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Quarta-feira, 15 de Setembro de 2004
Irritações da pele
O intrincado emaranhado de neurónios dentro da caixa craniana e logo abaixo do farto (ou parco) couro cabeludo, existe para que possamos, entre outras coisas, ficarmos irritados. Não é uma necessidade, digamos. Se for para alguns, para outros não tanto. Talvez um escape para qualquer coisa que desconhecemos. Uma forma idiota de suprimir do nosso ser acumulações gordurosas de energia inútil, produto de carregamentos vitamínicos inconscientes. Por mais elegante que seja uma irritação, nunca deixará de ser idiota. Não é que haja muitas irritações elegantes, mas é só para dar mais dramatismo ao discurso. A idiotice multiplica-se exponencialmente quando a irritação sobra para cima de quem menos merece essas injustas sobras. Isto é quase uma regra da vida, não fosse andarem na estrada alguns exemplares raros que absorvem esporadicamente as nossas energias negativas através dos ouvidos e dos olhos. Mas, fora essas excepções, confirma-se a regra. Lamentavelmente, eu sei. Mas costuma ser mais forte que nós. Costuma fugir à nossa capacidade de raciocinar, de controlar, de conter. Às vezes, mais vezes do que gostaríamos, movem-nos motivos que só mais tarde nos apercebemos não valerem – nem de perto, nem de longe – a irritação a que nos sujeitamos e com a qual apedrejamos quem menos queremos apedrejar. Chegamos a rogar pragas e a tratar pouco delicadamente alguém para quem afinal sonhamos felicidade e queremos trazer nas palmas das mãos. Há irritações que não fazem sequer sentido, mas que acontecem. Alguém que nos traz um doce e nos irritamos porque estamos de dieta. Alguém que nos arruma a sala e nos irritamos porque queríamos ser nós a arrumar. Alguém que nos tece um elogio e nos irritamos pela teima de que não o merecemos. Alguém que gosta de nós e nos irritamos porque achamos que não tem razões para gostar. Enfim… Somos como a pele, que se irrita por qualquer coisinha… pickwick
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publicado por riverfl0w às 19:40
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Terça-feira, 14 de Setembro de 2004
Vou-me embora…
No Alentejo profundo, a vários metros abaixo da linha da civilização, ouve-se um canto de lamento e de esperança.
“Vou-me embora, vou partir mas tenho esperança
de correr o mundo inteiro, quero ir
quero ver e conhecer rosa branca
e a vida do marinheiro sem dormir
E a vida do marinheiro branca flor
que anda lutando no mar com talento
adeus adeus minha mãe, meu amor
eu hei-de ir hei-de voltar com o tempo

Não vais para o mar, se calhar até nem curtes rosas brancas, nem flores brancas, nem flores, nem marinheiros. Não é preciso. Isto é só uma canção. Também não é preciso passar sem dormir. Quer-se dizer, vais fazer umas noitadas a queimar pestanas em cima dos livros e apontamentos, ou a olhar com um ar lunático para os copos vazios numa qualquer mesa de um qualquer bar nessa cidade quase à beira do mar. E, quer queiras, quer não, vais correr o mundo inteiro. Quando se sai de casa, corre-se sempre o mundo inteiro. É sempre assim. O mundo cabe sempre na palma da nossa mão. Partir requer sempre coragem. Mais daqui ou menos dali, dependendo do nosso passado. Não é caso para desesperar. É motivo para sorrir! É uma nova vida que abraçamos, bem diferente da que conhecemos até agora. Fechamos ligeiramente a torneira às amizades que fizemos, por não estarmos tão presentes, e abrimos as portas às novas que aí vêm, de braços abertos. Porque o mundo é assim, como uma bicicleta. Vais gostar da cidade, garanto-te. A viagem até ao teu lar-doce-lar de regresso até nem custa assim tanto. Tem só aquele pequenino gosto a ansiedade na ida e uma leve nostalgia no regresso. Não custa nada. No banco do comboio, aproveitas e lês um livro, escreves umas linhas sentidas ao teu amor, olhas pela janela e vês tudo a passar a correr, incluindo a tua vida. Em cada estação pensas para contigo mesmo que podia ser já ali. Quando o trabalho aperta e sexta-feira não embarcas rumo ao sul, não há que desesperar. É um fim-de-semana com sabor diferente. Vive-se de modo diferente. A saudade teima em pressionar-te para que sintas aquele apertozinho no coração que nos faz suspirar vezes sem conta. Mas, os novos amigos, todos com o mesmo sentir, mostrar-te-ão que nada custa mais do que não ter amigos. pickwick
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publicado por riverfl0w às 21:08
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Segunda-feira, 13 de Setembro de 2004
Silence never wins
Caro riverfl0w, este era o que trazias no “msn” outro dia, no teu contacto. Perguntei-te e disseste que era um “self made” não-sei-quê. Ou seja, fiquei na mesma. Embora discorde. Discordo, do sentido. O silêncio tem momentos. Ora ganha, ora perde. Confesso que, no meu estádio, o silêncio é um ganhador. Pontua, vezes sem fim, vitorioso, orgulhoso, quase que babado. É como que a arma quase perfeita. Ora nos defende de um qualquer mau jeito da língua, privando-nos de mal entendidos, barbaridades sonoras, papaias despropositadas, descobertas infelizes, erros técnicos, gafes monumentais e outras desgraças ejectadas por entre os beiços. Ora o esgrimimos num ataque incisivo, num impacto vigoroso embora discreto, apanhando a vítima desprevenida e insegura. O silêncio é um bom amigo. Mas nem sempre os amigos são a nossa melhor companhia. Vezes há, não tão poucas quanto gostaria a minha memória, em que o silêncio nos deixa mal. Fica o não dito por dizer, a mensagem por passar, o sentimento por contar, a alma por abrir a quem a quero mostrar e me a quer ver. O silêncio, que nada devia gastar, torna-se num desperdício. São oportunidades que ficam para trás, sim. “Perdeste uma boa oportunidade para ficar calado”, célebre frase com que se injecta um autor infeliz, confronta-se com o menos maldoso “perdeste uma boa oportunidade para abrir a boca”. E agora? Falo ou fico calado? Digo que tens um macaco a sair pelo nariz ou faço de conta que tens as narinas tão limpinhas como o rabinho de um bebé acabado de lavar? Digo o que sinto por ti ou deixo-te ir embora enfiada num poço de frustração por o teu sentimento não ser correspondido? Digo o que sinto por ti ou deixo-te ir embora sem carregares a desilusão de afinal a tua amizade ser mal interpretada e retribuída com algo que te desagrada? Que fazer? Ai, silêncio, silêncio… pickwick
publicado por riverfl0w às 22:37
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Sexta-feira, 10 de Setembro de 2004
(In)cerrado

Caros leitores, comentadores e voyeurs do Arautos do Estendal:

Serve o presente ofício para comunicar que os autores deste blog partirão em viagem até ao Bahrein, onde vão participar na conferência pan-internacional sobre “Os efeitos do aquecimento global nos nematelmintes semi-tropicais”. O motivo desta jornada prende-se com o facto de os referidos autores terem sido convidados para a apresentar a sua teoria: “Os sapos também comem nozes”. Podem, portanto, deixar mensagem no voicemail, ou simplesmente… esperar.

Saudações cordiais,
pickwick & riverfl0w

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publicado por riverfl0w às 14:57
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Quinta-feira, 9 de Setembro de 2004
No fio da navalha
Imagine-se! Uma navalha! Era só o que faltava na praça. Aberta, ainda por cima! É um perigo! Há navalhas que não cortam. Cheias de bocas, gastas pelo mau uso, abandonadas pela incúria de quem não lhes passa o fuzil de tempos a tempos. Outras cortam, medianamente. Algumas demais. A navalha tem um fio. O fio, diz-se, é que corta. Olha-se ao comprido, como quem observa uma obra de arte, como quem segue para o infinito uma linha que acaba já ali. É o fio. Estar no fio da navalha, não é nada agradável. Sentado, de pé, de cabeça, a fazer o pino, tanto faz. O efeito é o mesmo. Mais ou menos afiado, o fio da navalha vai fazendo aquilo para que foi feito: cortar. O tempo passa, mais ou menos depressa, conforme o fio. E, quando o tempo passa, a carne ressente-se, o fio enterra-se-lhe, cortando-a, pouco a pouco, dolorosamente. Eventualmente chegará ao osso e estagnará, numa dor constante, onde não se vislumbra o fim nem se recorda bem o princípio. Com esforço, retesam-se os músculos, o fio penetra mais lentamente, eventualmente a dor poderá ser menor, disfarçada pelo desgaste das forças. Tudo se torna intemporal, perdendo-se a noção que a dor não precisa de ser dor, que não precisamos de estar no fio da navalha. Sim, não é mesmo preciso. Às vezes esquecemo-nos disso. Já que lá estamos, deixemo-nos ficar. Até nos prometemos a nós mesmos que há-de acabar. A navalha há-de cansar-se. Ou saltaremos fora. Podemos planear, jurar, prometer, rezar, desejar, mas há algo de atractivo no fio da navalha, como que um íman, que nos deixa ali, especados, a vermo-nos a ser cortados. A sofrer. Para sempre. Mas… Saltar fora? Não se salta fora do fio da navalha. Ou melhor, salta, mas não é com quatro cantigas. É preciso mais. Muito mais. É preciso não escorregar no salto e cair novamente em cima do fio, com mais força, com mais violência, penetrando ainda mais. É preciso não descuidar o salto, não vá a manobra menos cuidada fazer-nos passar o pescoço pelo fio, apanhando de surpresa o sorriso de satisfação de quem já se julga a salvo, de pés firmes no chão. É preciso cair bem, pois a navalha pode estar lá no alto, muito no alto, e a queda ser grande, muito grande. Mesmo que a navalha não esteja lá no alto, sendo a queda de baixa altura, todo o cuidado é pouco. A confiança nunca é de menos. O seguro é o nosso melhor amigo. Há um tornozelo para torcer, um desequilíbrio para acontecer, um nariz para esmurrar, um braço para deslocar e muitos imprevistos sem prever. É um mar de incertezas com uma ilha no meio. Nesta ilha, a única certeza: continuando no fio da navalha, o fio continua a cortar, lenta e friamente. Mesmo que a queda seja boa, o jeito seja muito, a perícia afinada, há o onde aterrar. Firme. Um tapete que escorrega, uma areia que desliza, uma gordura que patina, tudo pode estar contra nós nesta fuga ao fio. Uma fuga pelo conforto, pelo alívio, pela felicidade. E ele, o fio, continua lá. O aço gelado, como que a rir-se de nós. Pergunto eu: um joelho esmurrado, um nariz partido, um tornozelo torcido, um golpe num braço, valem a pena? Uma perna partida, uma vértebra facturada, valem a pena? Um golpe profundo no pescoço, vale a pena? Voltar a cair sobre o fio, com mais força ainda, vale a pena? E se nos safarmos só uma arranhadela? Ficaremos alguma vez a rir-nos do fio da navalha, num longo suspiro de alívio? pickwick
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publicado por riverfl0w às 00:09
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Quarta-feira, 8 de Setembro de 2004
Passado ao futuro presente


Estar num passado distante
A beijar alguém momentaneamente,
Sem que o tempo passe de rompante
Mesmo ali à nossa frente.

Aproveitando cada ocasião
Criada pela liberdade,
Preso à tua mão
Destino de verdade.

R
egressando a tudo o que não passámos
Sem nunca perder a esperança de o vivermos agora,
Longe do tempo que sentimos
Agarrados à memória
De estarmos esquecidos de nos lembrar
Tantas coisas inexistentes,
Que sentimos nas palmas a abraçar
Os corpos suados e quentes.

E voltar de onde tivemos origem
Como postal devolvido ao remetente,
Suspirando dos sentimentos que existem
Numa veracidade em que acreditámos veemente.

Q
ue depressa aos poucos e poucos
Se tornaram enfadonhos,
E acordamos, desesperados… loucos
Por tais enganosos e tristes… sonhos…

Defacto
8 de Setembro de 2004, em Voos da Alma
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publicado por riverfl0w às 11:46
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Inconsciências 5
Ok, agora já não é nos onze. Passemos aos treze. Para além de ter sido o ano em que ganhei a alcunha com que assino estes posts, foi também o ano em que dei comigo sentado na paragem do comboio da estação de Belém, lá para as 3h da madrugada. O dia tinha sido comprido. Pela hora do almoço lembro-me de andar mato fora cheio de boas intenções de chegar à nascente do rio Almonda, com uma mochila a tiracolo, ali para os lados de Torres Novas. Mais comboio, menos pé, e vice-versa, e aí estava eu na paragem do comboio. Fazia algum frio, na altura. Devia ser início de primavera. Ia vestido com roupa de ir à missa, imprópria para andar por ali àquelas horas. Já tinha tentado adormecer debaixo de arbustos em jardins públicos em Santos, mesmo em cima da terra húmida, mas não resultara muito bem. Queria apanhar o comboio para o Estoril, onde morava a Rita (sim, a mesma da alcunha), mas descobri que os comboios não funcionavam numa determinada faixa da madrugada. O próximo, só lá para as 5h ou 6h. Resignado, sentei-me no banco da estação, à espera. Eu devia pensar que era normal um puto de treze anos, vestido como se fosse para a missa, estar ali plantado naquele sítio, àquela hora. Pensava mesmo! Nisto, entre um pestanejar pesado e um desequilíbrio momentâneo, passa um “Citroen Diana” castanho. Nada de mais. Menos de um minuto depois, passa outro igualzinho no sentido contrário. Quase que parecia que era o primeiro, depois de dar meia volta, mas vindo mais lentamente. Mais meio minuto e… era o mesmo, mais lentamente… E novamente… até que parou. Mesmo atrás do banco onde eu estava. A janela abre-se e um tipo barbudo tipo Fidel pergunta-me para onde é que eu quero ir. Respondo educadamente que quero ir para o Estoril. E ele pergunta se eu quero boleia. E eu digo que sim, obrigado. Ok, isto nunca se faz, pois não? Nunca!!!... A minha mãezinha fartou-se de me avisar, para nunca apanhar boleia de estranhos. Só me lembrei disso depois do carro arrancar, comigo lá dentro. A conversa foi relativamente rápida. Ele pergunta se eu tenho namorada e eu respondo que sim (grande mentiroso). Ele pergunta a minha idade e eu respondo com mais um ano por cima, para não parecer muito mal. Ele pergunta se eu quero uns beijinhos e uns abraços e eu respondo-lhe que não, obrigado. Beijinhos e abraços? Ai ai ai, pensei eu. Temos festa, temos, temos… O barbudo lá deve ter topado que eu, apesar das respostas prontas, tinha feito clique cá dentro. E atalha logo com um discurso muito calmante, que eu não tivesse medo, que ele não era daqueles que fazia mal às crianças, e bla bla bla. E eu respondo logo que não, nada disso, não me passou nada disso pela cabeça e bla bla bla. Silêncio. Assim como quem se lembra que se esqueceu do totoloto, informo-o que afinal tenho família em Algés, ali mesmo ao lado, e pode deixar-me lá. Ele diz que não tenha pressa, vamos só dar uma voltinha até à Torre de Belém. À Torre de Belém? Ai ai ai… Isto já cheira a sopa estragada. Silêncio, até chegarmos ao parque de estacionamento em frente à torre. Outros carros, todos com ar extremamente suspeito, estavam já lá estacionados. Alguns com pessoas muito suspeitas lá dentro. O silêncio continua. Era óbvia a embrulhada em que estava metido. E das grandes. Havia que engendrar um plano rápido para me meter ao fresco. Faço um ar de fascínio pelo rio Tejo iluminado pelo luar. Pergunto-lhe se posso ir ver mais de perto. Ele pergunta se eu estou com medo de alguma coisa, que ele não é dos que fazem mal às crianças. Eu respondo que não, é mesmo só para ver o rio, que está tão bonito. Ele aceita. Uma mão no fecho da porta e outra na mochila, e lá vou eu até ao muro, dois metros à frente. Ele continua dentro do carro. O gajo se fosse esperto, tinha-me espetado um sopapo logo lá dentro. Mas não. Sorte a minha, está visto. Assim como quem continua fascinado pela paisagem, baloiço o corpo para um lado e para o outro, enquanto seguro com mais firmeza a alça da mochila. Respiro fundo e, num ápice, desapareço numa correria frenética. Em poucos metros desço uma escadaria que dá até quase ao leito do rio e dou de caras com um fulano, todo vestido de preto, que se assusta comigo e se cola à parede. O coração quase que pára, chiça! Mas que mau ambiente por ali. A pausa foi mesmo só de umas fracções de segundo. Embalo novamente e aí vai disto. Não era qualquer adulto que me conseguia deitar a mão naquele tempo. E, borradinho de medo como ia, tinha que ser um bom atleta. Só parei na linha do comboio, já em Algés. Estavam várias carruagens paradas e atirei-me para dentro de uma delas, sonhando com o sossego de um esconderijo. O sonho durou uns 4 segundos, só até ouvir uma porta a bater. Salto da carruagem para o meio da linha, a pele arrepiada até mais não, e lanço-me para o lado de lá, atravessando a marginal e calcando o primeiro passeio da terra. Ando mais uns 10 metros e vejo ao longe dois polícias. Era só o que me faltava! Eles topam-me, mas eu, cheio de esperteza, finjo que saio calmamente de trás de um carro, sacudindo as calças e apertando os atacadores. Afinal de contas, que coisa tão banal, um puto de treze anos, vestido para a missa, mochila a tiracolo, àquela hora, naquele lugar. Assim como quem vai à horta, dirijo-me para fora de vista dos polícias, topando pelo canto do olho que nenhum deles se lançou a correr atrás de mim. Assim que dobro uma esquina, zás!, nova corrida frenética, com aquela sensação de já ter ganho a maratona e ludibriado a força policial inteira lá da terra. Assim que dobro a próxima esquina, dou de caras com outro polícia, calmíssimo, como se estivesse ali mesmo à minha espera. Então que andas aqui a fazer, pergunta ele. Ando a passear, respondo eu. Resposta inteligente, não é? A cabeça desdobra-se em mais planos para dar o fora daquela cena, olho para trás e aproxima-se mais um polícia. Que é como quem diz, acabou-se! Despeja lá o que tens na mochila, ordena-me o polícia. Obedeço. Caem na calçada alguns objectos. A faca e os fósforos dão um bocado nas vistas. Vá, anda connosco, vamos ali à esquadra, diz-me ele. Um puto não tem bem consciência do que faz, nem em que se mete, pois não? pickwick
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publicado por riverfl0w às 00:06
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Terça-feira, 7 de Setembro de 2004
Esta noite fui assediado pela Bárbara Guimarães

Hoje dei por mim a aconselhar um amigo meu. O tema era, (inevitavelmente, como diria o pickwick), gajas. E a verdade é que fiquei surpreendido com o que ia dizendo:
Ora, há a fase dos interesses comuns, em que as conversas giram em torno disso, ao mesmo tempo que se vão alargando os horizontes - introduzi eu, com aquele ar de sábio social tresloucado. Depois, chega a parte do cafezito, que complementa a fase anterior. Quem diz café, diz ópera, diz Scooby Doo ou mesmo um serão a observar o comportamento dos gansos patola no seu habitat natural. Aí, consoante fores vendo o teu espaço de manobra, atacas. Falas primeiro sobre o assunto, indirecta ou directamente, ou simplesmente atacas. Como achares melhor - rematei.
"Grande táctica, vais abrir uma agência de casamentos?" - perguntou, naif.
Não, isto é flirt, puro divertimento social. Toda a gente sabe os passos, mas a piada é jogar o jogo da sedução. Tal como na esgrima... tens de avançar e recuar, estudando os movimentos do teu adversário - qual comentador da RTP a comentar uma partida olímpica de florete. Depois há estratégias, claro. Basta seres tu próprio, e usares uma boa dose de boa disposição e romantismo. Talvez ajude um pouco de estilo self made cliché, "Até um esquilo conseguiria perceber como és bonita... e os esquilos vêem mal ao perto!" ou até, numa fase mais avançada...

Aviso: Todos os menores de 18 anos devem carregar neste preciso momento na combinação de teclas Alt+F4. Obrigado.

"Arrefinfava-te até teres o útero encostado à garganta." (para os menos esclarecidos, é obvio que nunca usaria esta frase, a menos que tentasse engatar uma ninfomaníaca. Pouco provável.)

E é nestas alturas que vida nos passa à frente... os namoricos da primária, de mãos dadas, inocentes; o primeiro beijo, a medo, atrapalhado, numa garagem, ao som de Savage Garden; a primeira paixão, por uma rapariga mais velha, onde sempre ia arrancando uns beijos, fugazes, mas bem saborosos; a irreverência do ciclo e a indecisão própria da idade; os primeiros namoros a sério, ainda que curtos; a alemã de Taizé, entre tantos outros flirts de ocasião, que gostou tanto ou tão pouco de mim que me deu morada e número de telefone errados; os flirts de férias, em que era urgente aproveitar o tempo; outro namoro, data de outras tantas aventuras, muito bons momentos a dois; e finalmente uma história acabada, ou talvez por acabar.... porque mesmo quando estamos parados, o Mundo continua a girar. (Que lindo!)
E sabe tão bem, o gosto de um beijo. riverfl0w

PS: O título serviu apenas para que lessem o post até ao fim. Espero que não se zanguem.

publicado por riverfl0w às 03:00
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Mr. Pickwick
Charles Dickens dispensa apresentações. É um famosíssimo escritor do século XIX. A sua primeira obra, publicada por partes, entre 1836 e 1837, chamava-se “The Posthumous Papers of the Pickwick Club”, ou, mais simplificadamente, “The Pickwick Papers”. Tinha o homem vinte e cinco anos. A obra versava sobre as aventuras e actividades do ingénuo Samuel Pickwick e dos seus amigos no “Pickwick Club”. Mr Pickwick era o fundador e presidente do clube, um antigo comerciante e cientista amador convicto. Os inseparáveis amigos incluíam Sam Weller, seu companheiro de maior confiança, o desportista Winkle, o poeta Snodgrass e o mulherengo Tracy Tupman. Foi a rampa de lançamento do sucesso de Dickens. Mais de século e meio depois, existem bares e pubs espalhados pelo mundo que recorreram a esta obra e a este personagem para darem o nome a si próprios. “Pickwick Pub”, “Pickwick Bar”, “Pickwick Cafe”, “Pickwick Restaurant”, “Pickwick Saloon”, “Pickwick Bowling” e até um verdadeiro “Pickwick Club”. No Estoril, em tempos, ali numa rua a modos que nas traseiras dos bombeiros, havia um “Pickwick Pub”. Lembro-me de passar por lá e ver a placa, muito “british”, muito século XIX. Andava eu no 8º ano. E enfim, agora que se esgotou o passeio pela cultura e pela rede de restauração e consumo de bebidas alcoólicas, acho que está na hora de revelar a verdadeira e humilhante origem deste pseudónimo com que assino as barbaridades que por aqui se escrevem. A culpa é de uma miúda. Só podia ser. Chamava-se Rita e fiquei perdido de amores por ela mal entrou para a minha escola e a topei. Estava numa turma um ano atrás de mim, mas era da minha altura. Reconheço que não era assim muito bem feita, mas o amor tem destas coisas misteriosas. Foi paixão para durar um ano inteiro. Mais precisamente até às férias do verão. Corria o boato na escola que namorávamos, mas não passava mesmo de um boato. Faltava só mesmo eu declarar-me e espetar-lhe um beijo naqueles lábios muito carnudos. Ora, como eu não era capaz de me decidir qual das duas tarefas era a mais difícil, andei a engonhar o tempo todo, até ao verão. Até ela achar que eu não gostava de gajas, talvez, ou dela, e se fartar de esperar. Ou seja, grande tanso! Enfim, seja como for que foi, esta miúda marcou de alguma forma a minha adolescência inicial. Era uma miúda porreira, muito simpática, muito querida, muito atenciosa. Não é que falássemos muito, que vivêssemos juntos aventuras, mas quem sabe o que é o amor platónico correspondido, sabe do que falo. Aqui há cerca de uns 4 anos cruzei-me com ela num centro comercial em Oeiras. Era ela de certeza. Reconheceu-me ao longe. Já tinham passado quase duas décadas, mas o olhar foi exactamente o mesmo que nos corredores da escola, as sobrancelhas carregadas, olhar penetrante. Por momentos senti-me tentado a ir ter com ela, mas o namorado ou marido estava junto e podia não achar muita piada. Além do mais, eu estava trajado com o mais reles fato de treino que se possa imaginar, ténis rotos, sujo de andar a mexer em teias de aranha, folhas de bananeira e caixotes cheios de pó. Foi bom vê-la. Não matou a saudade, porque não havia, mas satisfez alguma curiosidade adormecida. Chamava-se Rita e era uma miúda porreira. Se calhar já disse isto. Bom, a Rita, que era uma miúda fixe de quem eu gostava muito, desde o início do ano que me chamava Pickwick. A moda pegou e muita malta não sabia o meu nome. Apenas me tratavam por Pickwick. Até era giro. As amigas dela, então, achavam uma graça imensa. Ficava bem, achava eu. A alcunha ainda a usei durante muitos anos, até mesmo depois de já poder votar. A primeira vez que passei pelo tal bar, fiquei a saber de onde vinha o nome Pickwick. Não percebi muito bem porquê, o que é que eu tinha a ver, mas o amor tem destas coisas. Pensava eu. Ingénuo!!!... Bom, não sei se já disse, mas a miúda chamava-se Rita e eu gostava muito dela. Era muito simpática. Eu engraçava com ela. Certo dia, lá mais para o final do ano, trouxe para a escola uma fotografia do cão dela, para me mostrar. Era um “salsicha”, daqueles “rodinhas-baixas” mal jeitosos com pernas de rã e focinho de canudo com orelhas abelhudas ao pendurão. Fiz um sorriso condescendente, para ela ficar feliz, mas a verdade é que aquele tipo de cão não devia existir. Claro que não lhe disse isso, ou lá se ia o amor platónico pelos ares. Ela ficou satisfeita com o meu sorriso e virou a fotografia para que eu soubesse o nome daquele animal feioso que lhe nutria tanta ternura. Foi o choque do ano! Sim! Era este mesmo: pickwick.
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publicado por riverfl0w às 00:55
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Segunda-feira, 6 de Setembro de 2004
Inconsciências 4
Onze anos. Sim, outra vez. Não tenho culpa e não é de propósito. O tema de hoje é tabaco. Sim, esse vício horrendo. Foi o ano da primeira experiência. Tenho algumas dúvidas sobre qual foi a marca, mas terá sido algo entre o viril SG Ventil com sabor a sapato usado e o discreto Kentucky tido como o mais eficaz mata ratos da época. Aconteceu quando descobrimos que havia monte de gente a chuchar cigarros. Não é que ainda não soubéssemos, mas nesse ano “descobrimos” isso. E, tal como quem descobre um novo restaurante, há que ir lá meter o nariz. Ou, neste caso, os beiços. Ainda foi uma coisa polémica. Quem iria experimentar, quem iria comprar, que desculpa se daria para a compra, e onde iríamos acender aquilo para ver o efeito. Se alguns comparsas houve que se desmarcaram logo à partida, outros não se fizeram muito rogados. O grupinho de “corajosos” lá se definiu, alguém com um ar angélico foi ao café comprar um maço para o pai, e lá rumámos todos para um canavial ali mesmo à beira da 2ª Circular. Outro dia passei por lá a caminho do aeroporto e o canavial ainda sobrevive, um quarto de século depois, provavelmente à espera de mais experimentadores. A experiência em si não teve nada de especial. Ninguém explodiu, ninguém morreu, tudo numa boa, ai de quem se atrevesse a comentar o sabor fedorento que ficava na boca. A farra só começou quando, sugestionados por um outro amigo qualquer, entrámos na fase de travar o fumo. Entre os enjoos e os vómitos sucessivos, não consigo esquecer as cabeçadas que dei nas latrinas, de tantas tonturas que tinha que nem me conseguia equilibrar. Mas, a malta teimava sempre em repetir a dose. Sem explicação. A pirosice atingiu o seu auge quando começámos a andar com um maço num bolso e no outro uns óculos escuros espelhados ao pendurão. Foi, sem dúvidas, a época da minha vida em que consumi mais pasta de dentes. Para além das vezes sem conta em que usava a escova, recorríamos frequentemente aos nacos de pasta que eram atirados para dentro da boca com o auxílio da ponta do dedo, mascados de seguida como se fosse a mais bela e saborosa pastilha elástica. Tudo para disfarçar o hálito, claro. Em poucas semanas já fazíamos truques e malabarismos. Já só com uns meros 8mm de cigarro para consumir, entalávamo-lo entre a língua e o beiço inferior, fechando a boca com o cigarro lá dentro a arder. Voltávamos a abrir a boca e aí vinha ele, a largar fumo, pronto para levar mais uma passas. Muito “macho-man”, decididamente. E nem o isqueiro escapava. Como se não bastasse o já batido truque de deitar o gás para dentro de uma mão fechada para depois lhe chegar o fogo e a mão se abrir numa labareda fantástica, tivemos de treinar o mesmo com a boca, como no circo. Às custas disso, certa vez ainda queimei umas pestanas, ao soprar a língua de fogo contra uma parede. Foram muitos meses, nisto. Até ao dia em que o meu melhor amigo teve uma conversinha comigo. Ele fora dos que se metera de lado quando começámos com as experiências. O tema da conversinha era o efeito do tabaco nas prestações físicas. Não éramos putos bem informados, claro, mas contra factos não há argumentos. Até termos começado nisto, fazia parte de um grupinho de alunos bem acima da média em desporto. Éramos os melhores nesta ou naquela modalidade, detendo recordes aqui e além. Foi por aí que ele pegou, precisamente. Ainda não me tinha dado conta disso, mas o recorde de onze elevações na barra que eu dantes fazia sem me chatear muito, contrastava com as reles sete elevações que agora me borrava todo para conseguir fazer. Era um facto, e não valia a pena procurar outras explicações que não o tabaco. Estava mesmo ali, na cara. Foi remédio santo e acabou-se o vício de um momento para o outro. Este amigo morreu aos vinte e poucos anos, vítima de um problema no coração, mas a ele lhe agradeço a lição de vida. Obrigado, 476. pickwick
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publicado por riverfl0w às 10:55
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