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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

18
Jul06

A cabra merendeira

riverfl0w
Depois de uma voltinha pelo Piódão, fustigada há menos de vinte e quatro horas pela fúria da natureza, acabámos no belo museu local, muito bem conseguido, muito bem conservado e muito interessante. Fiquei espantado com a história daquelas paragens, com os artefactos expostos e com a boa apresentação de tudo. De entre as muitas histórias e descrições da vida local, houve uma que me fascinou particularmente. Faço aqui uma descrição, com adaptação e comentários da minha autoria. Ora, naqueles tempos, os pastores levavam os numerosos rebanhos de cabras pelos montes, passando os dias com elas. De entre as cabras, havia uma eleita que respondia pelo nome de “cabra merendeira”. Bonito nome! O pastor, que não podia andar ali pelos montes com tachos e panelas e demais elementos do trem de cozinha, queria fazer umas sopinhas de leite à maneira. Assim, chamava a “cabra merendeira”, a qual poderia ter uma alcunha mais íntima, tipo Alice ou Zélia, e molestava-a sexualmente durante algum tempo. Merendeira vem de merenda, termo usado em vez do moderno lanche ou do muito popular “snack”, pelo que, se os tempos fossem agora, seria a “cabra lancheira” ou a “cabra do snack”. Os historiadores do museu tentaram encobrir a verdade com palavras vagas como ordenhar e tal, mas eu bem sei como são os pastores, ainda para mais um pastor com uma cabra especial, no meio dos montes, afastado de olhares censuradores. Ao fim de algum tempo de abuso sexual, teria uma tigela cheia de leite. A pobre da cabra, sem acesso a qualquer cuidado de saúde um apoio psicológico, voltava ao resto do rebanho, com as sensíveis tetas muito molestadas. O pastor, então, tirava das brasas da fogueira uma pedra ao rubro e colocava-a na tigela, fazendo o leite da cabra abusada sexualmente ferver em apenas alguns segundos. De seguida, o pastor desfazia uma broa em pedaços e misturava-os com o leite quente, proporcionando uma deliciosa sopinha de leite. Esta técnica requintada, que tanto me fascinou, foi habilmente descrita pelos historiadores como tendo o objectivo de amolecer a broa ressequida com o leite quente. Ora, os historiadores podem ter alguma habilidade em intrujar os visitantes ingénuos, mas eu, com a minha abrangente experiência de vida, topei logo a tramóia dos pastores e a vontade dos historiadores de esconder a dramática verdade das gentes daquela região, talvez para não prejudicar o turismo. Não era muito bonito o Piódão ser conhecido pelos hábitos pouco católicos dos seus pastores. Imagine-se a placa à entrada da aldeia: “Bem-vindo ao Piódão, aldeia dos pastores que andam pelos montes a apalpar as tetas às suas cabras”. Não era nada bonito, pois não? Bem, a tramóia dos pastores deduz-se com alguma facilidade. Depois de consumado o abuso sexual nas pobres e transtornadas cabras, era necessário encobrir todas as provas do crime. O leite era a prova mais cabal desse abuso. Qualquer teste ao DNA provaria qual a cabra envolvida, ligando-a ao leite, às tetas com nódoas negras e ao pastor responsável pelo rebanho à qual pertencia o pobre e indefeso animal. Havia, pois, necessidade de esconder ou destruir a prova do crime. O leite, como todos sabem, é um líquido amarelo esbranquiçado, que não se evapora com facilidade e que, directamente da origem e longe das adulterações dos produtores, tem uma forma espessa que não desaparece facilmente nem se infiltra na terra. Assim, o método mais eficaz de resolver o problema de um teste ao DNA da cabra seria ferver o leite. A fervura, como é sabido, destrói os micróbios do DNA. Alguns dos mais famosos “serial-killers” da história do crime ficaram famosos por introduzir esferas em brasa nas vaginas das vítimas, para, precisamente, fazer ferver o sémen denunciador, matando os micróbios do DNA nele presentes e impedir que fossem indiciados. É triste que façamos parte de um país cujos pastores faziam destas coisas hediondas, eu sei. Hoje, já não há pastores e as cabras são ordenhadas “in vitro”, mas a perversidade anda aí, passada de geração em geração, de pais para filhos, de pastores para apresentadores de TV… enfim! pickwick

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