagar, e a noite não foi noite, mas sim horas e horas de… de… enfim… Eu nem tenho palavras… Inexplicável. Também não vou entrar em detalhes. Mas foi… Eu sei lá!... Podia ficar assim dias seguidos! Um gajo não se farta! Nunca, quando estamos com a rapariga com quem mais gostamos de estar, a nossa princesa deste sonho que é a vida. O único atrofio era um relógio daqueles antigos que fazem ding-dong-ding e dão as badaladas de hora a hora, e às meias horas fazem ding. Ou dong. Sacana do relógio! A manhã nasceu cedo e o sol penetrou por entre as fisgas da janela. Diz-se que, se queremos saber se uma mulher é realmente bonita, o teste infalível é ao acordar. Se for mesmo bonita, acorda igualmente bonita, senão, é uma farsa. E esta? Estava perfeita! Eu se não estivesse já irremediavelmente apaixonado, era ali mesmo que o ficava. Princesa que é princesa, toma o pequeno-almoço na cama. E um cavaleiro nunca nega os direitos a quem de direito, daí que lhe fui levar o dito à “cama”. E o dito era, dentro das limitadíssimas opções disponíveis no site, duas rodelinhas de ananás e um copo de sumo de alperce. É lindo levar o pequeno-almoço à cama, a uma princesa, mesmo que seja de ementa limitada. Conta a intenção e o gesto, e, princesa que é princesa, sabe disso. Mais tarde, fiz-lhe um almocinho ligeiro e levei-a de volta ao castelo, mesmo a tempo de as gentes aparecerem para mais um dia entre muralhas. Sobra, agora, a recordação. Parece que ainda sinto os seus lábios nos meus, nas mordiscadelas provocadoras, o toque naquela pele macia, o abraço contínuo, e a insubstituível companhia. É escusado ir ao site agora, pois está em baixo. Pode ser que qualquer dia o voltem a meter online. Espero que sim. Quanto a ti, minha princesa virtual, seja o perpetuar dos meus beijos e do calor do meu abraço o preenchimento dos teus sonhos passados e futuros. pickwick
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publicado por riverfl0w às 17:38
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Diplomacia

"Os jovens vêm e fazem a guerra, trazendo as virtudes da guerra: coragem e esperança no futuro.
Os velhos, depois, fazem a paz e carregam os vícios da paz: desconfiança e prudência."

Omar Sharif, in Lawrence of Arabia

riverfl0w
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Sábado, 4 de Setembro de 2004
Inconsciências 3
Pornografia. E sexo. É o tema deste post. Algum dia tinha de ser. Começo com uma estória. Era uma vez, claro, um bando de cerca de uma dezena de putos de onze anos. Caía a noite, mas, ali, naquele caminho alcatroado e ladeado por árvores frondosas, a noite caía ainda mais depressa. Era a subida para o ginásio da escola, onde ao final do dia vinham treinar atletas de outras escolas e não só. O bando aguardava do lado esquerdo para quem sobe, escondidos por montes de terra e arbustos. Ninguém sabia ao certo o que estavam ali a fazer, mas estava a ser divertidíssimo. Nisto, vislumbra-se por entre as sombras um vulto. Era uma mulher dos seus vinte anos, saco desportivo a tiracolo e passadas enérgicas. Alguém no bando descobriu o que poderia ser feito. “Vamos violá-la”, exclamou. A ideia foi recebida com bocas abertas de espanto e sobrolhos franzidos, num sinal evidente de apoio inequívoco. “Quando eu disser, saltamos para cima dela”, era o plano. Os corpos franzinos dos putos retesaram-se naquela posição de salto, impacientes pela ordem final. A mulher passou por eles e, quando já só os via pela nuca, soou o “já!” tão esperado. Foi só o tempo de darem dois ou três passos, alguns nem tanto pois escorregaram desastradamente na terra solta, e ouviu-se a poucas dezenas de metros um apito estridente. Aquela zona era vigiada, sabiam, mas escusavam de apitar numa altura destas. Tomados de pânico, o bando dispersou descontroladamente por todos os lados onde havia um arbusto e muita escuridão. Lá se foi a violação, e a mulher nem chegou a aperceber-se de nada. Mas, “vamos violá-la”??? Do que raio eu me havia de lembrar!... Eu nem sabia o que isso era. Nem eu, nem o resto do bando. Éramos putos, mal informados e completamente estouvados. Devia ter ouvido aquele verbo algures, associado a qualquer coisa que se faz a uma mulher, provavelmente sem roupa. Ainda bem que não chegámos a vias de facto, pois, para além de não sabermos o que fazer, se chegássemos perto dela, o mais provável era sermos corridos ao estalo e ao pontapé, situação que decerto nos traumatizaria para o resto da vida. Foi um ano de descobertas, este. Falava-se muito na Camisa de Vénus, ou Camisinha, para os amigos, mas acho que só no ano seguinte descobri que afinal esta camisa não era a camisa branca vestida pelos nossos colegas mais velhos nas aulas de equitação, de uso obrigatório. Um dos meus colegas, magrinho e com ar lunático, repetente, era o ídolo de alguns pela proeza de conseguir masturbar-se no meio de uma aula de inglês com o professor Walter, esse metro e noventa de peso, fato e lenço no pescoço, com umas mãos maiores que qualquer uma das nossas cabeças. Chamava-lhe àquilo uma … (petisco nacional à base de bacalhau cru desfiado). Mais um nome para a nossa colecção. Circulavam as revistas pornográficas. Às custas delas, sempre que ouço o nome Gina, não consigo contornar a memória. Algumas páginas soltas tornavam-se mesmo num mistério, pois os grandes planos dificultavam a orientação vertical da página. Para além de nos parecerem um bocado nojentas, ficava-nos sempre mal virar e revirar aquilo com um ar de ignorância total. Um dos alunos mais velhos, já nos seus dezassete anos, era frequentador semanal dos serviços das meretrizes da Avenida da Liberdade. Facilmente se tornou o nosso ídolo, reunindo-nos horas a fio à sua volta enquanto contava as aventuras. Tinha predilecção por uma delas, com quem mantinha um relacionamento mais carinhoso, e a quem levava queijo e outros petiscos quase todas as semanas. Nós andávamos fascinados com aquilo tudo, com tantas novidades. Certo dia, o nosso ídolo deixou de aparecer nas aulas durante umas semanas. Mais tarde, voltou às aulas. Não era o mesmo. Vinha de muletas e mal conseguia esboçar um arremesso de sorriso, bem aquém de antigamente. Reunimo-nos à volta dele, curiosos. Teria levado uma sova do chulo da outra? Atropelado? Ele explicou. Nesses minutos seguintes, tive a melhor e mais eficaz lição sobre prevenção de doenças venéreas de toda a minha vida, num gesto de humildade que me marcou para sempre. pickwick
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publicado por riverfl0w às 11:39
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Sexta-feira, 3 de Setembro de 2004
On the rocks
Eu devia cobrar qualquer coisinha aos tipos. Os da tal empresa de viagens. Daqui a nada parece que não faço outra coisa senão falar das viagens que eles organizam. Depois mando-lhes um mail a perguntar como é que é, se não fazem um desconto por causa de lhes fazer publicidade de borla. Não se perde nada em tentar. Ora essa! Bem, recém regressado de mais uma viagem organizada por eles, eis-me completamente fascinado. Continuo a insistir no profissionalismo daqueles fulanos, sem margem sequer para dúvidas. A viagem era bem diferente do habitual. Nada de extravagâncias nem de longas distâncias. Apenas uma subida a um pico rochoso, do cimo do qual se proporcionava uma calma impressionante. Eu acho que eles não me injectaram com nenhuma droga, mas o facto é que me senti como que drogado, a partir do momento em que me sentei lá no cimo. Mais uma vez, o programa contemplava o acompanhamento feito por uma sereia. E, como não podia deixar de ser, era uma sereia sem rabo de peixe e igualzinha à pessoa com quem eu gostaria de me sentar no cimo de uma montanha. Eu nem reparei quanto tempo foi que estive lá em cima, mas seguramente quase duas horas. De ouro! A sereia, sorridente e irradiando felicidade, acedeu ao acanhado convite para que se deitasse no meu colo. Segurei-a nos braços, tentando que fosse com a mesma suavidade com que se segura um bebé, tornando este gesto num abraço permanente. Aí, pronto, desapareceu tudo. Desapareceram as árvores, desapareceram os rios lá em baixo, desapareceu o resto da montanha, e apenas ficaram algumas nuvens dispersas na imensidão do horizonte. Ficámos, assim, como que a pairar sobre nada e ao mesmo tempo sobre tudo. Não havendo mais nada a mirar, sobrou o rosto da sereia. Lindo! Os gajos sabem o que fazem. Era tal e qual, sem tirar nem pôr, o rosto da pessoa que eu mais queria abraçar até sempre. Desconfiado, ou apenas disfarçando, passei-lhe os dedos pelo rosto, vezes sem conta, em busca de algo que me esclarecesse se era um sonho, realidade, ou ficção. Nada. Era tudo tão real que até me custava a acreditar. Real, e por isso mesmo contrastante com a alienação que sentia em relação ao resto do mundo à nossa volta. Uma confusão de sentidos, apenas atenuada pela calma reinante e pelo prazer que o momento me trazia. Mas, como em qualquer cartão de telefone, chega a altura em que o saldo dá o último suspiro. E assim se acabou a viagem. Depois que os rios, as árvores e o resto da montanha reapareceram, e dela descemos, a sereia transformou-se numa doce recordação, gravada na minha memória como o fogo na madeira. Já de regresso a casa, descobri o bónus desta viagem: os meus braços cheiravam à sereia. Mais fantástico ainda, o cheiro era igualzinho ao da pessoa de quem eu tenho mais saudades. Ainda não percebi qual é o truque dos gajos, para conseguirem estas proezas, mas que se lixe. É aproveitar! Quilómetro sim, quilómetro não, erguia ora um, ora outro, os braços até às narinas, aspirando num prazer supremo aquele perfume enlouquecedor. E já decidi: não me lavo durante uma semana! Peço desculpa a quem tiver que conviver mais de perto comigo, mas não me lavo mesmo. É até o cheiro desaparecer, ou a saudade morrer. E esta saudade, só se mata de uma maneira. pickwick
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publicado por riverfl0w às 02:32
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Another tale
Era uma vez um chinês. O chinês tinha um filho e muitos cavalos. Esta estória foi o meu paizinho que me contou e não precisa de ser obrigatoriamente sobre um chinês, mas como o meu pai estava a viver na China, passou a meter um chinês. Chama-se a isto Contextualização Geográfica Forçada. Ou manias. Tanto faz. Adiante. Certo dia, o filho estava a montar um dos cavalos, assim a atirar para o bravio e irreverente, quando, no meio da agitação da contenda, o rapaz tomba ao chão e parte uma perna. Danado, o chinês (pai) quase que espanca o cavalo, por causa do acidente. Roga-lhe todas as pragas e mais algumas e pensa seriamente em mandar rifar o animal. Enquanto pensa e não pensa, o imperador manda recrutar para exército todos os moçoilos capazes, para encher a panela da carne para o canhão. Representantes do exército batem à porta do chinês, a esfregarem as mãos de contentes, mas voltam por onde vieram, de mãos a abanar, pois uma perna partida não dá para nada. O chinês, felicíssimo com a escapada do filho às fileiras bélicas, muda radicalmente de opinião em relação ao cavalo, enchendo-o de mimos e paparicos. Tanto encheu, que o cavalo certo dia meteu-se ao fresco, por entre uma cancela esquecida aberta. Lá se danou o chinês, que não tinha assim tantos cavalos que fizesse pouca diferença um a mais ou a menos. Para além das rituais pragas, jurou abatê-lo sem dó nem piedade, mal fosse encontrado. Tipo vingança do chinês. Enquanto era procurado e não era, o animal regressou por iniciativa própria aos estábulos, na companhia de umas boas duas dezenas de outros cavalos, certamente fugidos ou selvagens. Um belíssimo piparote nos números, para o chinês, vendo de repente a sua manada ser engrossada com belos exemplares. E lá se foram as pragas e as juras, voltando o bicho a ser alvo dos maiores mimos por parte do chinês. Fim da estória. Agora a moral. Não me lembro, sinceramente. Isto é embaraçoso… Mas qualquer coisinha se há-de arranjar. Ora bem, vamos lá a ver, isto deve ter qualquer coisa a ver com os altos e baixos da nossa vida, com a imprevisibilidade das consequências que se seguem aos acontecimentos que marcam o nosso dia-a-dia. O que pode ser mau num dia, no dia a seguir pode vir a ser fantástico. E vice-versa. A vida é mesmo feita de incertezas e o que há mais no mundo são cambalhotas. Dadas, e por dar. Se depois de uma cambalhota nos podemos erguer triunfantes para receber os aplausos olímpicos, com a mesma simplicidade podemos ficar estendidos no solo com a coluna estilhaçada e o futuro remetido para o assento de uma cadeirinha de rodas. E vale a pena dar a cambalhota? Claro que vale! Estatisticamente, o mais provável é mesmo fazermos má figura e mais nada. pickwick
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publicado por riverfl0w às 01:31
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The tobacco shop
Esta mania de dar títulos em inglês há-de acabar. Agora está na moda e por isso tenho de me sujeitar aos caprichos da minha imaginação, qual escravo. Bem, vamos à loja de tabaco. Antes, uma introdução. Há momentos da nossa vida em que, forçados ou por desejo, somos levados até uma situação em que temos de fazer opções de peso. A tomada de decisões sobre algo tão vago como um futuro cheio de nevoeiro, reserva-nos sentimentos de aflição e desassossego. Não nos conseguimos livrar das dúvidas, das incertezas e do receio de errarmos. Há que vencer também umas quantas barreiras, muitas delas impostas pela sociedade ou pelo contexto social em que vivemos mergulhados, fazendo disto tudo uma grande açorda. Ocorrem-me duas estórias que o meu pai me contou numa altura dessas na minha vida. A primeira, era sobre uma loja de tabaco. Era uma vez (tinha que começar assim, ok?) um sacristão, já de certa idade, que sempre fora sacristão. Face a uma lei lançada pelo Vaticano, que obrigava a que todo o sacristão soubesse ler e escrever, este nosso personagem, analfabeto, viu-se obrigado a optar. Ou aprendia a ler e escrever, ou abandonava a arte. Pesou as duas opções, bem pesadas. Se por um lado não estava muito voltado para ir para uma escola, por outro não sabia fazer mais nada na vida. Como na “moeda ao ar”, ficou-se pela segunda opção, abandonando definitivamente a arte, e planeando viver o resto dos dias com as economias que tinha feito ao longo dos anos. Certo dia, passeando por uma certa avenida, acabou-se-lhe o tabaco. O homem tinha o vício no corpo, claro. Mas a avenida não estava pelos ajustes e não havia sombra de tabacaria de uma ponta à outra. Tal falta trouxe-lhe à lembrança que quem ali montasse um quiosque para vender tabaco, decerto faria uns bons trocos. Pensado e feito! O nosso sacristão em breve transformou grande parte das suas economias num muito rentável quiosque de tabaco. Com o passar dos meses e o avolumar dos trocos, o novo empresário não esteve para se ficar por aí e montou mais um quiosque… e outro… e outro… nas várias ruas e avenidas onde ainda não existia um e o negócio se avistava rentável. Quando os trocos já davam lugar a contas rechonchudas, este senhor resolveu que era altura de voar mais alto e investir. Foi ao seu banco e pediu para ser recebido pelo gerente que, satisfeito, o atendeu na privacidade do seu gabinete, ou não fosse um dos melhores clientes. Explicado o motivo da visita, o gerente coloca nas mãos do ex-sacristão meia dúzia de papéis sobre investimentos, acções e planos de rentabilidade. De olhos em bico, o pobre homem faz um esforço para ultrapassar a vergonha e confessa que não sabe ler. O gerente achou piada ao facto e, após uma sonora gargalhada, perguntou-lhe: “bem, se não sabe ler e chegou onde chegou, então se soubesse ler, o que seria de si hoje?” A resposta pronta e humilde termina esta estória: “seria sacristão”. É fácil sacar daqui uma moral para a estória, mas isto não passa disso mesmo: uma estória. Na maior parte das vezes não sabemos se fizemos a melhor opção, até que se passem vários anos, ou décadas, ou até nunca. Mas a vida é feita de opções. Tomar uma opção de vida é como fazemos quando não nos sentimos confortáveis numa cadeira. Podemos mudar de cadeira, meter uma almofada, ajeitar o traseiro balofo, levantar e ir dar uma volta, saltar para o sofá, ficar de pé para o resto da vida, mudar de calças, enfim, tudo são opções para resolver o incómodo. Como sabemos a melhor? Só depois de experimentarmos. E mesmo assim, nada é certo. O certo é que precisávamos de fazer qualquer coisa. E fizemos. pickwick
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Quinta-feira, 2 de Setembro de 2004
Aqui, eu e elas
Silêncio.
Ecrã branco, cheio de nada.
Cessaram já os flashes e as palavras trocadas aqui e ali.
Agora, tudo está calmo. Apenas o discreto som das teclas se faz notar.
Só eu e elas, numa ligação que se revela infinitamente cúmplice.
Desejos, segredos, provocações, intimidades, saudades, ou o simples basbaquear do dia-a-dia, revelado pelo ritmado crepitar das teclas.
Os pássaros desistiram já de chilrear, a suave respiração dos outros já não é perceptível. Os carros já não passam lá fora, a televisão já não fala do mundo.
Esta noite, apenas eu e elas permanecemos aqui.
Um cão late, tímido.
E novamente o silêncio, abrasador. riverfl0w
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publicado por riverfl0w às 04:36
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The orbit tour
Soube agora de uma coisa fantástica. Aquela empresa que organiza viagens às nuvens, afinal também faz programas mais para longe. E como é que eu soube disso? Foi por acaso. Conheci um par de pombinhos completamente loucos um pelo outro que foram numa dessas viagens: o Johnny e a Ana Filipa. Aquilo parece que foi o máximo. Não entraram assim em muitos pormenores, o que, aliás, é compreensível… devem ter sido assim uns momentos íntimos e tal e não iam estar ali a contar isso tudo, não é? Mas deu para ter uma ideia, avaliando apenas o estado de euforia e a cumplicidade transbordante dos dois, assim como que no limiar da loucura. Quanto à viagem em si, o trenó voador fazia escala nas nuvens, que já é um programa de sucesso. Depois do almoço em mais um daqueles restaurantes com uma paisagem invulgarmente bonita, seguem-se uns momentos de maior estresse, para disparar por aí acima até entrar em órbita. Não deve ser fácil, digo eu. O coração deve acelerar muito mais que o normal, com uns soluços pelo meio, e nem os mais serenos conseguem evitar uns pingos bem grandes de emoção. Aposto como há sempre quem duvide que o trenó chegue ao destino, vá dar meia volta e regressar, por causa dos ventos ou de sei lá mais o quê. Entrados em órbita, bom, a malta bem que vê umas imagens na TV, dos astronautas lá em cima a observar cá em baixo a nossa terrinha, mas pelo que este par de pombinhos deu a entender, isso é apenas uma migalha do bolo. Fica-se sem saber o que é que havia a mais lá em cima, para além dessa migalha. Há sempre a possibilidade de ter sido tudo efeito do fogo da paixão deles, catalizado pela calma e pela paisagem fantástica que se tem lá de cima. É compreensível, não é? Como diria o poeta, “o amor é lindo”… Eu, se estivesse no lugar deles, ao lado da pessoa com quem mais queria estar, bem, acho que entrava rapidamente num estado de delírio cor-de-rosa. Ou outra cor qualquer. O problema, segundo eles, é que este programa dura pouco tempo. Não percebo, pois em órbita nem se deve consumir combustível, e tanto fazia estarem por lá duas horas como dois dias. Mas, enfim, estas empresas existem é para fazer dinheiro e pronto. Tenho é de investigar se este programa também mete sereias, como o outro. Se meter, bom, já sei que, quase de certeza, vão-me arranjar outra sereia, sem rabo de peixe, igualzinha à pessoa com quem eu mais desejava entrar em órbita. Afinal, eles são profissionais! Mas, se eles quisessem mesmo esmerar-se, mesmo, mesmo, mesmo, arranjavam maneira de eu ir neste programinha com essa pessoa, em carne e osso. Nem sereia, nem meia sereia. É que, verdade seja dita, não há sereia que lhe chegue aos calcanhares. Por mais tecnologia que se use, por mais truques que se façam, nada neste mundo substitui o seu sorriso, o seu rosto, o seu olhar e a sua presença. Nada! pickwick
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publicado por riverfl0w às 00:33
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Quarta-feira, 1 de Setembro de 2004
Inconsciências 2
Ainda nesse mesmo ano… Desviei lá de casa uma caixa de munições de 9mm e levei para a escola. Munições são tipo balas e coisas assim. Os 9mm são a espessura do cartucho. É muita espessura. Só os militares podem usar munições destas, tal é o balázio. Há quem lhe chame “munição de guerra”. Ainda por cima, a caixa tinha 50 munições. A malta delirou com a coisa. Fomos para uma mata e acendemos uma fogueira. Naquele tempo ainda se podiam acender fogueiras. Ora bem, e que faz um bando de putos de onze anos, à beira de uma fogueira, com uma caixa com 50 munições de guerra? Atira-as para a fogueira, claro está! Isto também não se faz, obviamente. É que aquilo rebenta! Passámos uma tarde inteira naquilo. Das 50 munições, algumas ficaram nos bolsos como recordação, mas a maior parte foi mesmo para a fogueira. Deduzo que não tenha aparecido ninguém por causa dos estoiros, porque afinal de contas tínhamos escolhido uma mata dentro de uma área militar, onde era suposto ouvirem-se tiros. Aquilo, devo dizer, foi bastante divertido. Uma a uma, sem qualquer ritmo, as munições iam explodindo e as balas saíam disparadas para o meio das árvores, fazendo aqueles ruídos dos filmes de cowboys, resvalando nos troncos. Nós, agachados atrás de uns montes de terra, delirávamos completamente. No fim, sobrou uma munição. E a fogueira. Foi aqui que começou o verdadeiro disparate. Fizemos uma rodinha à volta da fogueira, atirámos a munição lá para dentro e ficámos à espera. Como a munição ficou tombada para um lado, metemo-nos “cautelosamente” todos do lado oposto, para não sermos atingidos. Grandes mongos! Sem um cano para direccionar o disparo, aquilo sai em qualquer direcção, aleatoriamente, só que a malta jovem não fazia a mínima ideia. Passados uns minutos, o estoiro! Atrás de nós, o “pfiiuuu” da bala a passar nas árvores. Ficámos colados ao chão… aquilo não devia ter saído na direcção oposta? Entretanto, alguém se queixa. Era o “cabeçudo” (alcunha carinhosa), com um dedo a sangrar. Outro queixou-se de qualquer coisa numa perna, mas como não tinha nada que se visse, não ligámos, e toca tudo a correr para o posto médico mais próximo. Brincadeiras de putos, é o que é… inconscientes… completamente… Poucas semanas antes, ou depois, não me recordo ao certo, nessa mesma mata, encontrámos um ninho de vespas. Era uma quarta-feira à tarde. Que é que um bando de putos de onze anos faz com um ninho de vespas? Chega-lhe o fogo, claro está! Resultado: uma visitinha ao posto médico com a cara inchada de tantas picadas e um carro dos bombeiros para apagar o incêndio. Se o meu paizinho soubesse… fazia-me a folha, fazia… pickwick
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publicado por riverfl0w às 08:08
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