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Sábado, 14 de Agosto de 2004
Levanta o pau
As feiras de artesanato são sempre muito interessantes de visitar. Esta semana fui a uma, ansioso que estava por regalar os olhos com tanta obra, tanto engenho, tanta lindeza. Entre os incontáveis stands, as incontáveis beldades que neles atendiam as visitas, desejo destacar um em especial, que me marcou profundamente. Julgo que era de Lamego, mas não tenho a certeza e também não interessa para o caso. Interessa, sim, o cartaz gigantesco que tinha afixado e que dizia assim: “Licor Levanta o Pau”. Para que não haja confusões sobre a que pau se referia o cartaz (comprovado posteriormente e mencionado ainda neste post), transcrevo para aqui alguns sinónimos encontrados no Dicionário de Expressões Populares Portuguesas (Publicações Dom Quixote): abono-de-família, aparelho, apenso, assobio, banana, bacamarte, barambaz, barrote, berimbau, bilhardo, bilau, berzengalho, bodelas, broca, cacete, canal, cano, careca, carocho, catano, catrino, chicote-de-barriga, chouriço, coiso, catatau, encomenda, falo, flauta-lisa, gaita, genitor, gregório, grosso, guelhamango, instrumento, mandrião, margalho, marsapo, martelinho, mascoto, medalhão, manafro, minhoca, morcela, marmelo, mentulo, mingorra, manzeque, marreta, mastro, mentinho, nabo, nervo, pantaleão, pau (aqui está ele), pechota, pelota, pica, *****, piegas, pila, pilica, pilinha, pincel, pindrica, piroca, pau-barbado, pau-de-leite, pendureza, pirolito, pissa, ponte, porra, puxador, penetrador, pífaro-leiteiro, priguelo, pau-venéreo, quilé, romão-cego, samatra, pau-veludo, priago, solino, surdo, tinebre, tinoco, tangalho, traste, tosa, trincalho, trama, trangolho, tranca, verga, vergalho, Zé, Zezinho, vergalhão, pau-a-pique, pirilau, pissalho. Há dúvidas? Continuando, ia eu mais o Heitor (nome de código) quando deparámos com o espectáculo do cartaz. O riso foi impossível de controlar. Nisto, a senhora do stand chama-nos: “Os meninos aí! Venham cá!”. Senhora não é o melhor termo para descrever aquilo. Era uma deusa, uma “arauta” da sensualidade. Complementou o chamamento com aquele gesto com o dedo de quem chama, num convite ao qual ninguém pode dizer que não. Aproximámo-nos. Que mulherão, meu Deus. “Vão provar aqui uma coisa.”, disse ela, enquanto nos enchia dois copinhos minúsculos com o tal licor. Tirei os olhos do corpo dela e olhei-a de frente, rindo-me: “Sabe, é que nós hoje vamos estar à noite com umas miúdas sérias e respeitáveis, veja lá o que é que deita aí.” Ela não deve ter percebido o que eu disse e respondeu: “Não se preocupe, isto dá à vontade para chegar até casa” e eu “mas olhe que as miúdas são muito respeitáveis…” Despejado o copo goela abaixo, fiz aquele ar de apreciador de bebidas espirituosas, estalando a língua no céu-da-boca, como fazem os “cobóis”, e passando a língua pelos lábios como que a lambuçar-me com algum restinho. Ia mesmo para dizer que aquilo sabia bem, quando ela interveio: “Isto o sabor não interessa, o que interessa mesmo é o efeito. Depois do jantar, bebe um copinho deste licor e vai ver como a noite lhe vai correr muito melhor.” Viemos embora sem comprar uma garrafinha, facto que deixou a mulher muito triste, ainda por cima depois de ter feito aquele ar de gata carente a ronronar “comprem lᔅ Confesso que andei durante algumas horas com um pouco de receio. Apesar de vestir calças de ganga, um gajo nunca sabe o que um licor pode provocar na nossa aparência física. É que as miúdas com quem íamos eram mesmo respeitáveis e sérias. Para quem não tem realmente problemas com embaraços, aconselho vivamente a comprar uma garrafinha. Até pode ser que faça mesmo o efeito desejado: levantar o quilé! Para os menos crentes, ou com maior auto-estima, presumo que baste somente uma miúda. pickwick
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publicado por riverfl0w às 08:17
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Sexta-feira, 13 de Agosto de 2004
Dilemas atrofiantes
Há dias em que nos confrontamos com daqueles dilemas, daquelas escolhas, daquelas opções, que mais valia não termos vindo ao mundo… Ontem aconteceu-me precisamente isso. Estou aqui que nem posso! Passo a explicar. De há umas semanas para cá que ando a combinar com uns amigos e umas amigas uma toinada (entenda-se “feira gastronómica reservada”) numa cidade da beira litoral, aproveitando o que a praia tem de melhor (neste caso não vamos longe com o tempo chuvoso e “esterquoso” que está). Compram-se os géneros para a “feira” num hiper qualquer da zona, montam-se umas tendas no parque de campismo, estende-se um toldo e uma manta, e está a coisa pronta a rolar. Uma arca congeladora portátil fará as delícias dos que amam a bela cervejola fresca. A ementa principal será o fabuloso frango do churrasco. Para afogar as mágoas e dar cabo da digestão, teremos um licor qualquer escolhido a dedo na hora. A boa disposição imperará pela noite fora. O evento social estava marcado para o dia X. Da minha parte, nada mais irradiava senão um sorriso de alegria pelo aproximar do dia X. Entretanto, eis senão quando, no dia X-1, recebo o e-mail a seguir transcrito, antecipado por uma SMS a avisar do seu envio. Dizia assim: “Olá!!!!! A Cristina está-me a pedir que amanhã tragas uma garrafa de vinho, uma pizza e apareças por cá, pela casa da Cláudia, para jantar. Se amanhã apareceres no msn dizes se podes ou não. Bjinhos, Cristina e Catarina. Ps:A conta pode vir num envelope...nós dp damos gorjeta....” Alguém me explique, por favor, como é que eu posso evitar entrar numa loucura frenética desatando às cabeçadas às paredes??? Estamos a falar de gajas solteironas, na casa dos 20-30, descomprometidas, simpáticas, folionas, de espírito aberto. Uma delas até é enfermeira, e bem se sabe como as enfermeiras têm aquela mente completamente perversa, certo? Um convite destes é o sonho de qualquer mortal do sexo masculino! Vinho? Pizza? Gorjeta? Hello???!!!... Mas não… porque sou estúpido, porque sou parvo, porque não regulo bem, porque vivo numa redoma de plástico barato, respondi ao irrecusável convite declinando-o delicadamente. Eu sei, devia atirar-me a um poço com um calhau atado ao pescoço. Ao declinar, ainda propus ser na noite a seguir, mas dado que não veio mais nada de volta, presumo que terão ficado a rir-se na dúvida desfeita sobre a minha masculinidade. E quem paga tudo isto? Quem é? Pois é… É a minha reputação! Não é que seja ou fosse alguma coisa de jeito, mas que assim se afunda, não hajam dúvidas. Qualquer gajo normal faria desta situação um dilema. Atrofiante, é certo, mas um dilema. Eu dei logo por certa a opção. Aliás, nem ponderei. Nem sequer foi opção. Foi só mesmo dizer “não” e pronto. Uma vez que vou para a tal cidade na beira litoral, pode ser que tome realmente consciência do que fiz (ou não fiz) e, num gesto único para tentar salvar a honra, ponha termo à existência saltando para o mar profundo com um tijolo atado ao pescoço. Não pode é ser depois do jantar, por causa da digestão. Um gajo ainda pode morrer com uma congestão. pickwick
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publicado por riverfl0w às 19:30
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Quinta-feira, 12 de Agosto de 2004
Crack!...
“Crack” faz o pescoço quando, num golpe seco e rápido, partimos o pescoço a alguém. A técnica é relativamente simples, e assenta no elemento surpresa para surtir o efeito desejado. Como qualquer técnica de defesa pessoal, conseguimos fazer maravilhas antes de o adversário se aperceber de que vamos actuar e ainda tem os músculos relaxados. O que façamos nessas fracções de segundo são suportadas unicamente pelas articulações dele, sem qualquer apoio da massa muscular. Uma hesitação nossa, um atraso na acção, podem ser suficientes para que o adversário tome consciência e o seu cérebro comande os músculos para se retesarem, num gesto de auto-protecção. Aí, o nosso golpe dará em nada, e ainda nos arriscamos a levar um enxerto de porrada. O que é muito chato, claro. A questão do pescoço é interessante. A mão esquerda empurra para a direita a base do pescoço. A mão direita, como uma mola, empurra secamente a cabeça para a esquerda. E faz “crack”! Ainda não experimentei isto num gesto real, só em simulações, mas posso anunciar que se aproxima o momento. Ou a possibilidade. Hoje estacionei o meu carro aqui na terrinha, no meio de muitos outros carros. Daqui a dois dias vou dá-lo à troca por um carro melhor. Há que o preservar até ao momento, para não desvalorizar. Quando chego para me vir embora, eis um bilhete no vidro, preso pela escova: “O carro preto que lhe bateu do lado direito tem a matrícula XX-XX-XXXX. Passar no posto da GNR.” Beeemmmmm… Dou a volta e, de facto, uma amolgadela maior que a cabeça de um boi, mesmo junto ao pisca. Já na GNR, onde foram muito prestáveis, vão tratar de dar caça ao mongo, um “emigra” qualquer, para meter a companhia de seguros dele ao barulho e financiarem o arranjo. É uma excelente altura para isto acontecer, a dois dias de despachar o carro. Lindo serviço! Quem o viu foi um elemento da GNR da zona de Lisboa, à paisana, que foi ter com o mongo autor da proeza e, vendo-o a pôr-se ao fresco, ainda lhe tentou deitar a mão, mas escapou-se numa pseudo fuga. Este agente deixou-me o bilhete no vidro e um relatório da ocorrência. Só me vem uma coisa à cabeça neste momento. Eu, o mongo e “crack”! CRACK!!!! pickwick
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publicado por riverfl0w às 00:13
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Quarta-feira, 11 de Agosto de 2004
Nãããoooooo!!!
É um grito de dor que ecoa nos palácios vistosos dos meus tímpanos. É um rasgo no escuro da solidão. É um apelo desesperado ao que já aconteceu ou que está mesmo a chegar. É a solicitude por uma mão amiga. Pode ser tudo isto, sim. Mas, no caso presente, era apenas uma gaja a gritar para a sua cadela Castro Laboreiro. Apesar de eu ser uma pessoa relativamente fria e insensível, os meus níveis de sensibilidade estoiram muito facilmente quando alguém grita perto de mim. Sinto um ímpeto obscuro de saltar que nem uma mola e partir o pescoço à fonte do chiqueiro sonoro. Valham-me as leis e a polícia e a constituição da república, que se não fosse este trio já tinha protagonizado uns quantos homicídios aqui e acolá. Mas ontem foi mais um teste à minha capacidade de descontracção e levitação mental. Fui a casa de uma colega ver o que se passava com o computador dela e a cadela, coitada, sete meses, fica doida quando me vê, associando-me condicionalmente a umas quantas festas, mordidelas e brincadeiras. Como a dona está fazer de conta que a anda a treinar, aquilo tornou-se rapidamente numa desobediência total, já que era suposto a cadela ficar sentada e sossegada, só se erguendo quando a dona desse ordem para tal. Sim, sim! Bom, o resultado do entusiasmo da pobre cadela foi uma cena que mais parecia uma guerra de ciganos em plena Feira de Carcavelos, ela agarrava o animal pelo cachaço, o animal gania quanto podia, e ela gritava-lhe “Nãããooooo!!!”. Ó pá! Eram 23h30, francamente! Eu se calhar não me expliquei bem… o gritar dela não era bem gritar… como é que eu hei-de explicar… imagine-se que estamos amarrados de pés e mãos, deitados numa maca, e aparece um tipo barbudo, mal cheiroso, obviamente com piolhos, 1.92m de altura, um terço dos dentes podres, outro terço inexistentes, outro terço em mau estado, sorriso alucinado, rebarbadora na mão, ligada, aproximando-se de nós, a baba escorre-lhe pelo canto da boca asquerosa, esgalha ainda mais aquele sorriso anormal e avança a rebarbadora para o nosso corpo… que nos apetece fazer? Gritar? Pois… bem alto, bem histericamente… foi como ontem, com a pobre cadela. Até se me arrepiou a espinha! Lá para a n-ésima vez que regressou da garagem depois do espectáculo (sim, porque repetiu isto uma boa série de vezes), perguntei-lhe, numa voz extremamente calma, se não seria má ideia fazer aquelas cenas todas à cadela, por causa do stress, traumas, etc. Ela respondeu-me, também numa voz calmíssima, que um treinador de cães lhe tinha dito que tinha de ser assim. E eu retorqui-lhe “Ah, pronto”. Moral da história: se gosta de paz e sossego, não case com uma aprendiz de treinadora de cadelas. pickwick
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publicado por riverfl0w às 10:42
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Terça-feira, 10 de Agosto de 2004
Fora do igual
Ontem foi dia de cinema aqui chez moi. Não à letra, porque tive de me deslocar dezoito quilómetros para chegar à sala, mas é como se fosse. O filme não interessa muito, se bem que me fartei de rir, o que é bom, porque olhar aqui para as paredes de casa e desatar a rir não seria um bom sinal. Mas posso dizer qual era o filme. Era “Mulheres Perfeitas” e pecava pela falta de mulheres jeitosas. Contradição? Quiçá! Ainda a única que escapava era a Nicole Puto-Homem, mas… é daquelas que quanto mais produzida mais artolas parece. Enfim. Comigo – ou eu com elas – foram duas mocinhas. Idades pouco acima dos vinte, corpinhos elegantes e desengonçados, muita energia… uma delícia de companhia! Uma delas já conhecia, nome de código Gata (já foi referenciada num post qualquer atrás, embora sem nome de código e muito menos nome), e foi com esta que combinei. Ela insistiu em levar a amiga, nome de código Alfa India. Hum, isto não fica nada bem. Que raio código… do que eu me fui lembrar! Deve ser por ela ter ido com umas calças tipo militar (ou caçador de búfalos). Pronto, não me ocorre outro, fica este. Ora bem, Alfa Índia é que é uma coisa séria. Estudante de Engenharia Foxtrot (foxtrot é o nome de código da engenharia que ela estuda, como se depreende), calha que seja colega de curso do meu irmão, na mesma universidade, embora não se conheçam um ao outro. É uma miúda muito fora do igual, facto que me trouxe muita alegria, porque é sinal que ainda há esperança neste mundo. De quê, não sei, mas há esperança. Temos então ali uma mocinha extremamente inteligente, muito culta, muito simples, simpática até chorar por mais, curiosa q.b., bonita, elegante, não é loira, tem uma borbulha enorme na bochecha esquerda, e é muito, mas muito, mas mesmo muito delicioso conversar com ela. Voa-se! Não sei explicar. Não é o mesmo que ter uma mistura de dois monólogos. Ʌ é como entrelaçar os dedos das mãos!… É lindo!… Bom, depois, esta mocinha tem todos aqueles atributos provenientes da caixa encefálica (escuso-me de comentar os atributos físicos, porque os dela encaixam que nem uma luva na minha idealização da mulher perfeita) que fazem com que um labrego como eu fique completamente fascinado, de beiço caído, atordoado, mas sorridente. Porque estas coisas são lindas, e são o que nos fazem acreditar que o mundo é realmente bonito para além das montanhas e das cascatas. Em resumo, olhar para ela, naquela simplicidade tão rica, só me dá vontade de sorrir. A viagem de volta para casa foi de sorriso nos lábios. Soube bem. O mundo é belo! pickwick
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publicado por riverfl0w às 22:25
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Domingo, 8 de Agosto de 2004
Se eu tivesse ido para Gigolo
Gigolô: s.m.1 indivíduo que vive à custa de uma prostituta; 2 rufião (do fr. Gigolo, «amante») – in Dicionário da Língua Portuguesa 2003, Porto Editora. Pronto, não era bem esta definição técnica que tinha em mente, mas é sempre bom uma pessoa informar-se sobre o real significado das coisas antes de sobre elas dissertar libertinamente. Isto vem a propósito de me chegar à “alembradura” uma conversa tida há alguns anos atrás com um amigalhaço, em que o tema foi precisamente este. Na altura, que era uma altura como qualquer outra, não me recordo os metros, tanto eu como ele andávamos numa fase ruim das nossas vidas. Após cinco anos de veneração pelas nossas namoradas, colegas de turma na universidade, fomos escorraçados e trocados: ele foi trocado por um menino de bem com uma perspectiva de lazer limitada ao caixote da TV e a um monte de cassetes de vídeo, e eu fui trocado por um haitiano balofo de cinquenta e tal anos que dançava em discotecas africanas e engatava gaiatas curiosas. As soluções para os nossos problemas de adaptação à nova vida descomprometida tardavam em chegar, e as que apareciam batalhavam entre si para ver qual era a pior. Da minha parte, que trabalhava e estudava ao mesmo tempo, não me ocorria assim mais nada a não ser atropelar um camião TIR com a minha Vespa branca, algures nos cinquenta quilómetros que separavam a minha casa do local de trabalho. Não sobrava muito tempo para implementar outra solução, diga-se, até porque era o ano do projecto final de curso, e os fins-de-semana estavam preenchidíssimos com actividades associativas. Quanto a ele, bem menos preso em compromissos, ainda teve coragem para calçar as botas da tropa, enfiar o saco cama na mochila e ir (e vir) à boleia até Beirute para resgatar uma das irmãs que estava refém do casamento atormentador com um árabe e toda a sua cultura extremista de machismos. Quando regressou a Portugal, trazia a solução para os nossos problemas: irmos até ao Algarve para sermos gigolôs. Nessa altura ainda não tinha passado na TV o sucesso do Zézé Camarinha. Quem lhe tinha explicado a ideia foi um dos camionistas que lhe deu boleia, enchendo-lhe a cabeça de histórias de muito sexo, muito dinheiro e muito boa vida. Exactamente o que estávamos a precisar. A ideia era mesmo excelente. Lembro-me perfeitamente que na altura só visualizámos grandes aventuras com mulheres abastadas e loucamente carentes, entre piscinas, palacetes e carros de luxo. Faltava-nos o traquejo para dar daqueles conselhos à Zézé Camarinha, “your skin is very white… put cream number five”… mas enfim, nós íamos mesmo era para sermos gigolôs e não conselheiros dermatológicos. Bom, tanto pensámos no assunto, tanto nos entusiasmámos, que ficámos em terra. Ainda bem, digo eu. O meu amigalhaço, passados cerca de dez anos, é hoje um homem casado, com dois filhos espectaculares, e muito feliz. Eu também não, à parte do feliz, que também sim, dentro dos possíveis. Mas não sei como seria se tivesse ido mesmo para gigolô. Provavelmente iria à falência, sem clientela. Ou apanharia uma “doençola” daquelas jeitosas. Enfim, coisas do desespero… pickwick
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publicado por riverfl0w às 10:26
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Sábado, 7 de Agosto de 2004
O herói afinal é outro
Seja um livro, ou um filme, ou uma música, há quase sempre um herói que buscamos algures. O príncipe que salva a miúda presa no cimo da torre com um vestido foleiro uma carinha de morrer. O jovem que vence tudo e todos, conquistando o seu lugar ao sol, e ainda por cima traz de brinde uma moçoila toda bem composta. A personagem de uma canção que desperta sonhos, vontades e sentimentos abafados pela monotonia diária, enquanto o vocalista faz saltar artisticamente o micro de uma mão para a outra (não, não é o Marco). É isto que procuramos. O desespero de não sermos nós próprios heróis faz-nos buscá-los noutro lado qualquer, e o que está mesmo à mão são estes produtos da sociedade, que consumimos uns atrás dos outros. Muitas vezes sem peso nem medida, pois já não há pachorra para escolher. Tudo o que vem à rede é toucinho. O curioso, permitam-me o atrevimento, é que chego vezes sem conta à conclusão de que, afinal, o herói é outro. Talvez seja culpa da sociedade, que adultera tudo e todos em favor de sabe-se lá o quê. Não sei. Só sei que me incomoda, que me dá uma sensação de vazio olhar à volta e ver que o herói afinal é outro. Se se trata de um livro, o herói acabará por ser o seu autor, e não a personagem da história, por mais vidas que tenha salvo, por mais miúdas que tenha conquistado, por mais países que tenha conhecido. Fala-se, numa atitude exibicionista da própria cultura, no autor do livro. Personagens? Valores? Pfff… isso é completamente irrelevante! Se é um filme, o herói não é a personagem, mas sim o actor. Até porque, verdade seja dita, as pessoas já vão ao cinema em função dos actores e não da história em si. O argumento pode ser uma banhada total, os efeitos idem, mas se o actor é o fulano tal, vamos lá que é um bom filme. E na música a mesma coisa. Não se gosta da canção. Ao princípio até se pode gostar, mas, mais tarde ou mais cedo, o povo verga a mola ao cantor e a canção que se lixe. A canção, a tal que nos faz sonhar, pensar, sorrir, encantar, voar, perde lugar para o vocalista, a banda, o cabelo desgrenhado, as pulgas a saltar entre os pêlos do peito. É uma coisa impressionante, digo eu. Diz-se que se gosta de ler Saramago, de ver Spielberg e de ouvir Queen, assim com um ar tão culto, são sabedor, tão jet-set, tão superior, que ultrapassa em atropelo a simplicidade de se gostar de ler “Levantado do Chão”, ver “E.T.” ou ouvir “Bohemian Rhapsody”. A nossa sorte, a salvação da pátria, o último baluarte da verdadeira simplicidade da apreciação, está na Internet. Gosta-se de Internet, sim, mas aqui não há culto que nos valha. O herói, somos sempre nós. Nós navegamos, nós comunicamos, nós mandamos emails, nós vemos sites, nós falamos no Msn, nós fazemos downloads, nós arranjamos amigos, nós somos os maiores. Chegou a nossa era! Estamos safos! pickwick
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Sexta-feira, 6 de Agosto de 2004
Comprometimentos
Estava ali no mirc a conversar com a malta jovem quando veio à baila uma amiga do peito. Normalmente não considero ninguém como amiga do peito, e muito menos amigo do peito, mas neste caso abro uma excepção por motivos circunstanciais. Chamemos-lhe Helena (nome de código) para manter o anonimato e a privacidade da rapariga. Por acaso até se chama mesmo Helena, mas como há muitas, o nome de código pode ser o mesmo que ninguém lá chega. Essa Helena foi minha colega de trabalho há uns anos atrás, coisa pouca, tipo 4 ou 5. Era assim uma solteirona com ar ganzado, tipo Óbelix, como se tivesse caído em pequena num barril cheio de ganza em estado líquido. Mas só mesmo isso. Por que de resto, ó Deus, estavas atento quando lhe deste os atributos… estavas, sim… E bem, na altura, acontece que aqui o je era um homem comprometido. Fica sempre bem ser-se comprometido, embora por vezes não dê muito jeito. Mas, compromisso é compromisso, tal como o comprimido é um comprimido, e mais nada havia a fazer. A Helena, a par de ser solteirona, tinha um namorado algures a uns 500km, assim uma distância mal contada entre o Alentejo e o Porto, o que não a impedia de tratar dos seus anseios físicos por aqui e por ali. Mais por ali. A amizade do peito advém de um confronto nocturno, algures noutras paragens, salvo erro ali para os lados de São Martinho do Porto, num vão de escadas qualquer, onde, em plenas 5h badaladas da madrugada, a amiga sente uma vontade enorme de ser abraçada, rogando-me que lhe satisfaça a vontade sem qualquer outra intenção… uma embrulhada, está claro. E como um abraço é um abraço, não passa daí, mas algo se passa nos entremeados, ou não fosse o acontecimento só por si revestido de um contacto físico que deixa levantar o véu que tapa o mistério do peito. Sim, porque o peito tem sempre mistério. E bem, como já era tarde e más horas, e o cansaço vencia o raciocínio lógico, ainda demorou algum tempo até virar o resultado ao contrário e me aperceber do que estava ali a fazer, naqueles preparos, num vão de escadas, a abraçar uma esquizofrénica ninfomaníaca. Enfim, vindo a mim, afastei-a e desejei-lhe boa noite. Mais algumas semanas, mais outras quantas tentativas dela para repetir o afago, mas aí, sendo horas de jeito, não me deixava cair novamente na argolada. Se bem que, certo dia, me arrancou à força do banco do carro e me arrastou para dentro da sua casa, em plena rua de uma vila alentejana, com toda a promiscuidade que isso acarreta… mas ainda assim fui capaz de me escapar ileso por entre aquelas garras que quase me esborrachavam o tórax. Hoje, passados tantos anos, finado o comprometimento da altura, sinto uma saudade indefinível de rever a Helena. É mais a curiosidade, confesso. Sabe bem largar umas gargalhadas, e esta miúda sempre foi muito prendada em me fazer rir a bandeiras despregadas. Nem que seja só pelo seu olhar completamente lunático, pelos seus lábios sensuais constantemente num esgar ninfomaníaco, e um comportamento imprevisível e muito, mas muito, esquizofrénico... pickwick
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publicado por riverfl0w às 00:06
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Quarta-feira, 4 de Agosto de 2004
Tu que me olhas
Este título parece o início de um poema maricas escrito num momento de grande fraqueza psicológica ou instantes após uma valente diarreia. Não é o caso, acho eu. Quero discorrer sobre um certo tipo de olhares que aqui e ali nos trespassam, deixando-nos uma sensação de incómodo e inquietação. Completamente diferente de quando uma loiraça muito cheia de predicados nos olha de cima abaixo com a ponta da língua a navegar de um lado para o outro das beiças como as luzinhas dianteiras do “Kit”. Não me recordo da última vez que este exemplo aconteceu comigo, mas não faz mal. Sonhar é ser livre. Ou vice-versa. Voltando ao olhar inicial, tema desde post… É um olhar intenso, penetrante. Que sentimos? Bem, sente-se que atrás daquele olhar está alguém que sabe algo de nós, demasiado até, e que está a processar a uma velocidade incrível os conhecimentos que tem sobre nós, tentando encaixá-los na forma física em que os olhos penetram. Como se estivesse a pensar “ah!, então és tu…” É uma experiência transcendente, confesso. Há um “quê” de incómodo na possibilidade de o autor conhecer pormenores da nossa vida que não deveria conhecer. Pormenores que podem ser, só por si, incomodativos. Como os bastidores de um teatro. É, acima de tudo, uma sensação. Não há ali nada de concreto naquele olhar. Talvez apenas o tempo demasiado prolongado, a fixação invulgar. Do lado de cá, convenhamos, há a certeza de haver qualquer coisa que nos pesa na consciência. Ou não fossemos comuns mortais, sempre fraquejando no abismo do pecado. Tudo junto, dá uma volta ao estômago. Ou duas. Não há faíscas a saltar pelos ares, nem o mais leve ranger de dentes, nem os dedos crispados, nem uma sobrancelha aos saltinhos… apenas aquele olhar, intenso, prolongado. Um olhar que perscruta, que analisa, que absorve, que tenta complementar a informação anterior com qualquer pequenino detalhe observável. Os nossos gestos, as nossas palavras, a nossa postura física, a nossa maneira de caminhar, para onde olhamos, tudo é passado a pente fino e computado para ajudar a elaborar o perfil final. Espero não passar por outra assim nos tempos mais próximos… mas se tiver que ser, que seja com a tal loiraça, bolas! Haja qualidade de vida! pickwick
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publicado por riverfl0w às 10:04
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Terça-feira, 3 de Agosto de 2004
Play safe
“Jogar pelo seguro” é uma expressão sobejamente conhecida. Não sei já onde nem quando a tomei como lema para operações sociais, mas é certo que às suas custas me tenho livrado de inúmeras situações escandalosas. Ou nem tanto. Mas é um bom lema. Sem dúvida. É assim como que viajar numa estrada completamente esburacada, sentadinho no conforto de uma poltrona aos comandos de um hovercraft. Não há buraco ou pedra que nos faça dar um solavanco. Por outro lado, porque tudo tem outro lado, a adopção fanática deste lema leva a que se nos escape por entre os dedos outras tantas oportunidades de alcançarmos algo. “Quem não arrisca, não petisca”, dizem, e é o contraponto precisamente do “jogar pelo seguro”. O ideal seria um meio termo, gerido sabiamente consoante os contextos e as variáveis em causa. Mas, meios termos é daquelas coisas que rareiam em todo o lado, pois, sendo nós exemplares do fabulástico bicho Homem, aplicamo-nos de corpo e alma no abuso dos extremos. Ou demasiado ao mar, ou demasiado à terra. Assim sendo, tombando eu mais para um dos lados, neste caso para o do jogo seguro, está na cara que tenho arquivado um reportório imenso de oportunidades perdidas, deitadas fora a favor da segurança de não errar. Isto parece um lamento, eu sei. Mas, a parte boa é quando descobrimos que jogar pelo seguro foi a melhor opção, quando limpamos o suor da testa naquele gesto de alívio por termos escapado a algum escândalo. Foi isso que senti ontem. Muito aliviado. O silêncio sempre foi bom companheiro e excelente conselheiro nos momentos de hesitação. O silêncio, a imobilidade e a inactividade. Há gestos que dão em catástrofes, há palavras que dão em tempestades. Ainda bem que me contive nos dois. Um gesto mais atrevido ou uma palavra mais íntima e estaria o caldo entornado. E bem entornado. Dizer o que sentimos, sermos sinceros, não escondermos o que pensamos, são coisas bonitas, mas nem sempre devemos ser assim. Há momentos em que só a nós estas coisas dizem respeito, e partilhá-las com quem queremos muito que as saibam, pois a elas dizem directamente respeito, pode ser completamente desastroso. Acabei de escapar a isso. E volto a dizer: que alívio! pickwick
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publicado por riverfl0w às 11:31
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