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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

19
Jul13

A fuga

pickwick

Eu devia saber melhor. Um gajo deveria aprender com as experiências da vida. A vida ensina-nos, deixa-nos sinais, azeda-nos a sopa quando troveja, encharca-nos os rissóis com bolor quando os esquecemos num canto, incha-nos os pneus quando desequilibramos a ingestão de pastéis de nata e rojões à alentejana com o desgaste físico típico do sedentarismo, e por aí fora. Também nos faz voltar a usar fraldas quando chegamos àquela proximidade simpática das nove dezenas de anos, mas isso agora não interessa.

 

Bom, ainda assim, com tantos avisos, fui acossado pelo desespero e sucumbi novamente à tentação de conhecer uma moçoila. Não tanto às escuras como daquela vez em que… coiso… enfim… no desconcertante caso da “Blind date da Michelin”… mas, ainda assim, num estilo algo bisgarolho, tendo apenas, como únicas referências, um sorriso tímido e uma centelha de cintura. O que é a vida sem aventura? Isso mesmo…

 

Assim sendo, combina-se um jantar, antecedido de tempo e espaço para conversar e conhecer.

 

Em tempos que já lá vão, que foram muito bons, a Maria da Luz (nome de código) perguntou-me, de corpo nu meio enroscado na minha perna, por que raio eu teimava em dormir sempre de cuecas. Apesar de ela explicitamente denunciar o seu gosto pelo contacto continuado com a completa nudez masculina, eu fiz questão que lhe explicar, exactamente, porque insistia em dormir de cuecas: é simples, se aqui o prédio pegar fogo a meio da noite e eu tiver que sair a correr, estou imediatamente apto a correr pelo meio do gentio. Eu sou assim. Não gosto da sensação de poder ser apanhado desprevenido.

 

E foi com esse espírito que fui ao encontro da moçoila. Estacionei a mota ao lado do estádio, posicionada da forma mais adequada para poder sair dali que nem um foguete, caso as coisas corressem mal.

 

A cerca de seis metros dela, descobri que tinha feito asneira. Eram seis míseros metros contra os mais de cinquenta que me separavam da mota, esse meio de fuga estratégica, salvadora de incautos caçadores de sonhos e adoradores de rabos de saias. Lição a reter: quando a fuga é opção, o meio de transporte tem que ficar a menos de dois palmos.

 

Um gajo leva logo com um banho de água fria, mas a boa educação impera. Vai daí, sentam-se os dois no sossego da mesa de um bar, e a conversa desenrola-se naturalmente. Com bastante simpatia. E, confesso, com alguma intimidade. Ao ponto de ela reconhecer que parecia que nos conhecíamos há bastante tempo. Eu aproveitei para lhe tirar as medidas às mãos, à cintura, ao peito, à dentadura, aos cabelos, ao nariz, e a tudo o que se atravessasse à frente do meu olhar de… coiso.

 

Chegado o tempo, mudámo-nos para o restaurante. Muito simpático, bom ambiente. A conversa continuava animadíssima e a intimidade aumentava a olhos vistos, apesar de não haver nenhum dedo de pé algum a trepar – qual glorioso macacão à conquista do coqueiro – discretamente por uma perna acima.

 

Por fim, fiz-me à estrada para regressar à minha pacata terrinha, escapando a uma tremendamente subtil sugestão para só regressar mais tarde, depois de uns quantos copos de cerveja. Um gajo respira de alívio, quando consegue safar-se assim.

 

Pelo caminho, que sempre eram duas horas de viagem na frescura da noite, aproveitei para sintonizar as ideias:

 

1. Notável corpinho de 25 anos, apesar de 41.

2. Cara de 50, dentes de 60.

3. Cintura, check!

4. Divorciada e mãe de 4 filhos.

5. Aos 35, desencaminhou um garanhão de 17 anos, com quem casou logo e ao qual sacou 3 filhos.

6. Ninfomaníaca meio assumida, com “carta de condução” para aventuras sem limites, exceptuando cenas com pancada, sangue e animais domésticos.

7. Quando está com “o pito aos saltos” (a expressão é minha, homenageando a linguagem de tempos idos), telefona ao “ex” e resolvem rapidamente a necessidade (mútua).

8. O “ex” continua a viver na esperança de a ter de volta.

9. Segundo a própria, tem um número generoso de pretendentes e fãs assumidos.

10. Relação estranhíssima com um nadador-em-notas-de-duzentos-euros, que a toma por sua namorada, ainda que nunca tenha tido passaporte para viajar até ao doce paraíso das cuequinhas dela.

 

Quanto dei por terminada a lista, o meu punho instintivamente curvou-se e a mota ficou com jeitos de foguete. pickwick

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