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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

10
Jul06

A verdade e a mentira

riverfl0w
Parece o nome de um filme com actores musculados e encardidos e actrizes de cabelo oxigenado e lábio inchado à pressão, mas não é. A verdade e a mentira aconteceu hoje, já perto da hora do almoço, quando fui a um dos supermercados cá da terra abastecer-me devidamente para proporcionar um almoço romântico a dois na estranha cozinha do meu apartamento. Depois de alguns passos vigorosos entre o carro e a entrada, esbarrei-me com uma mãe de filhos e respectivo marido. Eu temo insistir muito nisto, mas, francamente, há gente que não devia casar-se, ter filhos e, muito menos sair de casa. Esta senhora tinha uma aparência aparentemente normal, para quem é mãe, assim do tipo bola de Berlim, vestido à sopeira e cambalear pesado. Olha uma mãe, pensei eu, a poucos metros de me cruzar com ela, que, por sua vez, estava a três passos do resto da família e do respectivo carro. Tudo corria bem, até ao momento em que a mãe abriu a boca para falar para a família e sorrir. Valha-me Deus! Eu já tinha visto umas coisas parecidas na net, mas nunca ao vivo, e nunca tão medonho! A senhora, coitada, tinha um pavão dentário dentro da boca! Uma coisa descomunal e horripilante! De ambas as mandíbulas saltavam dentes com cerca de 8 cm, cada um disparado em sua direcção, quase como a cauda de um pavão, só que com as penas desorientadas. Tipo filme de terror! Quase como o “Eduardo Mãos de Tesoura”, mas adaptado para as mandíbulas, com as tesouras transformadas em dentes. Não é humano! Nestes momentos, que acabam por ser demasiado frequentes, não consigo evitar perguntar-me a mim mesmo que raio de homem é que se casa com um par de mandíbulas tão medonhas?! Deve aproveitar os sacos do InterMarché para qualquer coisinha, lá naqueles momentos mais íntimos, quase que aposto. Um verdadeiro camafeu, aquela mulher! Entrei no supermercado meio atordoado pelo choque estético e fui encher o cesto. Nisto, surge no supermercado uma jovem mulher, dos seus vinte e poucos anos, alta, esbelta, formas exemplares, vestido clássico todo preto, saia solta, sapato alto a condizer, óculos, cabelo claro, costas direitas, caminhar firme e hirto, sorriso a cumprimentar as funcionárias, cesto em riste, enfim. Ia eu para pensar comigo como esta terra está a mudar, que já não tem só camafeus com tesouras a sair das mandíbulas e feiosas com bigode enrolado, e tal, quando reparo mesmo na moçoila. Ora, afinal, era a miúda (com o devido respeito, que já deve ser licenciada) que atura as criancinhas mais parvinhas ali no centro de explicações. Olhei com mais atenção, especialmente do pescoço para baixo. Aquilo… era uma fraude! Assim, de preto, vestida daquela maneira, é compreensível que faça virar todas as cabeças masculinas nos arredores, mas eu sei que é uma fraude, uma mentira. Ela tem andado a fazer dieta, de certeza, só pode, porque é rechonchuda e abonada da bunda por natureza, a atirar para o disforme, até, retirando-lhe qualquer atributo perto da elegância. Além da possibilidade da dieta, podia estar a usar um colete-de-forças, estilo corpete medieval, com aquelas cuecas cor bege que fazem gangrenas nas nádegas de tanto apertarem a bunda. Enquanto passeava o meu cesto em busca de petiscos para o tal almoço, lá me fui entretendo com os meus botões, divagando sobre o triste que acabar por ser caçado por aquela mulher, fascinado pelo vestido preto e o aspecto intelectual, e que só mais tarde dará conta que, afinal, a gordura abunda naquelas partes do corpo onde mais gostamos de assentar as manápulas. Viverá momentos felizes enquanto continuar a ser enganado por aquela mentira. Coitado. Com um sentimento de pena, regressei a casa para preparar o tal almoço romântico. Pousei os olhos na deusa de lingerie azul sentada na minha sala, sorrindo com a minha chegada. Devorei, com os olhos, a elegância debaixo da lingerie e o que sobrava a descoberto. Sorri, deliciando-me com um pensamento: esta é verdadeira e não engana! Sou um gajo com sorte, carago! pickwick

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