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Terça-feira, 4 de Julho de 2006
O pesadelo num sonho de pescador

No domingo fui até à Barragem da Aguieira lavar uma canoa e dar umas pagaiadas com o Miguel, para desenferrujar o corpo entorpecido por meses de cativeiro. Junto a uma ponte, existe um restaurante, uma loja de pesca e um parque de estacionamento, onde combinámos encontrar-nos. A sessão de canoagem foi divertidíssima. Apesar de sensação de andar a navegar numa sopa de cadáveres, patrocinada por aquele já célebre talhante de Santa Comba Dão, é sempre um prazer sulcar as águas calmas e esverdeadas de um lençol de água, abalroando um ocasional peixe morto ou serpenteando entre nacos de madeira apodrecidos. A parte mais divertida reside na falta de destreza da tripulação da canoa, muito adeptos dos golpes de rins que fazem desequilibrar a embarcação. Os artistas, são bons artistas, e assim proporcionaram o belo espectáculo de virar a canoa várias vezes. Um dos motivos para os golpes de rins e o consequente naufrágio, ou mesmo o maior motivo, era a bela da gargalhada. Pronto, um gajo ri-se por tudo e por nada, a barriga contrai, deixa de estar relaxada, contrai para aqui, contrai para ali, e em menos de nada um gajo está a gargarejar a bela da sopa esverdeada, com peixes minúsculos a saltarem pelas narinas. Bom, com toda a aventura e divertimento, chegou-se ao fim como numa prova de natação: todos estafadinhos e todos molhadinhos. Uma vez que se aproximava a hora do almoço e a fome começava a fazer corpo presente, demos um saltinho à loja de pesca, para tentar comprar uma t-shirt para o Miguel, que se tinha esquecido de uma de reserva. A verdade é que ele não tinha contado com os naufrágios da embarcação. Enquanto o Miguel corria a loja à procura, com o dono a mostrar-lhe as existências, eu vim até à rua ver o ambiente e a montra da loja. Aí, na montra, dei de caras com o calendário 2005 da Zebco, uma marca de equipamento para pesca. Aquilo não era um calendário. Era uma mostra de horrores! Não consegui evitar uma cara de enjoado e uma boca toda aberta. Os calendários, a cores e bem grandes, mostravam mulheres nuas e semi-nuas em poses artísticas com… peixes! Pá, não estou a falar de sardinhas nem petingas! Estou a falar de peixes grandes! Muito grandes e cheios de lodo. Elas encostavam as mamas aos peixes, seguravam neles com carinho como se lhes fossem beijar apaixonadamente as beiças, sentavam-se em cima deles como se tivessem um prazer fantástico em roçarem-se nas escamas, eu sei lá. Fiquei como que atirado para o meio de um pesadelo! Uma gaja toda boa e nua sentada em cima de um descapotável numa oficina de mecânica, ainda que bezuntada com óleo queimado, ainda vá que não vá, mas… peixes?! Peixes grandes?!... Por favor! Eu não tenho em muito boa conta os caçadores. Mas os pescadores, pronto, eu até pesquei uns peixitos no Mondego, quando ainda não tinha barba e a actividade até era divertida. Mas esta marca Zebco considera os pescadores como seres semi-humanos, animais com pila de homem que se excitam com um par de mamas e umas belas nádegas, mas que se excitam muito mais quanto as mamas e as nádegas contracenam com um peixão feio e asqueroso. Se a marca existe é porque tem clientes, e, se os clientes compram equipamento da marca, é porque se encaixam no perfil destinatário da publicidade. Ou seja, são uns tarados! Resta-me avisar as mulheres deste país: se o vosso marido, companheiro, namorado ou amigo das cambalhotas, usa equipamento Zebco, atenção! Ficai cientes que, naqueles momentos de grande paixão e ternura, de corpos suados e respiração ofegante, a visão bi-ocular do vosso parceiro estará a repartir equitativamente o vosso corpo real com a imaginação de um peixe enorme e feio, num verdadeiro e excitante ménage-à-trois. pickwick






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publicado por riverfl0w às 02:21
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