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Arautos do Estendal

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Ela, do alto das suas esbeltas e intrigantes pernas, veio caminhando quintal abaixo até ao estendal, dependurando a toalha onde, minutos antes, tinha limpo as últimas gotas de água. O Arauto viu, porque o Arauto estava lá. E tocou a trombeta.

Arautos do Estendal

03
Out06

Extra

riverfl0w
Era uma vez uma mãezinha que tinha um filhote de quatro anos num colégio. Certo dia, recebeu do colégio uma lista de propostas de actividades extra-curriculares para o seu descendente, com os correspondentes euritos a desembolsar. Inglês, informática, psicomotricidade, etc. Do melhor! Esta mãe, danada com tudo isto e muito mais, chegou aqui à tasca e começou a debitar papaias e ceroulas sobre as actividades extra-curriculares das crianças, e os horários, e o estresse dos pais de um lado para o outro para levarem os filhos todos às actividades todas, e as mensalidades a mais, e a pertinência desta ou daquela actividade, e para quê tudo isso, e blá blá blá. Pois, querida mãe, apraz-me tecer alguns comentários sobre essa coisa das actividades extra-curriculares e outras que tais. Para começar, devo deixar bem claro que essa coisa do Inglês para as criancinhas novas é uma estratégia grosseira e desprovida de bom senso. É fruto da moda e da estupidez humana. Os pais que tenham dois dedos de testa, optarão por inscrever os seus pirralhos de palmo e meio em aulas de Chinês, mas nunca de Inglês. A língua inglesa, está cotada no mercado como a terceira língua estrangeira mais simples. A mais simples de todas é a Linguagem Universal do Sexo, composta por apenas quatro palavras, a saber: hum, oh, si e cariño; a seu tempo, mais cedo ou mais tarde, com jeito ou sem ele, as crianças aprenderão esta linguagem. A seguir, vem a linguagem dos bosquímanos e, logo a seguir, a língua inglesa. É uma estratégia idiota inscrever as crianças em aulas de Inglês. A opção correcta será o Chinês. Passo a explicar. Para se expressar convenientemente por via escrita em Chinês, assim como ler, estima-se que seja necessário conhecer uma média de três mil caracteres. Ora, como presumo seja compreensível, tal conhecimento obriga ao desenvolvimento do intelecto e da memória da criança. Ter aulas de Inglês é ter um bando de putos a sonharem com a Floribela enquanto identificam peças de mobiliário e divisões da casa num desenho colorido. Pais, tenham juízo, por favor! Tal como esta, a esmagadora maioria das actividades extra-curriculares são estupidamente inúteis, consomem rios de dinheiro e alqueires de tempo, e não trazem proveito visível. Houvesse utilidade nestas actividades e eu seria um defensor acérrimo das mesmas. Por exemplo, tendo em conta esse fenómeno público chamado “Bullying”, em que andam touros à solta a marrar nas crianças, na escola ou na rua (daí a origem do nome, bull=touro), seria razoável que se criassem aulas de toureio, para as crianças aprenderem a lidar com a situação. Em alternativa, umas aulas de Judo também ajudariam, uma vez que é muito fácil fazer escorregar um touro de quinhentos quilos com um simples mas eficaz varrimento dos cascos dianteiros. Outra actividade muito útil, para crianças a partir dos três anos, seria Lides Domésticas. Sim. As mães desde país são muito tapadinhas e não percebem a utilidade de uma actividade extra-curricular deste género. Em vez de andarem feitas baratas tontas a levar as crianças à Pintura, ao Canto Coral e à Psicomotricidade, faltando depois o tempo para lavarem a roupa, passarem-na a ferro, fazerem o jantar, passarem a esfregona no chão, lavarem a loiça, pintarem as unhas, etc., juntavam o útil ao agradável e traziam para casa criancinhas instruídas nessas artes todas da lide da casa, companheiras fiéis das tarefas todas, reduzindo para cerca de dois terços o trabalho habitual que têm de arcar pelo simples facto de serem mulheres. Até a Informática, essa disciplina irritante, poderia ser reestruturada e considerada de utilidade evidente. Para tal, seria necessário eliminar aquelas parvoíces da utilização de processadores de texto, de edição de desenhos e do tempo desperdiçado com CD’s e DVD’s que os pais compram, iludidos que são pedagógicos. A Informática para Crianças dos Três aos Onze anos, deveria contemplar conteúdos mais úteis, tais como Gestão de Homebanking (carregamento de cartões de telemóvel, consulta de saldos, transferências bancárias, pagamento de serviços, etc.), Aquisição Electrónica de Bens em Hipermercados, Consulta de Horários de Transportes, Consulta de Boletim Meteorológico, Consulta de Páginas Amarelas, etc. É de louvar, contudo, quando esta ocupação de tempos livres das criancinhas tem como motivação prevenir o contacto com telenovelas idiotas que abundam na televisão, embora não se perceba porque é que os pais têm tempo para andarem a correr de um lado para o outro a levar as criancinhas para uma actividade e para outra, gastando tempo e mais tempo, e não têm tempo para ficarem em casa a conversar, a brincar e a educar as criancinhas. Eu sei porque é. É porque, enquanto andam no leva-e-traz, abundam álibis e oportunidades para dar umas facadinhas nos matrimónios! Ah pois é! A verdade dói, mas é mesmo assim. Seja como for, o que estes pais, que colocam as criancinhas em actividades tão dignificantes e pedagógicas, não sabem, é que fica a faltar aquele elemento crucial na vida e no crescimento delas, chamado Paz & Sossego! É este o elemento que faz a criancinha parar uns instantes e perguntar-se a si mesmo: o que vou fazer agora? Dá-lhe tempo para magicar planos maquiavélicos para depenar o piriquito, fazer um graffiti no peixe-dourado, meter gel no pêlo do gato, roubar as cuecas novas do estendal da vizinha da frente ou atar uma lata ao rabo do cachorro. Estas manias da modernidade estão a deturpar séculos de vida em sociedade. Nos meios rurais, as crianças já não incham as rãs com cigarros, já não trazem lagartixas para a escola, já não inventam diabruras. Hoje, andam com um ar de aluadas, meio babadas, de beiço descaído, a falar em iPods e gigas e outras porcarias que não sabem como funcionam mas que fica muito bem como assunto de conversa. É que, a bem dizer, entre meter uma criancinha no Inglês ou comprar-lhe um iPod, o resultado é o mesmo: horas e horas de abstinência intelectual e inutilidade, em prol da modernidade e da cultura que dificilmente alcançarão por essas vias. Por isto tudo, pais e mães deste país, aconselho o seguinte programa educativo para uma tarde pós-escola: duas horas no quarto com uma lata cheia de Legos, um isqueiro e um gato; uma hora a ajudar nas lides domésticas e a tentar escapar às perguntas difíceis da mãe; uma hora na rua a borrar-se todo e a levar porrada dos mais velhos; meia-hora a arrumar os Legos; e meia-hora a explicar ao pai a necessidade de queimar o rabo do gato. Experimentem e logo verão as diferenças. pickwick