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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

02
Jul06

A cria de búfalo

riverfl0w
Acho que nunca desabafei sobre a Sandra. Bem, a Sandra era uma vizinha da minha prima com quem eu mantive uma certa afinidade e, até, uma certa amizade, embora a distância não desse azo a mais nada. Parecia boa mocinha, bem feitinha, querida, simpática e ah e tal. Uma vez, há mais de uma década atrás, andava eu feito ao desespero, a tal ponto que fui na conversa de ir para o “Dia Depois”, aquela famosa discoteca beirã, onde pulula uma concentração inacreditável de mentes vazias. O desespero era tanto, que quando dei por mim estava a dançar uma daquelas MCF’s (leia-se, Música para Constituir Família) agarrado a ela, a lambuçarmos as beiças um do outro. Durou pouco tempo, note-se, pois em poucos segundos descobri, graças ao divino raio de luz da bola de espelhos, que a Sandra tinha paletes de borbulhas na cara. Ora, o desespero tem limites. Pronto. Enfim, seja como for, trocámos correspondência durante alguns anos, até que o destino da vida levou ao esquecimento mútuo. Até ao dia em que dei de caras com ela aqui na vila, a meia dúzia de metros dos correios. Conversa puxa conversa, ah e tal, ficámos de ir beber um copo para contar mais novidades. Isto já foi há uns anos, mas desde esse cruzamento que começou um tormentoso aturo de uma doente esquizofrénica. A bem dizer, uma mulher que vive mundos fora daqui, que inventa situações, cancros da mama e da nádega, leucemias e diarreias, sei lá, ora adeus que vou viver para Londres, ora olá que afinal não vou porque vou ser operada ao cérebro, olha isto, olha aquilo, enfim. Certa noite, já na N-ésima em que me ligava e mandava SMS com mais episódios fantásticos das sete vidas dela, pedidos de socorro e declarações de arrependimento, devolvi a última SMS, lá para as 4 e-troca-o-passo horas manhã, cuja redacção era mais ou menos assim: “ligas-me outra vez e saio daqui disparado até tua casa (ela vivia com os pais), arrombo-te a porta, ponho o bairro todo a pé e nem a GNR te safa”. Um gajo por vezes tem de ser assim, poético, para merecer alguma atenção. Foi remédio santo durante algumas semanas, mas com esquizofrénicos não há sol que dure. Optei por ignorar, o que também deu alguns resultados, tendo diminuído as SMS patéticas quase até à nulidade. Como que assunto resolvido. Considero-o resolvido, de facto. Ontem, a minha prima casou-se. Eu fui ao casamento e a Sandra também. Não lhe dirigi a palavra e o dia passou-se bem. Seja como for, e porque eu realmente tenho mesmo muito mau feitio, não resisti em dedicar alguns momentos de reflexão sobre a Sandra. Reflexões maléficas. Bom, pasmei-me ela ter um filhote, estar prenha de outro, e ter um marido, ou companheiro, ou sei lá. O companheiro é um tipo extremamente franzino, tipo judeu em estado terminal num campo de concentração nazi na última guerra mundial, com três únicas diferenças em relação a esses infelizes: estava vestido como as pessoas que vão a um casamento, tinha gadelha que dava para fazer um pincel e tem uma companheira esquizofrénica. É um infeliz, também. Não sei como é que lhe fez um filho, francamente. A Sandra é quase maior que eu, tanto em altura como em outras dimensões físicas. Tem uma bunda. Para os mais incultos, “bunda” é um excesso bidimensional das nádegas. Não é “quadridimensional”, porque as nádegas não se excedem para a frente, onde fica a zona púbica, nem na vertical. Ou seja, excesso bidimensional, a saber: para os lados e para trás. E uma grande bunda. Como é que o gajo foi capaz de… enfim! Mas alguém consegue ter prazer em coiso e tal?… Oh, francamente, é que não há qualidade! Nem condições de serventia. Mas, o que foi mesmo um choque estético, foi a visão horrenda ao sair da missa. Eu não sou de andar a olhar para estas coisas, claro, mas estava sol e enfim, há coisas que saltam mais à vista que outras, por bons ou por mais motivos. Neste caso, por um péssimo motivo. É que a Sandra, essa mutante mal engendrada, estava vestida com umas calças de licra pretas, meio transparentes ao sol, mais de meio, para ser preciso, saltando à vista a já descrita bunda, uma etiqueta das calças em cima da costura alinhada com o rego das nádegas, e… ó pá, isto até custa a dizer… até tenho receio que me venha o jantar à boca… mas aquela gaja tinha umas cuecas tipo tanga! Tanga, carago! Tipo fio dental! Mas isto admite-se? Mas isto compreende-se? Fiquei logo mal disposto. Isto devia ser proibido. Parece um filme de terror. Arre! Bem, passados os momentos iniciais de agonia, passei umas quantas horas a tentar traduzir. Como toda a gente sabe, há uma percentagem relativamente grande de seres humanos que se assemelham fisicamente a certos animais. Há os cara-de-golfinho, os cú-de-galinha, os narizes-de-catatua, enfim. Dei voltas e mais voltas até encontrar um animal que encaixasse na Sandra. Ou a Sandra se encaixasse nele. Ao cabo de muitas horas de árduo esforço mental, entre copos de vinho verde e lombinhos de porco com castanhas, cheguei à solução: uma cria de búfalo! Tal e qual. Caros búfalos, perdoem-me, não foi por mal, eu até vos curto, sois uns bacanos e ah e tal, mas é uma questão meramente visual. Efeito óptico, estão a ver? Desculpem lá. pickwick

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